Atualizações em Distúrbios de Movimento – Jul/11

Publicado: 05/08/2011 em Distúrbios de Movimento

Questões no Manejo a Longo Prazo na Síndrome das Pernas Inquietas

(“Long-Term Management Issues in Restless Legs Syndrome”)

 Chokroverty, S.

 Mov Disord. 2011; 26(8):1378-85.

 

Abstract: A síndrome das pernas inquietas (SPI) é um distúrbio do movimento e do sono com sintomas que duram a vida inteira, causando considerável morbidade. Vários ensaios clínicos de curto seguimento e alguns de longo seguimento, abertos e duplo-cegos, têm demonstrado a eficácia e segurança da terapia dopaminérgica na SPI. O tratamento a longo prazo, entretanto, está associado ao surgimento de efeitos colaterais incômodos e duradouros, que se mostram como desafios aos clínicos. Estas complicações a longo prazo podem ser categorizadas como associadas à doença em si (impacto sobre o sono e exacerbações agudas dos sintomas da SPI) e ao uso das medicações (aumentação, ataques de sono, transtornos de controle de impulsos, abuso e dependência, reação local e, ocasionalmente, apneia do sono, complicações fibróticas e aumento de peso).

Comentário: Escrito por uma das maiores autoridades mundiais em Distúrbios do Sono, este artigo foca nas questões práticas que podem surgir no seguimento a longo prazo de pessoas com SPI. Relembra como situações simples, como deficiência de ferro, podem exacerbar os sintomas, e comenta sobre as drogas que pioram a SPI (inibidores seletivos de recaptação da serotonina e da noradrenalina, anti-histamínicos e anti-eméticos) e a forte associação entre SPI e síndrome da apneia obstrutiva do sono. Um dos pontos forte é o trecho sobre diagnóstico e tratamento do fenômeno de aumentação, com orientações bem objetivas. Reforça também o caráter progressivo da SPI, mostrando que a tendência natural dos sintomas é de piorar ao longo dos anos, principalmente se iniciados após os 45 anos de idade. 

Link: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/21538518

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Congelamento da Marcha: Caminhando por um misterioso fenômeno clínico

(“Freezing of gait: moving forward on a mysterious clinical phenomenon”)

 Nutt JG, Bloem BR, Giladi N, Halett M, Horak FB, Nieuwboer A.

 Lancet Neurol 2011;10(8):734-44.

 

Abstract: Congelamento da marcha (CM) é um fenômeno clínico único e incapacitante, caracterizado por curtos episódios de inabilidade em dar passos ou por passos extremamente curtos que ocorrem tipicamente no início da marcha ou durante a virada, enquanto se caminha. Pacientes com CM, o qual é uma característica das síndromes parkinsonianas, mostram variabilidade na métrica da marcha entre os episódios de CM e uma redução significativa do comprimento do passo com tremores em pernas freqüentes nos episódios de CM. Estudos fisiológicos, de imagem funcional e clínico-patológicos apontam para distúrbios nas regiões corticais frontais, os núcleos da base e a região locomotora mesencefálica como as prováveis origens do CM. Medicações, estimulação cerebral profunda e técnicas de reabilitação podem aliviar estes sintomas da CM em alguns pacientes, mas estes tratamentos têm pouca eficácia em pacientes com CM avançada. Um melhor entendimento do fenômeno é necessário para ajudar no desenvolvimento de estratégias terapêuticas efetivas.

Comentário: O congelamento de marcha, a instabilidade postural e as alterações de marcha são fenômenos comuns às síndromes parkinsonianas e distúrbios correlatos (p.ex., hidrocefalia de pressão normal), de extrema morbidade e que pioram consideravelmente a qualidade de vida destas pessoas. Este artigo é uma revisão completa sobre o freezing, resumo dos resultados de um woirkshop internacional realizado sobre o tema, e é único em termos de descrição clínica do fenômeno. Quanto ao tratamento, reforça as estratégias com pistas visuais e auditivas, mas principalmente o uso de esteira na fisioterapia de reabilitação de marcha, a mais eficaz intervenção neste problema.

Link: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/21777828

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Trauma periférico e distúrbios de movimento: uma revisão sistemática de relatos de caso.

(“Peripheral trauma and movement disorders: a systematic review of reported cases”)

van Rooijen DE, Geraedts EJ, Marinus J, Jankovic J, van Hilten JJ.

J Neurol Neurosurg Psychiatry 2011;82(8):892-8.

 

Abstract: OBJETIVO: Executar uma revisão sistemática de relatos de caso na literatura nos quais o trauma periférico precedeu o início de um distúrbio de movimento. MÉTODOS: Dois revisores independentemente realizaram uma busca no Medline e EMBASE. Informações sobre características dos pacientes, tipos de distúrbios de movimento e tipos de lesões foram coletadas, assim como informações sobre a propagação do distúrbio de movimento, fatores predisponentes, características psicológicas, presença de lesões de nervo e tratamento. RESULTADOS: 133 publicações com achados de 713 pacientes com distúrbios de movimento induzidos perifericamente foram inclusos. Os distúrbios de movimento foram mais comuns em mulheres. O distúrbio de movimento induzido perifericamente mais comum foi a distonia fixa, a qual estava geralmente associada com dor e anormalidades sensoriais da parte do corpo afetada. Em 26% dos pacientes, uma lesão nervosa foi identificada. Mais que um terço dos pacientes tinha síndrome de dor regional complexa; estes pacientes são mais jovens, têm um intervalo mais curto antes do desenvolvimento do distúrbio de movimento e mais frequentemente mostravam a disseminação dos distúrbios de movimento para outras partes do corpo. Aproximadamente 15% foram diagnosticados como distúrbios de movimento psicogênicos. Os distúrbios de movimento psicogênicos estavam associados com freqüências mais altas de distonias fixas e tremor. Em geral, a resposta a vários tratamentos, incluindo aplicações de toxina botulínica, era decepcionante. CONCLUSÕES: Enquanto existe uma sobreposição entre distúrbios de movimento induzidos perifericamente e distúrbios de movimento psicogênicos, esta revisão indica que existem muitos casos bem documentados de distúrbios de movimento induzidos perifericamente. Isto sugere que os distúrbios de movimento, tal como distonia, tremor, mioclonia e tiques, podem, sob certas circunstâncias (por exemplo, lesões de nervo ou predisposição genética), ser desencadeados por traumas periféricos. Mecanismos potenciais que podem explicar a possível fisiopatologia são discutidos.

Comentário: É sempre um desafio determinar se um distúrbio de movimento (DM) após trauma é de origem orgânica ou psicogênica, e este interessante trabalho epidemiológico demonstrou alguns dados interessantes sobre DM associados a traumas (DMAT): (1) a distonia é o distúrbio mais comum nestes casos, podendo ser desde posturas fixas em membros (padrão mais comum) até distonias cervicais e blefarospasmos; (2) há uma nítida relação entre DMAT e DM’s de origem psicogênica, e sua diferenciação é muito difícil, já que a manifestação clínica é idêntica e quase um terço dos pacientes com DM psicogênico não tem qualquer outro transtorno psiquiátrico; (3) presença de ganho secundário e problemas no trabalho são bem comuns nos DM psicogênicos e (4) DMAT são mais refratários aos tratamentos, mesmo com toxina botulínica. Como a maioria dos pacientes não tem alterações psiquiátricas, realmente se acredita que haja uma relação patofisiológica entre o trauma e o DM.

Link: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/21493756

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Estimando a taxa anual de declínio: dados prospectivos e longitudinais sobre gravidade de tremor em membros superiores em dois grupos de tremor essencial.

(“Estimating annual rate of decline: prospective, longitudinal data on arm tremor severity in two groups of essential tremor cases”)

 Louis ED, Agnew A, Gillman A, Gerbin M, Viner AS.

 J Neurol Neurosurg Psychiatry 2011;82(7):761-5.

 

Abstract: CONTEXTO: Apesar de sua alta prevalência, surpreendentemente existem poucas informações prospectivas e longitudinais sobre o curso clínico do tremor essencial (TE). Os próprios pacientes frequentemente querem saber de seus clínicos se e como seus tremores podem piorar ao longo do tempo. MÉTODOS: Como parte de 2 protocolos de pesquisa, informações prospectivas e longitudinais foram coletadas sobre gravidade do tremor em 2 coortes de casos de TE (44+39 casos, n combinado=83). No início da avaliação e após 1 ano de seguimento, uma avaliação detalhada foi executada e o tremor de ação foi pontuado por um neurologista especialista em distúrbios do movimento experiente usando uma escala clínica padronizada (Total Tremor Score (TTS), pontuação 0-36). RESULTADOS: Na primeira coorte, o TTS aumentou anualmente em 0,32 (±0,89) pontos (aumento anual de 5,3 ±17,1% – mediana 1,8% – a partir do escore da primeira avaliação). O TTS aumentou em ≥ 0,5 pontos em 23/24 casos (95,8%) seguidos por ≥ 5 anos. Na segunda coorte, o escore TTS aumentou anualmente em 0,64 (±1,49) pontos (aumento anual de 3,1 ±8,1% – mediana 2% – a partir do escore da primeira avaliação). O TTS aumentou em ≥ 0,5 pontos em 11/15 casos (73,3%) seguidos por ≥ 5 anos. Nenhum fator na primeira avaliação foi identificado como preditor de mudança anual na TTS. CONCLUSÕES: A maioria dos casos de TE exibiram uma piora progressiva em escores de tremor com o tempo, a qual foi estimada como um aumento médio na gravidade do tremor entre 3,1% a 5,3% e a mediana do aumento anual a partir da primeira avaliação foi entre 1,8% e 2%. Estas estimativas publicados serão um guia prognóstico útil para os clínicos e seus pacientes.

Comentário: Este elegante trabalho buscou responder uma velha pergunta que neurologistas e portadores de tremor essencial (TE) se fazem: “TE progride com o passar dos anos?” Apesar das dificuldades técnicas que uma coorte como essa exige, foi nítido que 70 a 80% dos pacientes com TE tem piora do tremor ao longo do tempo (tempo médio de seguimento no estudo de 5,7 anos), a uma taxa de 3 a 5% por ano (baseada em uma escala validada de tremor). Fatores de risco que pudessem estar relacionados a um pior prognóstico na foram identificados. Esta informação é importante para se reter e passar aos pacientes, quando formos questionados, e mostra que o TE cada vez mais se mostra também como uma doença degenerativa. Nem tão essencial assim, como se diz. 

Link: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/21436230

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Doença de Parkinson: Questões Não-Motoras

(“Parkinson’s disease: The non-motor issues”)

Chaudhuri KR, Odin P, Antonini A, Martinez-Martin P.

Parkinsonism Relat Disord 2011; Jul 7 [Ahead of Print]

 

Abstract: Sintomas não-motores (SNM) da doença de Parkinson continuam pouco considerados e pouco pesquisados quando avaliados em um todo. Informações estão emergindo, mostrando que as queixas totais dos SNM são os principais determinantes da qualidade de vida, e não um isolado SNM, como a depressão. Somente ferramentas recentemente validadas como a NMSQuest, que possibilita aos pacientes declararem os SNM, e as escalas NMS e SCOPA, além da versão modificada da MDS-UPDRS, estão disponíveis e validadas para a avaliação clínica prática dos SNM. Pela primeira vez, ensaios clínicos estão incorporando sintomas não-motores como medidas de desfecho, e recomendações clínicas para o tratamento de SNM da DP estão sendo publicados. Esta revisão almeja discutir alguns destes tópicos e aspectos práticos no manejo da doença de Parkinson nos dias atuais.

Comentário: Pelo tema bastante badalado nos últimos anos, esta revisão sobre sintomas não-motores da DP parecia ser promissora, mas é superficial e nitidamente foi escrita para divulgar uma escala criada pelo grupo dos autores do artigo para avaliar sintomas não-motores (NMSQuest). Contudo, é útil em passar a mensagem de que nós devemos cada vez mais nos preocupar com os sintomas não-motores, na mesma proporção que com os aspectos motores, pois podem ser responsáveis pela verdadeira queda na qualidade de vida destas pessoas.

Link: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/21741874

comentários
  1. Sara disse:

    Wonderful post. I learned many interesting things. Thank you)

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