Atualizações em Doenças Neuromusculares – Jul-Ago/2011

Publicado: 10/08/2011 em Doenças Neuromusculares

Neuropatia Craniana Múltipla Variante da Síndrome de Guillain-Barré: Uma Série de Casos

(“Multiple cranial neuropathy variant of Guillain-Barré syndrome: A case series”)

Wang Q, Xiang Y, Yu K, Li C, Wang J, Xiao L.

Muscle Nerve. 2011 Aug;44(2):252-7

 

Abstract: A polirradiculoneuropatia inflamatória desmielinizante aguda ou síndrome de Guillain-Barre (SGB) é uma doença imunomediada geralmente precedida por um quadro infeccioso. A apresentação clínica clássica é de um quadro progressivo, de paresia ascendente simétrica, flácida, hipo ou arreflexa. Entre 46-62% dos pacientes se observa acometimento de múltiplos nervos cranianos(NC). Paresia facial uni ou bilateral é a mais comum, seguida por alterações IX, X e V. A despeito desse quadro, há diversas variantes da SGB, como a síndrome de Miller-Fisher, as variantes axonais agudas – sensitivo motora e motora, a pandisautonomia aguda e a polineurite cranialis. Essa última corresponde por cerca de 3-5% dos casos da SGB.

Comentário: Essa série de casos se refere a rara variante da SGB – polineurite cranialis. O seu adequado reconhecimento é fundamental para instituição terapêutica adequada. Ele chama atenção para a manifestação inicial mais comum em sua série de casos, o comprometimento bulbar bilateral (IX e X NC) em contraponto as referencias previas de acometimento inicial do nervo facial. Com a evolução do quadro observa-se paresia leve nas extremidades e hipo ou arreflexia em todos os pacientes. A dissociação proteino-citológico ocorre mais precocemente se comparada a SGB o que pode sugerir uma progressão mais rápida. O estudo ainda sugere que o uso da imunoglobulina humana endovenosa gerou melhora na escala funcional de Hughes quando comparado a dexametasona endovenosa. 

Link: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/21698648

————————————————————————————————————————————————————————-

 

Atrofia Espinomuscular: Uma Revisão Oportuna

(“Spinal Muscular Atrophy: A Timely Review)

Kolb SJ, Kissel JT.

Arch Neurol 68 (8), Aug 2011

 

Abstract: A atrofia muscular espinhal (AME) se refere a um grupo de doenças genéticas neurodegenerativas, caracterizadas por perda neuronal secundária a degeneração do corno anterior da medula com conseqüente atrofia muscular e perda de força.  Após os primeiros relatos de Werdnig e Hoffmann, no final do século XIX, diferentes relatos demonstraram pacientes com quadros clínicos diferentes. Esse grande espectro de apresentação tinha por base a idade de inicio dos sintomas e a severidade dos mesmos. Reconhecidamente todos apresentavam degeneração das células dos cornos anteriores da medula e um padrão de fraqueza simétrico, com predomínio proximal, podendo acometer a musculatura axial, intercostal e bulbar. Aproximadamente 95% dos casos, independentemente do tipo, estão associados a mutações no gene SMN1. Os humanos apresentam 2 formas do gene SMN1, uma telomérica SMN1 e outra centromérica SMN2. Essa é idêntica àquela com exceção da substituição C por T na posição 840 que leva a exclusão exon 7 durante a transcripção do gene. Isso gera uma proteína SMN truncada e não funcional que é rapidamente degradada. A ausência da proteína SMN leva a degeneração do corpo celular do neurônio motor. Todavia essa exclusão não é completa e cerca de 10-15% RNAm é capaz de ser transcrito. Assim, a variabilidade no espectro da AME depende da variabilidade do gene SMN2.

Comentário: O artigo trás a tona os tratamentos em estudo que buscam o aumento na expressão da proteína SMN. A terapia baseada em pequenas moléculas tem esse objetivo e testes vêm sendo realizados com inibidores da histona deacetilase como ácido valpróico, butirato de sódio, fenilbutirato e tricstatina A. Apesar dessas medicações terem apresentado desfecho favorável nos estudos animais, esses não se confirmaram nos ensaios clínicos. Uma segunda terapia promissora se basea no uso dos oligonucleotídeos antisense (ONA), que são moléculas terapêuticas de RNA que favorecem a incorporação do exón 7 no RNMm transcrito do SMN2. Os ONA levam a inclusão do exon 7 e aumento na expressão da proteína SMN em camundongos. Um problema foi a não penetração da barreira hemato encefálica que foi solucionado pela injeção intracerebroventricular. Algumas variações na terapia baseada no RNA vêm sendo testadas em estudos pré clínicos. Por fim, a abordagem mais direta se basea na substituição do gene SMN1. Tal abordagem teve sucesso em modelo animal com auxilio de adenovirus como vetor.  Tais terapias necessitam de ser testadas e aprimoradas em modelos animais para que a posteriore possam ser usadas com segurança em ensaios clínicos.

Link: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/21482919

————————————————————————————————————————————————————————-

 

Avanços terapêuticos na Distrofia Miotônica tipo 1

“Therapeutics Development in Myotonic Dystrophy Type 1”

Foff EP, Mahadevan MS

Muscle Nerve. 2011 Aug;44(2)

 

Abstract: A Distrofia Miotônica (DM1), a distrofia muscular mais comum nos adultos, é uma doença genética, autossômica dominante, multissistêmica, causada por uma expansão repetitiva CTG que leva à retenção nuclear de RNAs mutantes e à subseqüente toxicidade ao RNA. Insights significativos sobre os mecanismos moleculares da toxicidade pelo RNA levaram à possibilidade, previamente inesperada, de que tratar a DM1 seria um projeto viável. Nesta revisão, apresenta-se brevemente o quadro clínico da DM1 e descreve-se como a pesquisa no entendimento da patogênese da toxicidade pelo RNA na DM1 tem levado a abordagens direcionadas a desenvolvimentos terapêuticos em vários passos da fisiopatologia da doença. Conclui-se com uma discussão da necessidade de ferramentas clínicas e medidas de desfecho, ainda não disponíveis, que são pré-requisitos essenciais na avaliação de terapias potenciais nos estudos clínicos.

Comentário: Esta revisão, com um enfoque proeminente na área básica, é ideal para o entendimento da fisiopatologia da DM1. A fim de se encontrar alvos específicos para o tratamento da doença, os autores detalharam todos os passos fisiopatológicos conhecidos e as tentativas terapêuticas que vem sendo desenvolvidas. Um conceito interessante abordado é o de “spliceopatia”, doenças causadas por defeitos no splicing do RNA. A cascata fisiopatológica se inicia com a expansão anormal das bases CTG na região 3’ não traduzida do cromossomo 19, responsável pela transcrição da proteína DMPK, causando o acúmulo de RNAs mensageiros mutantes que se agregam no núcleo e causam diminuição ou aumento da expressão de algumas proteínas que são essênciais no processamento dos mRNAs de várias outras proteínas envolvidas nas manifestações clínicas da DM1. A dificuldade em se achar um tratamento eficaz aumenta à medida que nos aproximamos do início desta cascata. Os tratamentos citados foram feitos em sua maioria em cultura de células ou em ratos com knockout de proteínas específicas, mas além de aumentarem muito a compreensão da doença, oferecem vários insights sobre terapias que vão fazer parte da neurologia e medicina modernas.

Link: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/21607985

————————————————————————————————————————————————————————-

 

Resposta ao tratamento em pacientes com Síndrome de Lewis-Sumner

“Response to Treatment in Patients with Lewis-Sumner Syndrome”

Attarian SVerschueren AFranques JSalort-Campana EJouve EPouget J

Muscle Nerve. 2011 Aug;44(2)

 

Abstract: INTRODUÇÃO: O objetivo é documentar a classificação da síndrome de Lewis-Sumner (L-SS) com base na resposta ao tratamento e ao seu padrão de progressão ao longo do tempo. MÉTODOS: Identificou-se retrospectivamente 15 pacientes com L-SS tratados por pelo menos 12 meses. RESULTADOS: Após 1 ano, imunoglobulina intravenosa foi efetiva em 7 pacientes, 6 estavam estáveis e 2 pioraram. Após 5 anos, 5 pacientes melhoraram e 3 permaneceram estáveis. Estes 8 pacientes precisaram de tratamento repetido e 2 pacientes pioraram gradualmente. Dois pacientes pioraram dramaticamente após tratamento com corticóide. Em 3 pacientes a neuropatia progrediu para os outros membros e evoluiu para uma polineuropatia assimétrica. Nos 12 pacientes restantes a neuropatia permaneceu focal e assimétrica. CONCLUSÃO: A possibilidade do declínio seguido ao uso de corticóide e o fato da não progressão neurológica para um padrão mais difuso ter sido observada na maioria dos pacientes sugere que a L-SS é uma entidade diferente da polirradiculopatia inflamatória desmielinizante crônica.

Comentário: A Síndrome de Lewis-Sumner é uma neuropatia sensitivo-motora, desmielinizante, com padrão multifocal (mononeurite múltipla), que geralmente se inicia com sintomas sensitivos, mais nos membros superiores e apresenta bloqueios de condução nos nervos motores. Este artigo é interessante porque apresenta a evolução esperada da doença em vigência dos tratamentos atualmente disponíveis. Como desfecho primário foi utilizada a escala de Rankin modificada (mRS) e como desfecho secundário a soma do MRC. Além de ajudar a caracterizar a L-SS como uma neuropatia distinta da PIDC e da neuropatia motora multifocal, o trabalho mostra o que esperar do tratamento a médio e longo prazo e o cuidado que se deve ter ao se usar corticóide nesta doença.

Link: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/21755505

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s