Atualizações em Cefaleias – Jul-Ago/11

Publicado: 12/08/2011 em Cefaleias

Fisiopatologia da Migrânea Crônica e Mecanismo de Ação de Profiláticos

(“Pathophysiology of Chronic Migraine and Mode of Action of Preventive Medication”)

Mathew NT

Headache. 2011 Jul;51 Suppl 2:84-92

 

Abstract: Evidências obtidas através dos estudos dos últimos anos comprovam que realmente ocorrem alterações encefálicas em pacientes migranosos, principalmente migranosos crônicos, ou seja, aqueles que além de preencherem critérios para Migrânea, apresentam crises em >= 15 dias no mês. Dentre as alterações apresentadas, o artigo destaca as de cunho estrutural, fisiológica e bioquímica, além de alterações relacionadas à resposta a analgésicos opióides, o que aumentaria as chances de evolução para uma migrânea de episódica para crônica. Desse modo, alerta para a possibilidade da intratabilidade da migrânea em pacientes expostos à opióides. Por fim, os semelhantes mecanismos de ação de alguns medicamentos profiláticos, como anticonvulsivantes, anti-hipertensivos e anti-depressivos, lembrando o possível efeito em comum da supressão da excitabilidade cortical (depressão alastrante).

Comentários: As alterações estruturais, fisiológicas e bioquímicas que ocorrem em paciente migranosos e principalmente migranosos crônicos, teriam relação com o tempo da doença, por isso, sendo mais encontradas na migrânea crônica do que na migrânea episódica. Alteração Estrutural: Destaque para a Substância Cinzenta Periaquedutal – alterações estruturais nesta região com a evolução da doença seriam responsáveis pela alteração na modulação trigeminovascular. Alterações Fisiológicas: Evidências através de PET-Scan, comparando migranosos crônicos x controles, mostram hipometabolismo na região órbito-frontal desses pacientes; além disso, foi avaliado hiperexcitabilidade cortical, através de índices de estimulação transcraniana, sendo visto que em migranosos crônicos existiria um elevado índice de excitabilidade cortical, reduzindo o limiar para desencadear crises de migrânea. Alterações Bioquímicas (Sensibilização Central): Durante uma crise de migrânea, ocorre sensibilização periférica (vasos e nervos), inicialmente, que é representada clinicamente pela piora da dor aos esforços e movimentação; em seguida, ocorre sensibilização de neurônios de 2ª ordem (através da ativação trigêmino-vascular e núcleo trigêmino-espinhal); em seguida, no tálamo, ocorreria a sensibilização de 3ª ordem, o que clinicamente vemos como hipersensibilidade extracefálica ou alodínia. Temos então o sintoma “alodínia”, como um sinal de progressão da migrânea e estudos mostram que tal sintoma ocorre mais comumente em migrânea crônica. Bigal e Lipton, através de análise de vários trabalhos relacionando pacientes com cefaléia crônica e uso excessivo de medicamentos, observaram que pacientes em uso de barbitúricos apresentariam mais risco para progressão da migrânea de episódica para crônica, seguido pelos opióides. Um achado importante foi que o uso de AINES foi protetor contra cronificação da migrânea, porém apenas em pacientes com menos de 10 episódios por mês. Por fim, o artigo relembra que o mecanismo de ação da maioria dos medicamentos profiláticos utilizados em migrânea, seria a supressão da depressão alastrante cortical, além de relatar estudo que mostrou que a eficácia dos profiláticos é dose-dependente, chamando a atenção de titular a dose para evitar efeitos colaterais.

Link: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/21770930

—————————————————————————————————————————————————————–

 

Migrânea e Síndrome das Pernas Inquietas: existe associação?

(“Migraine and Restless Legs Syndrome: is there an association?”)

Cannon PR, Larner AJ

 J Headache Pain. 2011 Aug;12(4):405-9. Epub 2011 Jun 10

 

Abstract: Estudos de casos têm sugerido correlação entre Migrânea e Síndrome das Pernas Inquietas (SPI) e o artigo de revisão em questão, mostra evidências que confirmam tal associação e considera mecanismos patogênicos semelhantes, além de suas implicações para a prática clínica

Comentários: O artigo relembra que a migrânea é uma patologia onde existem inúmeras comorbidades, e dentre elas, atualmente, a Síndrome das Pernas Inquietas (SPI) entra na discussão se também seria uma condição comorbida. Através dessa revisão, foram mostradas evidências e discussões a respeito de possíveis mecanismos da relação entre Migrânea e SPI. Estudos relatados, em grupos selecionados confirmam que SPI é mais comum em migranosos que em populações controles, embora outros estudos julguem necessária a realização de estudos populacionais. A principal hipótese a favor da ligação entre as duas patologias, seria em desequilíbrio dopaminérgico. Entetanto, a seguinte questão intrigante seriam os efeitos diferentes dos agonistas dopaminérgicos em cada uma das doenças (melhora na SPI e piora na migrânea), além dos efeitos dos antagonistas dopaminérgicos também diferentes nas duas patologias (melhora na migrânea e piora sintomas da SPI). Mecanismos precisos precisam ser esclarecidos através de novos estudos. Uma das hipóteses seria que a SPI ocasiona um sono de qualidade ruim, e esse por sua vez serviria de gatilho para desencadear crises de migrânea. Novos estudos são necessários para estabelecer a real correlação fisiopatológica de duas doenças que tem um impacto importante na qualidade de vida e de custos diretos e indiretos.

Link: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/21660429

—————————————————————————————————————————————————————–

 

Toxina Botulínica Tipo-A no tratamento profilático da Cefaléia por Excesso de Medicamentos (CEM): estudo multicêntrico, duplo-cego, randomizado com placebo.

(“Botulinum toxin type-A in the prophylatic treatment of medication-overuse headache: a multicenter, double-bind, randomized, placebo-controlled, parallel group study”)

Sandrini G, Perrotta A, Tassorelli C, Torelli P, Brighina F, Sances G, Nappi G

J Headache Pain. 2011 Aug;12(4):427-33. Epub 2011 Apr 16

 

Abstract: A cefaléia por uso excessivo de analgésicos representa uma patologia extremamente incapacitante, com baixa resposta ao uso de profiláticos e recentemente, com o advento de evidências benéficas do uso da toxina botulínica para Migrânea Crônica, foi realizado este estudo, com uso do Botox em pacientes com Cefaléia por Uso Excessivo de Medicamentos. Um “n” total de 68 pacientes, acompanhados por 12 semanas. O end-point primário foi alteração na freqüência de crises entre o 28º dia e o 3º mês. O end-point secundário foi a redução no consumo de analgésicos no período acima considerado. Droga considerada segura e quase sem efeitos colaterais. 

Discussão: O estudo avaliou a eficácia e segurança do da toxina botulínica tipo A como tratamento profilático na Cefaléia por uso Excessivo de Medicamentos do tipo Migrânea e relatou achados que favorecem à resposta ao tratamento. O resultado mais importante foi obtido quando considerou-se pacientes com dolorimento pericraniano, tanto no end-point primário, quanto no end-point secundário (descritos no resumo) – avaliado pelo MIDAS e HIT-6. Questões: 1) tamanho da amostra pequeno, para não justificar poder estatístico no end-point primário?; 2) junto com Botox, nos pacientes com Cefaléia por Excesso de Medicamentos, foi retirado o uso dos analgésicos, o que poderia favorecer a melhora do grupo através de viés; entretanto, em ambos os grupos o uso de analgésicos foi retirado e a melhora foi expressiva no grupo do Botox. Por fim, o trabalho traz e confirma através de estatísticas, que, como o uso excessivo de medicamentos é um fator de risco para cronificação, assim como um fator que reduz a eficácia de tratamento profilático, a taxa de sucesso em prevenir crises de migrânea através do uso da toxina botulínica tipo A nas amostras, pode ser uma confirmação da eficácia deste tratamento, na profilaxia da migrânea crônica e, em particular, em pacientes com características clínicas peculiares, como, dolorimento pericraniano.

Link: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/21499747

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s