Atualizações em Neuroimunologia – Jul-Ago/11

Publicado: 12/08/2011 em Neuroimunologia

Vacinas e Risco de Esclerose Múltipla: Revisão Sistemática e Meta-Análise

(“Immunizations and risk of multiple sclerosis: systematic review and meta-analysis”)

Farez MF, Correale J

J Neurol (2011) 258:1197–1206

Abstract: O papel das vacinas no risco de desenvolver Esclerose Múltipla ou novo surto em um paciente não está estabelecido peremptoriamente.  O objetivo desse artigo é estimar o efeito de uma imunização no risco de desenvolver Esclerose Múltipla na vida adulta, assim como o risco de um paciente apresentar um surto devido a uma vacinação. Uma pesquisa foi realizada de forma sistemática nas bases de artigo MEDLINE (1966–January 2011), EMBASE(1977–January 2011) e  Cochrane Central Register of Controlled Trials (CENTRAL) (1961–January2011). Tanto ‘clinical trials’ randomizados como não–randomizados estudando os efeitos de qualquer vacinas recomendadas pelo Centro de Controle de Doenças (CDC) americano para crianças, adultos ou viajantes e BCG foram incluídas nesse estudo. Dois revisores trabalharam de forma independente ao extraírem informações dos artigos selecionados dos bancos de dados. Não foi encontrado aumento estatisticamente relevante em relação ao risco de desenvolver Esclerose Múltipla após as vacinas BCG (OR 0.96, 95% CI 0.69–1.34), Hepatite B (OR 1.00, 95% CI 0.74–1.37), Influenza (OR0.97, 95% CI 0.77–1.23), Tríplice Viral (OR 1.02, 95% CI 0.64–1.61), Polio (OR 0.87, 95% CI 0.61–1.25) ou Febre Tifóide (OR 1.05, 95% CI 0.72–1.53). Foi encontrado um efeito protetor para desenvolver Esclerose Múltipla para a vacinação contra Difteria (OR 0.60, 95% CI 0.40–0.90) e Tétano  (OR 0.68, 95% CI 0.54–0.84).  Também não foi encontrado risco em relação ao novo surto e vacinação contra Influenza (RR 1.24, 95% CI 0.89–1.72).

Comentário: Esse artigo responde uma pergunta muito comum entre os pacientes e os médicos. Uma vacina pode estar relacionada ao fato de desenvolver Esclerose Múltipla  ou, em um paciente com esse diagnóstico, uma vacina pode aumentar o risco de um surto? Os autores revisaram estudos randomizados e não randomizados (excluindo relatos de casos) nas bases de artigos MEDLINE e Cochrane  de forma crítica com embasamento estatístico. Outro fato a se considerar é que abarcaram estudos com adultos e crianças, pois vacinação em adultos está cada dia mais comum, e não podemos nos esquecer que Esclerose Múltipla não é uma doença restrita a adultos.

Link: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/21431896

——————————————————————————————————————————————————————————–

Distúrbios do Movimento em doenças paraneoplásicas e autoimunes

(“Movement disorders in paraneoplastic and autoimmune disease”)

Panzer J, Dalmau J

Current Opinion in Neurology 2011, 24:346–353

Abstract: PROPÓSITO DA REVISÃO: Serão descritos os avanços mais relevantes nos distúrbios de movimento mediados por processos autoimunes. Será dada ênfase nas associações clínico-imunológicas, novos antígenos e tratamento. ACHADOS RECENTES: Muitos distúrbios do movimento previamente considerados idiopáticos ou degenerativos agora são reconhecidos como imunomediados. Alguns distúrbios são paraneoplásicos, como a coreia associada ao anti-CRMP5, a rigidez e bradicinesia do anti-Ma2, a ataxia cerebelar e tremor do anti-Yo e a ataxia e pseudoatetose do anti-Hu. Outros distúrbios como a coreia de Sydenham, ou a coreia associada ao lupus eritematoso sistêmico e à síndrome antifosfolípide, que ocorrem em associação a múltiplos anticorpos, não são paraneoplásicas e são desencadeadas por mimetismo molecular ou mecanismos desconhecidos. Estudos recentes revelaram uma nova categoria de distúrbios, que podem ser paraneoplásicos ou não, e estão associados a anticorpos contra proteínas da membrana plasmática ou das sinapses. Eles incluem a encefalite anti-receptor de N-metil-D-aspartato (anti-NMDAR), que podem causar discinesias, coreia, balismo ou distonia (anticorpos NMDAR), o espectro da síndrome do homem rígido/rigidez muscular [ácido glutâmico-descarboxilase (GAD), anfifisina, proteína associada ao receptor GABA-A ou anticorpos contra receptor de glicina], neuromiotonia (anticorpos Caspr2) e opsoclonus-mioclonus-ataxia (antígenos desconhecidos). RESUMO: Neurologistas devem estar cientes de que muitos distúrbios de movimento são imunomediados. O reconhecimento destes distúrbios é  importante porque podem guiar para o diagnóstico de uma neoplasia oculta, e um número substancial de pacientes, principalmente aqueles com anticorpos contra proteínas de membrana ou sinápticas, respondem à imunoterapia.

Comentários: Nesse artigo de revisão os autores conseguiram de maneira concisa abarcar um bom número de distúrbios de movimento de causa imunológica, em especial os paraneoplásicos. Esses têm importância relevante, uma vez que são a chave do diagnóstico de tumores, e costumam apresentar-se meses antes do diagnóstico do tumor per se. Além do mais, os autores ressaltam a importância da identificação  dos anticorpos marcadores, para um melhor tratamento ao paciente.

Link: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/21577108

——————————————————————————————————————————————————————————–

Neuropatias desmielinizantes imunes induzidas por drogas

(“Drug-induced dysimmune demyelinating neuropathies”)

Stübgen JP

Journal of the Neurological Sciences 307 (2011) 1–8

Abstract: A neurotoxicidade ao sistema nervoso periférico induzida por drogas geralmente se manifesta como uma polineuropatia axonal comprimento-dependente (tipo “dying back”) predominantemente sensitiva. Mas, raramente neuropatias desmielinizantes imuno-mediadas ocorrem durante ou no início de um tratamento com drogas imunomoduladoras, imunossupressoras ou agentes antineoplásicos. Provavelmente essas medicações induzem alterações imunológicas que podem funcionar como “triggers” para um ataque imunológico direcionado a alguns epítopos da camada de mielina dos nervos periféricos, uma vez que uma verdadeira toxicidade (com efeito de dose cumulativa ou em relação a determinado nível sérico) não foi encontrada. Os mecanismos responsáveis por essa exacerbação imune paradoxal e não previsível não estão elucidados, e podem depender da idade do paciente, do esquema de uso do medicamento, da relação entre o tempo de tratamento em relação ao estágio da doença, assim como fatores genéticos do paciente. O importante é que a suspeita e o reconhecimento de um processo desmielinizante não-tóxico, imuno-mediado tem implicações em relação ao manejo do paciente e ao prognóstico.

Comentários: Essa artigo se trata de uma revisão de vários casos que relacionam drogas imunomoduladoras ( como TNF-alfa, IFN-alfa e beta) , imunossupressoras (como ciclosporina e tacrolimus) e agentes neoplásicos e polineuropatias desmielinizantes tanto agudas como crônicas, exemplo Síndrome de Guillain-Barré, Síndrome de Miller-Fisher e Polineuropatia Inflamatória Desmielinizante Crônica. É interessante essa colocação pois muitas vezes a polineuropatia secundária a uso de um medicamento é somente associada a polineuropatia axonal. Além desse fato, essa revisão mostra que drogas que regulariam o sistema imune podem também trazer uma desorganização ao mesmo.

Link: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/21621795

 

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s