Atualizações em Distúrbios de Movimento – Set/11

Publicado: 07/09/2011 em Distúrbios de Movimento
Tags:, , , , ,

Paralisia Cerebral: Cuidados Clínicos e Reabilitação Neurológica

(“Cerebral palsy: clinical care and neurological rehabilitation”)

 Aisen ML, Kerkovich D, Mast J, Mulroy S, Wren TA, Kay RM, Rethlefsen SA

Lancet Neurol 2011; 10(9):844-52

Abstract: Paralisia cerebral (PC) é definida como déficit motor que limita as atividades, e é atribuída a distúrbios não-progressivos durante o desenvolvimento encefálico em fetos e bebês. Os distúrbios motores da PC são frequentemente acompanhados por déficits cognitivos, de linguagem e de percepção sensorial, anormalidades comportamentais, convulsões, ou a combinação destas características. Acredita-se que a PC afete de3 a4 indivíduos por 1000 na população geral. A incidência, prevalência e causas mais comuns da PC variaram ao longo do tempo, por causa das mudanças de cuidados prenatais e pediátricos. O tratamento médico de crianças e adultos envolve cuidados por parte de médicos da atenção primária, além de espcialistas em neurologia, ortopedia e fisiatria. Médicos devem trabalhar em conjunto com terapeutas da reabilitação, enfermeiros, pedagogos, assistentes sociais e professores. O foco da reabilitação mudou recentemente para reabilitação neurológica, em resposta às evidências crescentesem neuroplasticidade. Estaabordagem visa melhorar o desenvolvimento e funcionalidade a partir da capacidade inata do encéfalo em mudar e se adaptar durante a vida do paciente. Como a expectativa de vida de indivíduos com PC se aproxima da população geral, as terapias devem ser desenvolvidas e voltada para as necessidades de adultos que envelhecem com suas deficiências.

Comentário: Sem dúvidas, a PC é uma doença que os neurologistas mais têm contato, principalmente nas crianças. Esta revisão não se aprofunda em tratamentos, mas oferece uma bela visão geral do tema e de como a abordagem a este paciente deve ser multidisciplinar, focando no potencial de neuroplasticidade associada à reabilitação. O artigo também alerta que, pelo aumento da longevidade, devemos nos preparar para oferecer também uma boa conduta ao portador de PC que envelhece, e com isso enfrenta novas dificuldades.

Link: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/21849165

——————————————————————————————————————————————————————

 

As muitas faces do espasmo hemifacial: Diagnóstico diferencial de espasmos faciais unilaterais

(“The many faces of hemifacial spasm: Differential diagnosis of unilateral facial spasms”)

Yaltho TC, Jankovic J

Mov Disord 2011;26(9):1582-92

Abstract: Espasmo hemifacial é definido como movimentos tônicos ou clônicos, unilaterais, involuntários, irregulares, de músculos inervados pelo VIIo nervo craniano. Frequentemente atribuído a compressão por alça vascular na saída da raiz do nervo facial, existem muitas outras etiologias de movimentos faciais unilaterais que devem ser consideradas no diagnóstico diferencial do espasmo hemifacial. O propósito primário desta revisão é chamar a atenção para uma heterogeneidade nítida de espasmos faciais unilaterais e focar nas características clínicas dos imitadores do espasmo hemifacial e nas apresentações atípicas de casos não-vasculares. Em adição à revisão da literatura de espasmo hemifacial, casos clínicos e vídeos de pacientes encaminhados à Clínica de Distúrbios de Movimentos na Baylor College of Medicine por espasmo hemifacial entre2000 a 2010 foram revisados, e os vídeos dos casos ilustrativo foram editados. Entre 215 pacientes referenciados para avaliação de espasmo hemifacial, 133 (62%) foram classificados como espasmo hemifacial idiopático ou primário (presumivelmente causado por compressão vascular do nervo facial ipsilateral), e 4 (2%) tinham espasmo hemifacial hereditário. Causas secundárias foram encontradas em 40 pacientes (19%) e incluíram paralisia de Bell (n = 23, 11%), lesões do nervo facial (n = 13, 6%), desmielinização (n = 2), e insultos vasculares cerebrais (n = 2). Havia 38 pacientes adicionais (18%) com imitadores de espasmo hemifacial, que foram classificados como psicogênico, tiques, distonia, mioclonia e espasmo hemimastigatório. Nós concluímos que, mesmo sendo a maioria dos casos espasmo hemifacial idiopático e provável causa a compressão vascular do nervo facial, outras etiologias devem ser consideradas no diagnóstico diferencial, particularmente se houver características atípicas.

Comentário: Um ótimo artigo, talvez um dos melhores em distúrbios de movimento dos últimos tempos.  Uma extensa revisão sobre diagnósticos diferenciais em espasmos faciais, mostrando que os casos não-idiopáticos são 37%, com etiologias das mais diversas. Dois pontos interessantes: (1) espasmos tônicos persistentes (duração de horas) são sugestivos de lesões expansivas de tronco e (2) os casos psicogênicos ocorrem com início mais precoce (34,6 anos) e ocorrem quase sempreem mulheres. Oartigo não sugere imagem em todos os casos, mas talvez naqueles com características atípicas. Além disso, o artigo vem com um vídeo de vários casos de espasmo facial de etiologias diferentes.

Link: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/21469208

——————————————————————————————————————————————————————

 

Tratamento com toxina botulínica na prática neurológica: quanto realmente custa? Um estudo prospectivo de custo-eficácia

(“Botulinum toxin treatment in neurological practice: how much does it really cost? A prospective cost-effectiveness study”)

Burbaud P, Ducerf C, Cugy E, Dubos JL, Muller F, Guehl D, Dehail P, Cugy D, Moore N, Lagueny A, Joseph PA

J Neurol 2011;258(9):1670-5

Abstract: Toxina botulínica (TxB) é um instrumento seguro e eficaz para várias condições neurológicas, mas pouco estudos investigaram seu real custo na prática neurológica. Nós avaliamos o custo diário do tratamento com TxB tipo A (TBA) através de uma análise de custo-eficácia ao longo de um estudo prospectivo de injeções de TBA em um hospital universitário francês por um período de 2 anos. Os dados de 3108 injeções de TBA realizadas em 870 pacientes adultos por distonia, espasmo hemifacial ou espasticidade entraram no banco de dados. Pacientes foram questionados em cada aplicação sobre a eficácia subjetiva da injeção prévia. O custo diário do tratamento com TBA foi calculado como a razão entre o custo de cada sessão (incluindo todos os custos adicionais) e a duração da eficácia subjetiva. A taxa de duração de eficácia subjetiva foi de 17,3 semanas para espasmo hemifacial, 15,4 semanas para blefarospasmo, 14,3 semanas para distonia cervical, 14,5 e 14,1 semanas para espasticidade de membros superiores e inferiores, respectivamente. Os custos diários das injeções de TBA foram de R$ 1,32 para espasmo hemifacial, R$ 2,20 para blefarospasmo, R$ 6,61 para distonia cervical, R$ 7,84 para espasticidade de MMSS e R$ 8,39 para espasticidade de MMII. Quando os custos associados foram considerados, os custos diários das injeções de TBA aumentaram claramente (45-93%) em espasticidade ou rigidez de membros, mas aumentou modestamente nas outras indicações. Estes resultados obtidos em uma coorte grande de pacientes mostram que o tratamento com TBA tem baixo custo diário para um efeito de longo prazo, com uma relação diário custo/benefício que depende muito das indicações.

Comentário: Este estudo prospectivo farmacoeconômico envolvendo tratamento com TxB mostrou dados importantes sobre a relação custo/benefício das aplicações. Para facilitar, eu converti os valores em euro para reais (baseado na cotação do dia) das injeções por dia, e eles se mostram maiores nos casos de espasticidade, como já esperado. Minha crítica fica no fato de se considerar a percepção subjetiva de eficácia das aplicações, pois sabemos que este fator é extremamente variável.

Link: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/21424611

——————————————————————————————————————————————————————

 

Equilíbrio e Quedas na doença de Parkinson: Uma Meta-Análise de Efeitos do Exercício e Treino Motor

(“Balance and Falls in Parkinson’s Disease: A Meta-analysis of the Effect of Exercise and Motor Training”)

Allen NE, Sherrington C, Paul SS, Canning CG

Mov Disord 26(9):1605-15, 2011

Abstract: Esta revisão sistemática com meta-análises visou determinar os efeitos do exercício e treino motor sobre a performance de atividades associadas ao equilíbrio e quedas em pessoas com doença de Parkinson (DP). Dezesseis estudos controlados randomizados e quase-randomizados que avaliaram a eficácia do exercício e/ou treino motor contra nenhuma intervenção ou intervenção placebo foram incluídos. As medidas de desfecho primário foram a performance nas atividades associadas ao equilíbrio (15 estudos) e as quedas (2 estudos). A estimativa acumulada do efeito do exercício e do treino motor indicou um aumento significativo da performance das atividades associadas ao equilíbrio, mas não houve evidência de um efeito sobre a proporção de quedas. A performance das atividades associadas ao equilíbrio aumentou muito nos estudos com programas envolvendo treinos de equilíbrio desafiadores, mas as diferenças no tamanho do efeito não foram estatisticamente significativas. Exercício e treino motor podem aumentar a perfomance das atividades associadas ao equilíbrio em pessoas com PD. Contudo, pesquisas adicionais são necessárias para determinar se quedas podem ser prevenidas nesta população.

Comentário: Fala-se bastante do possível efeito da fisioterapia, principalmente esteira e treinos associados ao equilíbrio, nos sintomas de bradicinesia e rigidez axial das síndromes parkinsonianas, principalmente nos casos com pouca resposta à levodopa. Esta é a primeira meta-análise que analisa o real efeito destas intervenções fisioterapêuticas sobre o equilíbrio e as quedas na DP, e mostrou que estas intervenções melhoram as atividades associadas ao equilíbrio, mas não reduzem o número de quedas. É nítido que o número de estudos que avaliaram quedas foi bem reduzido, e talvez com mais ensaios o efeito positivo surja.

Link: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/21674624

——————————————————————————————————————————————————————

 

Um guia prático para diagnóstico diferencial de tremor

(“A practical guide to the differential diagnosis of tremor”)

Alty JE, Kempster PA

Postgrad Med J 2011, 87(1031):623-9

Abstract: Tremor é, por definição, uma oscilação rítmica de uma parte do corpo. É o distúrbio de movimento mais prevalente na clínica, então médicos que trabalham em várias especialidades e na prática geral podem esperar encontrá-lo. A maioria dos tremores pode ser classificado com base em 4 características clínicas observáveis: (1) padrão anatômico, (2) proeminência do tremor em repouso, em postura mantida ou na ação, (3) freqüência do tremor e (4) amplitude do tremor. Um tremor de repouso sugere doença de Parkinson, e o diagnóstico depende se o paciente tem outros sinais de parkinsonismo. As causas mais comuns de tremor postural são o tremor fisiológico, tremor essencial e tremor induzido por drogas. Os diagnósticos diferenciais podem também incluir tremor distônico e tremor psicogênico, enquanto que tremor metabólico causado por tireotoxicose deve ser considerado em qualquer tremor postural de início recente. Doença de Wilson e síndrome tremor/ataxia associada ao X-frágil são condições mais raras que podem estar presentes com tremor e são muito importantes de se identificar. Há uma pequena mais genuína zona cinzenta entre a doença de Parkinson e distúrbios tremorigênicos mais benignos, como tremor essencial e tremor distônico, nos quais o tremor de repouso e postural coexistem com sinais parkinsonianos leves ou semelhantes. Os autores revisam aspectos clínicos e técnicas de investigação que pode ajudar a discriminar este grupo de tremores de difícil classificação.

Comentário: Uma bela revisão sobre tremores, talvez simples para os especialistas em distúrbios de movimento; contudo, mesmo para nós, apresenta vários detalhes semiológicos úteis para os diagnósticos diferenciais dos tremores. Este artigo foi escrito em uma revista que se preocupa bastante com a didática e é de fácil leitura, além de ressaltar os pontos mais importantes. Os autores também ressaltam a antiga coexistência de sintomas parkinsonianos em pessoas com fenótipo de tremor essencial e sua dificuldade diagnóstica.

Link: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/21690256

comentários
  1. Luis disse:

    E o custo pra Migrânea Bruno, rs?

    • neuropil disse:

      É…
      TxB para Migrânea Crônica… Aproximadamente R$ 1400 por 3 meses de tratamento, sem grandes contratempos.
      Amitriptilina para Migrânea Crônica… Sem custos (e talvez uns quilos a mais, sono brabo etc)

      Faça as contas =D

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s