Atualizações em Neuroimunologia – Set/11

Publicado: 11/09/2011 em Neuroimunologia
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Predição de Incapacidade a Longo Prazo na Esclerose Múltipla

Prediction of long-term disability in multiple sclerosis

Schlaeger R, D’Souza M, Schindler C, Grize L, Dellas S, Radue EW, Kappos L and Fuhr P

Mult Scler published online 25 August 2011

Abstract: Introdução: Pouco se sabe sobre o valor preditivo em relação ao longo prazo de medidas neurofisiológicas realizadas em pacientes com Esclerose Múltipla (EM). Objetivo: Investigar de maneira prospective se o potencial evocado visual (VEP)  e o potenciam evocado motor (MEP) permitem predizer incapacidade após 14 anos. Métodos: 30 pacientes com EM dos tipos recorrente – remitente e secundariamente progressive foram acompanhados prospectivamente com medidas de VEPs, MEPs e a escala de incapacidade expandida (EDSS) na entrada (T0) e após 6, 12 e 24 meses. Houve também realização de Ressonânica Magnética (MRI) do encéfalo na entrada (Imagens em T2 e T1 com gadolíneo) . O EDSS foi calculado finalmente no após 14 anos (T4). A associação entre os potenciais evocados (EP), dados da MRI e EDSS foi analisado através do Teste de correlação de Spearman. Regressão linear multivariável foi usada para predizer o EDSST4 como uma função das latências de EP  em T0. Esse modelo foi validado através de análise estatística, assim como a possibilidade de melhora da predição do EDSS 14 se mais variáveis fossem adicionadas. Resultados: Os valores de EDSS em T4 correlacionaram-se com a soma das transformadas em z das latências dos EP em T0 (rho¼0.68, p<0.0001), mas não com os parâmetros da MRI em T0. EDSST4 pode ser previsto através de fórmula específica. Conclusão: Os valores dos EPs combinados permitiu prever a incapacidade a longo termo em pequeno grupo de pacientes com EM. Tal fato pode ter implicações em ‘clinical trials’ e na prática diária.

Comentário: Esse artigo aborda uma questão corrente a todos os neurologistas e pacientes portadores de Esclerose Múltipla de maneira pouco usual, com forte embasamento estatístico. Sua conclusão sugere que os potenciais evocados ainda podem ter relevância no acompanhamento dos pacientes com Esclerose Múltipla.   

Link: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/21868486

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Inflamação central versus regulação periférica na Esclerose Múltipla

Central inflammation versus peripheral regulation in multiple sclerosis

Edwards LJ, Sharrack B, Ismail A, Tumani H, Constantinescu CS

J Neurol (2011) 258:1518–1527

Abstract: Células Th17 são um subconjunto pró-inflamatório de células T- helper caracterizado pela expressão de IL17. Elas estão sendo relacionadas a uma variedade de condições alérgicas e autoimunes. Células T-regulatórias (Treg), um subconjunto de células CD4 que expressam Foxp3, CD25, IL10 e  TGFb, podem suprimir a atividade das células Th17. Nesse artigo, mostramos que os níveis circulantes de células Th17 e Treg estão relacionados no sangue periférico, e , a expressão da citocina pró-inflamatória IL17 e da citocina antinflamatória IL10 pelas células CD4 também estão correlacionadas. No entanto, não foi encontrada correlação entre os níveis das citocinas IL10 e IL 17  no líquor dos pacientes com Esclerose Múltipla (EM), na realidade, houve uma tendência de uma correlação inversa entre essas citocinas nos pacientes com EM em surto, e uma correlação negativa entre os níveis de IL17 e TGFb no líquor, apontando para uma falha na regulação central no equilíbrio pró:anti-inflamatório na EM. 

Comentário: Esse artigo procurou estudar a relação entre citocinas pró-inflamatórias e antiinflamatórias em 6 grupos: pacientes com EM recorrente remitente, secundariamente progressiva, primariamente progressiva, em surto, pacientes com primeiro episódio de doença desmielinizante do Sistema Nervoso Central (CIS), e pacientes controle. Os resultados indicam que a Esclerose Múltipla é uma doença desmielinizante cuja alteração inflamatória está localizada no Sistema Nervoso Central, e que essa alteração se mostra exacerbada no surto. As possíveis razões (alterações da barreira hematoencefálica, seqüestro de citocinas, migração dirigida de células inflamatórias em diereção ao sistema nervoso central) são discutidas, assim como possíveis estratégias para novos tratamentos. 

Link: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/21547381

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Encefalite Anti-NMDAR: Uma doença inflamatória recentemente reconhecida em crianças

Anti–N-Methyl-D-Aspartase Receptor Encephalitis: A Newly recognized Inflammatory Brain Disease in Children

Luca N, Daengsuwan T, Dalmau J, Jones K, deVeber G, Kobayashi J, Laxer RM, Benseler SM

Arthritis Rheum. 2011 Aug;63(8):2516-22

Abstract: OBJETIVO: A encefalite mediada pelo anticorpo contra o receptor NMDA (anti-NMDAR) é uma doença inflamatória do sistema nervoso central (SNC) mediada por anticorpo anti-neuronal recentemente reconhecida. Ela causa déficits neurológicos e psiquiátricos graves em crianças previamente saudáveis. O artigo pretende descrever as características clínicas dessa doença, assim como seu prognóstico, na população pediátrica. MÉTODOS: Casos de crianças que apresentaram alteração neurológica ou psiquiátrica inédita consistente com encefalite anti-NMDAR ou evidência de inflamação do SNC em um período de 1 ano foram avaliados.   As crianças foram incluídas nesse artigo após confirmação de anticorpos anti-NMDAR no soro ou líquor. As características clínicas na apresentação da doença e os resultados de vários exames foram analisados, assim como o prognóstico e tratamento no término do ‘follow-up’. RESULTADOS: Sete crianças foram avaliadas, dentre essas, três foram diagnosticadas com encefalite devido a anti-NMDAR. Todos os pacientes apresentaram com alterações neurológicas e/ou psiquiátricas, crises convulsivas, alteração da fala, distúrbios do sono e flutuação do nível de consciência. Os 2 pacientes mais velhos apresentaram , de forma mais proeminente, alterações psiquiátricas, enquanto que os pacientes mais jovens apresentaram mais instabilidade autonômica e distúrbios do movimento. Nenhum dos casos esteve associado com tumores. Terapia imunossupresora resultou em melhora completa ou parcial, apesar do fato que dois pacientes apresentaram recorrência da doença necessitando novamente terapia. CONCLUSÃO: A encefalite devido a anticorpo anti-NMDAR é uma importante causa de alterações neuropsiquiátricas em crianças, e é um diagnóstico diferencial de vasculite e/ou doença inflamatória do SNC. O diagnóstico e tratamento precoces são essenciais para a recuperação neurológica.

Comentários: As encefalites paraneoplásicas, entre elas a encefalite devido a anticorpo-NMDAR, são atualmente uma crescente entidade diagnóstica. Esse artigo trata da apresentação clínica, etiológica, tratamento e prognóstico de casos pediátricos. Tanto na população pediátrica com na adulta, a apresentação inclui alterações psiquiátricas, comportamentais, convulsões, distúrbios do sono e da consciência. De nota, é o fato de nenhum dos casos avaliados estarem associados a tumores, diferindo da população clássica da encefalite por anti-NMDAR (mulheres com teratoma ovariano)- apesar do número de casos não relacionados a tumores estar crescendo na população adulta. Em relação ao exame de líquor, em ambas as populações – pediátrica e adulta- pleocitose é comum. Há também uma dissociação entre a clínica e os achados na Ressonância Magnética encefálica em adultos e crianças. De crítica em relação ao trabalho, é o pequeno número de pacientes.

Link: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/21547896

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O papel da imunidade na doença de Huntington

(“The role of immunity in Huntington’s disease”)

 
 
Abstract: A doença de Huntington (DH) é uma doença neurodegenerativa incurável e devastadora caracterizada por alterações cognitivas, motoras e psiquiátricas progressivas. Apesar de essa doença ser vista como restrita ao cérebro, atualmente há um conjunto de evidências emergentes mostrando que alterações fora do sistema nervoso central (SNC) são comuns nos pacientes com DH. Na realidade, a Huntingtina mutante (HTTM) é expressa em todos os tipos celulares na qual foi procurada. Em particular, observações recentes em pacientes mostram que a HTTM interage com o sistema imune, o que pode contribuir para a patologia da DH. No entanto, a natureza dessa contribuição ainda não foi esclarecida, ou se essa interação é beneficial ou patológica. Nesta revisão, tentamos trazer um novo entendimento em relação à interação do sistema imune e a patologia da DH, principalmente na questão do seu potencial papel patogênico. Como parte dessa discussão, nós revisamos os dados clínicos e ‘trials’ com medicações antiinflamatórias na DH e propomos novos métodos experimentais na pesquisa do papel imune nessa doença incurável.

Comentário: Esse artigo trata de uma questão pouco conhecida: as alterações imunológicas nos pacientes com DH. Através de revisão da literatura científica, os autores mostram de maneira muito elegante e acessível, com boas ilustrações, várias alterações do sistema imunológico nos pacientes com HD, discutindo o papel pró ou anti-inflamatório de cada uma dessas alterações. Alguns exemplos importantes dessa interação são: a) Os locais do SNC mais afetados morfologicamente pela DH (neoestriatum, núcleo caudado, putamen) são os locais com maior resposta dos astrócitos e com ativação da microglia. Há também uma relação entre a severidade da alteração morfológica e a densidade da microglia. b) biosíntese aumentada do complemento no cérebro de pacientes com DH, inclusive nos pré-sintomáticos. c) Os pacientes com DH têm níveis aumentados de IL-6, IL-8 e TNF–alfa no plasma e líquor, assim como o nível plasmático de cortisol basal.  Ou seja, numa primeira instância, o perfil imune alterado, inclusive nos pacientes assintomáticos, poderia sugerir que a ativação do sistema imunológico ocorre antes da degeneração neurológica; mas também pode-se pensar que a expressão da HTTM sensibiliza as células dos sistema imunológico no sentido de reagir contra os neurônios em degeneração. Em relação à revisão de ‘trials’ terapêuticos, os dados são mais ainda conflitantes. A droga mais utilizada foi a Minociclina com resultados de melhora a piora tanto em experiências com animais de laboratório como com pacientes. Outras drogas também foram revisadas, com resultados contrastantes e não animadores, em geral.

Link: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/21519341

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