Atualizações em Distúrbios do Sono – Set/11

Publicado: 09/10/2011 em Distúrbios do Sono
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Prevalência de síndrome das pernas inquietas na cidade rural de Cássia dos Coqueiros no Brasil

(“Prevalence of restless legs syndrome in the rural town of Cássia dos Coqueiros in Brazil“)

Eckeli AL, Gitaí LL, Dach F, Ceretta H, Sander HH, Passos AD, do Prado GF, Fernandes RM

Sleep Med. 2011 Sep;12(8):762-7. Epub 2011 Aug 6
 
Abstract: Objetivo: Estimar a prevalência e avaliar as características e severidade das Síndromes das Pernas Inquietas em um comunidade urbana brasileira. Métodos: Estudo transversal conduzido durante 18 meses. Um neurologista realizou 1155 entrevistas utilizando os critérios diagnósticos do grupo de estudos internacional da Síndrome das Pernas Inquietas (GEISPI). Resultados: A prevalência ao longo da vida foi de 6,4%. Prevalência durante o último ano, durante o último mês e a última semana foi de  5,71%, 5,36% e 4,15%, respectivamente. Uma grande proporção de mulheres preencheram os critérios diagnósticos de SPI comparado aos homens (OR: 2,63, IC 95%; 1,54-4,51). Além disso, participantes com renda familiar baixa ( < $ 1575 USD) tiveram uma menor prevalência da doença comparada com famílias com alta renda familiar ( > $ 1575 USD) (OR: 2,91, IC 95%; 1,41-5,98). Conclusões: Este é o primeiro estudo epidemiológico de SPI conduzido na população brasileira. A prevalência total da doença e a maior proporção de SPI em mulheres neste estudo se assemelham aos achados de outros estudos conduzidos em países ocidentais. A associação de SPI com uma maior renda familiar não havia sido publicada e deve ser confirmada em estudos subseqüentes.
Comentário: Trata-se do primeiro estudo epidemiológico brasileiro sobre a prevalência da Síndrome das Pernas Inquietas (SPI). O estudo traz uma prevalência de SPI de 6,4% ao longo da vida, evidenciando a importância e o impacto desta doença.  Foi observado uma maior prevalência em mulheres e em indivíduos com maior renda econômica. Foi observado um acomentimento nas duas pernas em 98,5 % dos sujeitos, sendo observado, neste grupo, simetria dos sintomas em 79,1% dos participantes.  A maior parte dos sujeitos apresentou sintomas de intensidade moderada (40,6%). Um total de 22 (32,4%) destes indivíduos procuraram assistência médica, no entanto nenhum deles recebeu diagnóstico correto. Valores de ferritina sérica menor que 50 µg/ ml foram evidenciados em 37,5% dos sujeitos com SPI (n=51).  O estudo apresenta os seguintes pontos fortes: 1. Foi conduzido (entrevista e exame clínico) por médico neurologista com formação em medicina do sono, permitindo a exclusão de sujeitos falso-positivos; 2. Alta taxa de participação da população (94,06%); 3. Abordagem do paciente no seu domicílio, evitando viés de seleção dos pacientes incluídos; 4. Avaliação de gravidade através de questionário validado para o português (Brasil). Limitações do estudo: 1. Não foi realizada a dosagem de ferritina no grupo controle; 2. A população estudada não é representativa da população brasileira. Por fim, este é um estudo da mais absoluta relevância mostrando o impacto e a relevância da SPI em uma população brasileira.
 
 
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Morte Súbita Inesperada na Epilepsia e Sono

(“Sudden unexpected death in epilepsy (SUDEP) and sleep“)

Nobili L, Proserpio P, Rubboli G, Montano N, Didato G, Tassinari CA

Sleep Med Rev. 2011 Aug;15(4):237-46. Epub 2010 Oct 15
 
Abstract: O risco de morte súbita inesperada é notadamente alto em pacientes com epilepsia em relação a população geral. A morte súbita inesperada em epilepsia (SUDEP) é provavelmente causada pela coexistência no período pós-ictal de fatores predisponentes e precipitantes. Entre estes, a ocorrência de crise convulsiva antes do evento fatal é o único fator constantemente presente. Diferentes mecanismos, a saber arritmias cardíacas, disfunções respiratórias, desregulação da circulação sistêmica ou cerebral foram sugeridos como potencial mecanismos fisiopatológicos. Além disso, dados clínicos sugerem que SUDEP ocorre preferencialmente durante o sono. No intuito de avaliar uma possível relação entre sono e SUDEP, foram avaliados estudos nos quais havia informações suficientes sobre as circunstâncias da morte do paciente. As análises confirmaram que as relações entre sono e SUDEP não ocorreram exclusivamente ao acaso, uma vez que a ocorrência de SUDEP durante o sono é maior que 40% na maior parte dos estudos. Foi discutido possíveis mecanismos a longo prazo e precipitantes envolvendo a interação entre sono e epilepsia parecendo favorecer a ocorrência de SUDEP. De acordo com esta perspectiva, possíveis medidas preventivas foram hipotetizadas.

Comentário: Trata-se de artigo de revisão sobre a morte súbita inesperada relacionada a epilepsia (SUDEP) e suas possíveis relações com o sono e seus transtornos. O artigo traz prevalências de SUDEP durante o sono maiores de 40%, levando a considerar que não se trata de mera coincidência. Dessa forma, possíveis mecanismos relacionados a fisiologia no sono nos pacientes com epilepsia, assim a influência de doenças do sono, como a apnéia do sono, podem contribuir com a maior ocorrência de SUDEP durante o sono. Entre os fatores de risco para a ocorrência de SUDEP destaca-se: o controle insatisfatório das crises, a alta freqüência dos eventos ictais, as epilepsias de início na juventude e com longo duração. Entre os fatores precipitantes, a ocorrência de crise convulsiva precedendo a SUDEP parece ser uma característica marcante. Os mecanismos propostos para SUDEP são afetados de diferentes formas durante o sono. A epilepsia ocasiona diversas alterações durante o sono, a saber: alterações autonômicas e o aumento no número de microdespertares e de mudanças de fases do sono, mesmo na ausência de crises convulsivas. Estes últimos são ocasionados em parte por atividade epileptiforme interictal e por atividades periódicas. Entre as alterações autonômicas destaca-se a redução, em relação a sujeitos normais, da variabilidade fisiológica da freqüência cardíaca, principalmente em sono NREM, predispondo a ocorrência de arritmias. Vale ressaltar ainda a prevalência aumentada de distúrbios do sono nos pacientes com epilepsia, como a Síndrome da Apnéia Obstrutiva do Sono, demonstrada em diferentes estudos. Estapor sua vez favorece a ocorrência de SUDEP pelas disfunções autonômicas pelos eventos respiratórios durante o sono assim como pelo maior número de despertares neste indivíduos. Outros transtornos do sono levam a privação do sono, piorando a freqüência de crises convulsivas. Os autores sugerem, por fim, que a SUDEP possam ser previnida por medidas simples como hábitos de vida regulares, higiene do sono adequada, uso de travesseiros “anti-sufocantes”, supervisão durante o período noturno, além da detecção e tratamento dos transtornos do sono.

Link: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/20951616

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Hiperssonia Recorrente: Uma revisão de 339 casos
 
(“Recurrent hypersomnia: A review of 339 cases“)
  

Sleep Med Rev. 2011 Aug;15(4):247-57. Epub 2010 Oct 20

Abstract: Baseado numa revisão de 339 casos identificados, foram identificados e comparados 4 formas clínicas de hiperssonias recorrentes: (1) Síndrome de Kleine-Levin (KLS) (239 casos); (2) Síndrome de Kleine-Levin sem sintomas compulsivos alimentares (KLS WOCE) (54 casos); (3) Hiperssonia relacionada a menstruação (MRH) (18 casos); e Hiperssonia recorrente com comorbidades (RHC) (28 casos). A segunda parte da revisão considerou os principais temas correntes nas hiperssonias recorrentes: os fatores predisponentes, incluindo um aparte com casos familiares; a patofisiologia baseado em aspectos clínicos, informações de neuroimagem, exames neuropatológicos e medidas de hipocretina-1 no líquido cerebroespinhal; Temas de recorrência e uma possível disfunção de sistemas do ritmo circadiano; a relação de hiperssonia com transtornos de humor; e um comentário sobre Síndrome de Kleine-Levin atípico. Os principais objetivos deste estudo são: fazer uma distinção nosológica clara das diferentes formas de HR, destacar o achado que a prevalência de KLS familiar é semelhante aos casos familiares de narcolepsia, sugerir possíveis mecanismos com envolvimento de grande quantidade de estruturas corticais e subcorticais na hiperssonia recorrente e avaliar possíveis evidências que aproximam as HR dos transtornos do humor.
Comentário: Trata-se de estudo de revisão sobre as diferentes formas de hiperssonia recorrente. Diferente de outros artigos publicados anteriormente, este não se restringiu apenas a Síndrome de Kleine-Levin assim como também comparou os diferentes subtipos de HR. O artigo trouxe ainda subtipos diferentes de HR dos já abordados na Classificação Internacional dos Distúrbios do Sono, 2ª. Edição, a saber: KLS WOCE, RHC e Síndrome de Kleine-Levin atípica. Entre as características avaliadas da KLS, destaca-se uma prevalência de apenas 30% para aparecimento simultâneo de HR, compulsão alimentar e desinibição sexual durante os episódios. Os casos em que ocorrem a apresentação dos três sintomas relatados associado a comportamentos estranhos (comportamento social inapropriado, esteriotipias motoras e comportamentos infantilizados) ocorre em apenas 14,2% do total. Na hiperssonia relacionada a menstruação foi relatado o puerpério ocasionando episódios de HR além dos períodos menstruais. Foi proposta baseado na análise de casos sintomáticos, além de estudos com SPECT durante o evento e entre os eventos, de fisiopatologia que envolva além do hipotálamo a perda da conectividade de regiões corticais e  subcorticais com o sistema límbico. Foi descrito casos de Hiperssonia recorrente associado a comorbidades em lesões frontais, talâmicas e pedunculares. Merece destaque ainda a caracterização da Síndrome de Kleine-Levin atípica na qual ao invés da hiperssonia recorrente e da compulsão alimantar, podem ocorrer, insônia e/ou anorexia, respectivamente, durante os episódios de ataque. A limitação deste estudo consiste no fato de tratar-se de estudo retrospectivo com fontes heterogêneas de descrição clínica, radiológica e laboratorial dos pacientes, além de uma quantidade importante de dados não disponíveis nas publicações.
 
 

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