Atualizações em Doenças Neuromusculares – Nov/11

Publicado: 16/11/2011 em Doenças Neuromusculares
Tags:, , , ,

Neuropatia e paraproteínas: revisão de uma associação complexa

(“Neuropathy and paraproteins: review of a complex association”)

Rajabally, YA

Eur J Neurol. 2011 Nov;18(11):1291-8

Abstract: A coexistência de neuropatia e gamopatia monoclonal representa um problema comum e complexo na prática clínica. Esta associação é revisada considerando a literatura disponível mais recente. A associação não é infreqüente e várias síndromes possíveis devem ser diferenciadas. Entretanto, a co-ocorrência coincidente deve ser reconhecida. A gamopatia monoclonal pode ser uma “gamopatia monoclonal de significado indeterminado” (MGUS) ou ocorrer no contexto de malignidades, tais como mieloma múltiplo ou macroglobulinemia de Waldenström.  As paraproteínas IgM podem se ligar à glicoproteína associada à mielina (MAG) no nervo periférico.  Neste caso a paraproteinemia está diretamente ligada à neuropatia, causando um fenótipo específico. Um ensaio clínico randomizado desta neuropatia (“Angi-MAG”) mostrou o possível efeito moderador do rituximab na incapacidade. Ainda se esperam os resultados de outro ensaio clínico. Paraproteinas IgM/G/A podem ser associas à uma polineuropatia indistinguível da polineuropatia inflamatória desmielinizante crônica. Neuropatias axonais também podem existir com MGUS IgM/G/A. Não há evidências suficientes sobre causalidade ou tratamentos eficazes em tais casos. Dor e disautonomia com uma neuropatia axonal e paraproteinemia sérica aumentam a possibilidade de amiloidose. O tratamento hematológico específico é necessário para as doenças malignas, embora seja necessário cuidado com agentes neurotóxicos. Polineuropatia, organomegalia, endocrinopatia, proteína-M, mudanças da pele, crioaglutininas e anticorpos disialosil representam raras entidades separadas para as quais ainda faltam opções de tratamento.  A associação de gamopatia monoclonal e neuropatia requer uma investigação neurológica e hematológica apropriada para um diagnóstico preciso. A causalidade só é estabelecida em alguns casos. O manejo adequado idealmente requer uma junta neurológica/hematológica para o diagnóstico, monitoramento e tratamento.

Comentário: Artigo bem completo, publicado num conceituado jornal europeu.  O tema é bastante comum nos serviços de doenças neuromusculares e o artigo oferece um roteiro dos exames indispensáveis que devem ser pedidos nos casos de neuropatia e gamopatia monoclonal. São revisadas várias doenças com esta associação: MGUS IgA/IgG/IgM, MGUS IgM com anti-MAG, CANOMAD (Neuropatia atáxica crônica com oftalmoplegia, proteína-M, crioaglutininas e anticorpos disialosil – anti GD1b e anti-GQ1b), mieloma múltiplo, macroglobulinemia de Waldenström, amiloidose, POEMS e linfoma. Comenta-se também o tratamento destes diagnósticos. Uma boa síntese sobre o assunto.

Link: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/21418441

——————————————————————————————————————————————————————

 

Doenças neurológicas e dor

(“Neurological diseases and pain”)

Borsook, D

Brain. 2011 Nov 8

Abstract: A dor crônica é um componente freqüente de várias doenças neurológicas, afetando 20-40% dos pacientes com várias doenças primariamente neurológicas. Estas doenças resultam de uma vasta gama fisiopatológica, incluindo lesão traumática do sistema nervoso central, neurodegeneração e neuroinflamação, e explorar a etiologia da dor nestas condições é uma oportunidade para se chegar a novos insights sobre o processamento da dor. Se a dor se origina no sistema nervoso central ou periférico, ela freqüentemente se torna centralizada por meio de respostas mal adaptadas no sistema nervoso central que podem alterar profundamente os sistemas cerebrais e desta forma o comportamento (ex. depressão). A dor crônica deve, portanto, ser considerada uma doença do cérebro em que alterações em redes neurais afetam múltiplos aspectos da função, estrutura e química cerebrais. O estudo e tratamento desta doença são fortemente prejudicados pela falta de medidas objetivas tanto para os sintomas quanto para os mecanismos subjacentes da dor crônica. Na dor associada com doenças neurológicas algumas vezes é difícil obter uma avaliação, mesmo que subjetiva, da dor, como no caso de pacientes em estados vegetativos ou com doença de Alzheimer. É de importância crítica que os neurologistas se tornem mais envolvidos no tratamento e pesquisa da dor crônica (já significativa nos campos da migrânea e das neuropatias periféricas). Para atingir este objetivo são necessários grandes esforços para aumentar o treinamento no tratamento da dor e promover maior interesse nesta área. Esta revisão descreve exemplos de dor em diferentes doenças neurológicas, incluindo condições neurológicas primariamente dolorosas, discute o potencial terapêutico de terapias direcionadas ao sistema nervoso central e realça a necessidade de medidas objetivas de dor. 

Comentário: Um tema em que não é possível separar com facilidade onde termina a contribuição do sistema nervoso periférico e onde começa o papel modulador, gerador e afetivo do sistema nervoso central sobre a experiência da dor. O artigo procura demonstrar que a dor crônica, seja ela originada inicialmente da lesão de um nervo periférico, de uma doença medular como a siringomielia, de um AVC talâmico, ou de uma doença neurodegenerativa central (Alzhemer, Parkinson) ou periférica/central (esclerose lateral amiotrófica, ataxia espinocerebelar) provoca uma significativa reorganização de várias redes neurais e torna o funcionamento cerebral de quem possui estas condições diferente das pessoas consideradas saudáveis. Essas alterações parecem ser difusas e envolver várias áreas encefálicas.  Doenças genéticas que promovem hiperalgesia e outras que ocasionam insensibilidade congênita à dor também ajudam a esclarecer aspectos importantes da fisiopatologia do processamento neural da dor. Este artigo não oferece respostas conclusivas para a maioria dos temas abordados, mas expõe a prevalência, as características e os possíveis tratamentos da dor em diversas doenças neurológicas.

Link: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/22067541

——————————————————————————————————————————————————————

 

Neuropatias periféricas hereditárias na infância: uma revisão para clínicos

(“Hereditary peripheral neuropathies of childhood: An overview for clinicians”)

Wilmhurst JM; Ouvrier R

Neuromuscul Disord. 2011 Nov;21(11):763-75

Abstract: Esta revisão se foca nas neuropatias hereditárias “puras”, onde a doença do nervo periférico é a principal manifestação e não se refere a doenças neurodegenerativas associadas à neuropatia periférica (mas sem a sua predominância). As etiologias das neuropatias periferias iniciadas na infância diferem daquelas iniciadas na vida adulta, com mais condições herdadas, especialmente autossômicas recessivas. A doença de Charcot-Mari-Tooth (CMG) é a desordem neuromuscular mais comum. Os rótulos genéticos dos tipos de CMT 1-4 são os termos de subtipo preferidos. As apresentações clínicas e a heterogeneidade molecular genética das neuropatias periféricas hereditárias são diversas.  Para a maioria dos pacientes ao redor do mundo os estudos diagnósticos estão limitados à avaliação clínica. Marcos que poderiam ser usados para identificar subtipos específicos incluem a apresentação precoce na infância, escoliose, envolvimento sensitivo marcante, comprometimento respiratório, envolvimento dos membros superiores, comprometimento visual ou auditivo, sinais piramidais e retardo mental. Esses marcadores chave podem ajudar nos testes genéticos direcionados e no diagnóstico de crianças em lugares em que testes de DNA não são possíveis.

Comentário: Um artigo denso, mas necessário. Com o desenvolvimento da biologia molecular e dos testes genéticos o número de genes que se mostram associados às neuropatias vem sendo cada vez maior. Desde 1991, quando se descobriu que a duplicação do gene PMP22, localizado no cromossomo 17p11.2, causava o tipo mais comum de CMT, a CMT1A, já se descobriram vários subtipos para os CMT1 (A-F) e os CMT2 (A-N). Isso sem contar os CMTs ligados ao X e intermediários. Além dos CMTs também existem as neuropatias sensitivas e autonômicas hereditárias, as atrofias musculares espinhais, as neuropatias associadas às paraparesias espáticas, as síndromes de retardo mental, agenesia do corpo caloso e neuropatia (ex. síndrome de Anderman) e várias outras.  Se lido de forma corrida pode parecer cansativo, mas o seu mérito está em organizar as principais neuropatias em tabelas que as classificam pelo caráter primariamente desmielinizante ou axonal, idade de início e outras características clínicas (gravidade, velocidade de condução, envolvimento de quais membros, respiratório, escoliose, retardo mental, etc) que ajudam a caracterizar clinicamente o paciente com uma possível neuropatia hereditária e guiam os testes genéticos a serem solicitados. Esta abordagem tende a ficar cada vez mais freqüente na neurologia e medicina modernas.

Link: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/21741240

——————————————————————————————————————————————————————

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s