Atualizações em Neurologia Cognitiva – Nov/11

Publicado: 28/11/2011 em Neurologia Cognitiva
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Predizendo transformação do CCL com RM e biomarcadores do LCR

(“Predicting MCI outcome with clinically available MRI and CSF biomarkers”)

Heister D, Brewer JB, Magda S, Blennow K, McEvoy LK

Neurology. 2011 Oct 25;77(17):1619-1628

Abstract: Objetivo: Determinar a habilidade da RM volumétrica (RMv) e de biomarcadores do LCR, sozinho ou em combinação com medidas quantitativas, para predizer conversão para doença de Alzheimer (DA) em pacientes com comprometimento cognitivo leve (CCL). Métodos: Nós estratificamos 192 participantes com CCL em grupos de risco positivo e negativo com base em: 1) grau de declínio de memória no Teste de Aprendizado Auditivo-Verbal de Rey (TAAVR); 2) atrofia temporal medial, quantificada por software para análise de RMv automatizada; e 3) níveis de biomarcadores no LCR. Nós também estratificamos os participantes baseados em combinações de fatores de risco. Nós usamos os modelos de risco proporcionais de Cox, controlados para idade, para avaliar o risco de conversão para DA em 3 anos […] e usamos análise de Kaplan-Meier para determinar as medianas de tempo de sobrevivência. Resultados: Quando fatores de risco foram examinados separadamente, os indivíduos com teste positivo mostraram significante maior risco de conversão para DA que indivíduos com testes negativos (HR 1,8-4,1). A presença conjunta de quaisquer 2 fatores de risco aumentou substancialmente o risco, sendo a combinação de maior risco o declínio de memória e aumento da atrofia (HR 29,0): 85% dos pacientes com ambos os fatores de risco converteram para DA em 3 anos, vs. 5% daqueles com nenhum fator. A presença de atrofia temporal medial foi associada com a mediana mais curta de tempo de sobrevivência sem demência (15 meses). Conclusões: Incorporar avaliação quantitativa da habilidade de aprendizado associado à RMv ou biomarcadores do LCR na estratégia clínica para CCL pode gerar informações críticas sobre o riscode uma iminente conversão à DA.

Comentário: Mais um artigo sobre predição de CCL em DA: o grande mérito deste trabalho é tentar deixar a estratégia de avaliação um pouco mais próxima da realidade. O que o trabalho mostra é que presença de piora de atrofia medial temporal (medida por volumetria) associada a um declínio de memória avaliado pelo RAVLT é o melhor preditor de conversão para DA em 3 anos. Como o RAVLT não precisa de custos e a volumetria não exige gatos exorbitantes, talvez seja uma combinação exeqüível para o futuro, tanto na prática acadêmica quanto na privada.

Link: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/21998317

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Nível de colesterol e uso de estatina na doença de Alzheimer: II. Revisão de Estudos em Humanos e Recomendações

(“Cholesterol level and statin use in Alzheimer disease: I. Review of Human Trials and Recommendations”)

Shepardson NE, Shankar GM, Selkoe DJ

Arch Neurol. 2011; 68(11):1385-92

Abstract: Evidência substancial se acumulou suportando a hipótese que os níveis de colesterol elevados aumentam o risco de desenvolver a doença de Alzheimer (DA). Como resultado, muitas trabalhos investigaram o potencial uso de agentes redutores de lipídios, particularmente estatinas, como agentes preventivos ou terapêuticos para DA. Mesmo que epidemiologia e pesquisas básicas com estatina apóiem, em geral, um efeito adverso com os altos níveis de colesterol associados à DA, estudos humanos com estatina mostram desfechos altamente variáveis, tornando difícil tirar conclusões sólidas. Nós identificamos vários fatores de confusão entre os estudos humanos, incluindo diferentes permeabilidades à barreira hematoencefálica (BHE), o estágio da DA em que as estatinas foram administradas e os efeitos metabólicos pleiotrópicos das drogas, todos contribuindo para uma considerável variabilidade nos dados. Nós recomendamos que futuros estudos em humanos sobre este importante tópico terapêutico: (1) considerar as permeabilidades das estatinas à BHE quando analisarem os resultados, (2) incluir análises específicas de efeitos sobre HDL-c e LDL-c, e, mais importante, (3) conduzir estudos com estatina somente em pacientes com DA leve, os quais tem melhor chance de modificação da doença.

Comentário: Continuando o tema estatinas e DA (continuação do primeiro, que falava sobre níveis de colesterol e risco de DA), este artigo analisa os estudos que avaliaram os efeitos na melhora cognitiva da estatina sobre portadores de DA. Como o estudo bem ressalta, os trabalho não chagam a conclusões sólidas e são marcados por uma variabilidade de métodos. Além disso, o artigo fala sobre o possível mecanismo pelo qual as estatinas reduzem a secreção de beta-amiloide no encéfalo. Resumo da Ópera: Ainda não temos evidências para recomendarmos  estatinas na DA, mas parece um caminho bem promissor.

Link: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/22084122

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Eu aproveitarei esta edição para divulgar as últimas recomendações brasileiras sobre diagnóstico e tratamento de doença de Alzheimer, feitas pelo Departamento Científico de Neurologia Cognitiva e Envelhecimento da ABN e publicadas na revista “Dementia & Neuropsychologia” de Setembro/Outubro 2011. Como os artigos são abertos, vou postá-los na íntegra:

1) Criteria for the diagnosis of Alzheimer’s disease: Recommendations of the Scientific Department of Cognitive Neurology and Aging of the Brazilian Academy of Neurology  – Comentário: Estes critérios são literalmente baseados nos novos critérios da Academia Americana de Neurologia para DA e CCL, e como novidade traz que o conceito de demência agora independe da perda de memória como critério obrigatório, além de simplificar os critérios de DA provável e possível.

2) Cognitive, functional and behavioral assessment: Alzheimer’s disease – Comentário: Revisão muito interessante sobre os principais e validados testes usados para avaliação neuropsicológica na DA.

3) Diagnosis of Alzheimer’s disease in Brazil: Supplementary exams – Comentário: Análise dos exames complementares úteis para o diagnóstico de DA; quanto aos exames laboratoriais, segue uma recomendação europeia de pedir vários exames séricos gerais como screening inicial (na minha opinião, muito deles desnecessários). Quanto à imagem, sugere TC crânio inicialmente e, se algo atípico, a realização de RM.

4) Treatment of Alzheimer’s disease in Brazil: I. Cognitive disorders – Comentário: Revisão das evidências sobre tratamento dos aspectos cognitivos, sem grandes novidades.

5) Treatment of Alzheimer’s disease in Brazil: II. Behavioral and psychological symptoms of dementia  – Comentário: Revisão das evidências sobre tratamento dos sintomas psicóticos, sendo a melhor evidência o uso de neurolépticos para alucinações, agressividade e delirios.

 

comentários
  1. Miriam H. Martines disse:

    Sempre muito interessante e oportuno as informações sobre problemas do envelhecimento, principalmente para profissionais da área de saúde mental!

    • neuropil disse:

      Miriam, essas recomendações ajudam bastante a padronizar nossa pensamento diagnóstico. Acho que o segundo artigo vai ser de grande valia para você.

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