Atualizações em Neurologia Cognitiva – Dez/11

Publicado: 27/12/2011 em Neurologia Cognitiva
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Doença renal crônica, declínio cognitivo e demência: o estudo 3C

(“Chronic kidney disease, cognitive decline and Incident dementia – the 3C Study”)

Helmer C, Stengel B, Metzger M, Froissart M, Massy ZA, Tzourio C, Berr C, Dartigues JF

Neurology. 2011 Dec 6;77(23):2043-51

Abstract: Objetivo: Avaliar a relação longitudinal entre doença renal crônica moderada, declínio na função renal e microalbuminúria com declínio cognitivo e incidência de demência. Métodos: Este estudo foi baseado em uma coorte populacional de 7839 indivíduos acima de 65 anos com 7 anos de seguimento. A taxa de filtração glomerular foi estimada (TFGe) usando  equação CKD-EPI. A função cognitiva global foi avaliada usando o Mini Exame do Estado Mental (MEEM) e demência foi detectada e diagnosticada de modo ativo. Resultados: No início, 12% dos participantes tinham TFGe menor que 60ml/min/1,73m2. Um total de 564 casos de demência foram diagnosticados durante o seguimento. Baixos valores iniciais da TFGe não estavam associados com um risco aumentado de demência ou declínio cognitivo durante os 7 anos de seguimento, exceto por uma associação significativa limítrofe com demência com camponente vascular. Entretanto, o declínio da TFGe durante os primeiros 4 anos de seguimento esteve associado com maior risco de demência com componente vascular (RR = 5,35 naqueles com declínio de TFGe > 4ml/min/1,73m2/ano) e com declínio cognitivo no MEEM nos 3 anos subseqüentes. Proteinúria mostrou uma tendência de estar associada com um risco aumentado de demência com componente vascular. Conclusões: Apesar de se ter uma grande amostra e um longo seguimento, nós não encontramos um risco aumentado de declínio cognitivo ou demência associado com níveis baixos da TFGe. Entretanto, os rápido declínio na TFGe está associado com declínio cognitivo global e demência com componente vascular, sugerindo que esta associação pode ser mediada por mecanismos vasculares.

Comentário: A relação entre déficit cognitivo e doença renal crônica é clássica, inicialmente vista apenas em pacientes em terapia dialítica com soluções ricas em alumínio. Com a evolução dos filtros, esta associação entre demência e toxicidade por alumínio se tornou esporádica e a associação entre doença microvascular no encéfalo e no rim teve maior importância. Contudo, este estudo tentou avaliar as taxas de CCL e demência em DRC em uma fase inicial (o trabalho não rssalta, mas acredito que os indivíduos não fazia terapia dialítica), e mostrou que menores TFGe não prediz demência, porém, um rápido declínio na TFGe esteve mais associado a declínio cognitivo e demência. A força deste trabalho é seu “n” enorme e um seguimento de 7 anos, contudo usou apenas o MEEM para avaliar cognição. Uma pena.

Link: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/22116945

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Microinfartos, atrofia encefálica e função cognitiva: o Estudo de Envelhecimento de Honolulu

(“Microinfarcts, brain atrophy and cognitive function: the Honolulu Aging Study”)

Launer LJ, Hughes TM, White LR

Ann Neurol. 2011 Nov;70(5):774-80

Abstract: Objetivo: Este estudo foi feito para investigar a associação de microinfartos encefálicos com função cognitiva global (FCG) antemortem, e se o peso encefálico e neuropatologia de Alzheimer (placas neuríticas ou emaranhados neurofibrilares) medeiam a associação. Métodos: Os indivíduos foram 436 homens do Honolulu Asia Aging Autopsy Study. A patologia mas não com encefálica foi avaliada com métodos padronizados, a FCG foi medida com o CASI [instrumento de habilidades cognitivas] e os dados foram analisados usando as técnicas devidas, ajustadas por idade de morte, tempo entre última medida de FCG e morte, educação e dimensões da cabeça. Baseado no diagnóstico antemortem, indivíduos demenciados e não-demenciados foram examinados juntos e separados. Resultados: Naqueles indivíduos sem demência, microinfartos encefálicos estiveram fortemente associados com a última FCG; esta associação foi compartilhada com o peso encefálico, mas não com placas neuríticas ou emaranhados neurofibrilares. Em contraste, entre aquele com diagnóstico antemortem de demência, os emaranhados neurofibrilares tiveram as associações mais fortes com peso encefálico e FCG, enquanto que microinfartos foram modestamente associados com FCG. Interpretação: Este achado sugere que a patologia de microinfartos é um fator independente e significativo, que contribui para a atrofia encefálica e declínio cognitivo, particularmente antes que a demência seja clinicamente evidente. O papel da lesão vascular como gatilho, estimulante e contribuidor para a neurodegeneração pode se diferenciar, dependendo de quando as lesões se desenvolvem na história natural da demência.

Comentário: Fora do contexto da demência vascular propriamente dita, sabe-se que um dos possíveis mecanismos de neurodegeneração é a lesão isquêmica microvascular. Pouco se conhece sobre a associação entre a presença de microinfartos e declínio cognitivo/demência, independente da etiologia da demência. Este trabalho mostra que, de modo independente, a presença de microinfarto em pessoas sem demência se correlacionou com um declínio cognitivo global e atrofia encefálica. Esses achados reforçam a idéia de que pessoas com doença cerebrovascular de pequenos vasos têm maior risco de demência, talvez mesmo até sem ser a própria demência vascular.

Link: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/22162060

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Neste trimestre, o Departamento Científico de Neurologia Cognitiva e Envelhecimento da ABN, através da revista “Dementia & Neuropsychologia”, publicou revisões muito interessantes sobre demência vascular. Vou postar os mais interessantes:

1) Vascular dementia: Diagnostic criteria and supplementary exams. Recommendations of the Scientific Department of Cognitive Neurology and Aging of the Brazilian Academy of Neurology. Part I – Comentário: Boa revisão da literatura, baseando os critérios de demência vascular (DV) e exames complementares por seus níveis de evidência. Sem novidades.

2) Vascular dementia: Cognitive, functional and behavioral assessment. Recommendations of the Scientific Department of Cognitive Neurology and Aging of the Brazilian Academy of Neurology. Part II – Comentário: Análise dos teste neuropsicológicos úteis na DV, sem muitas diferenças da abordagem para DA, mas com especial atenção para os testes de função executiva. O artigo sugere um protocolo básico com 3 testes neuropsicológicos: o MEEM, fluência verbal e o desenho do relógio.

3) Treatment of vascular dementia. Recommendations of the Scientific Department of Cognitive Neurology and Aging of the Brazilian Academy of Neurology – Comentário: Infelizmente, nossas opções e evidências de tratamento em DV são piores que em DA. O artigo ressalta as medidas gerais para redução de risco cardiovascular (exercício físico, dieta, redução de obesidade etc), e comenta sobre a ação de iAChE’s, todos com níveis de evidência muito ruins.

 

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