Atualizações em Cefaleia – Jan/12

Publicado: 16/01/2012 em Cefaleias
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Características da cefaleia pós-traumática aguda após TCE leve

(“Characteristics of acute posttraumatic headache following mild head injury”)

Lieba-Samal D, Platzer P, Seidel S, Klaschterka P, Knopf A, Wöber C

Cephalalgia. 2011 Dec;31(16):1618-26. Epub  2011 Nov 24

Abstract: Objetivo: Examinar a prevalência e características da cefaleia pós-traumática aguda (CPTA) atribuída a trauma cranioencefálico (TCE) leve em um estudo prospectivo e observacional. Métodos: Nós recrutamos 100 pacientes com TCE leve e cefaleia, conforme definição da ICHD-2 que foram atendidos no departamento de Cirurgia do Trauma na Universidade Médica de Viena. Os pacientes foram submetidos a uma entrevista telefônica detalhada entre os dias 7 e 10 (pós-TCE) e entre os dias 90 e 100 pós-TCE. Resultados: A prevalência de CPTA foi de 66%. CPTA ocorreu em 24 horas após o TCE em 78% e durou por uma mediana de 3 dias. A cefaleia foi unilateral em 45%. Piora com atividade física, náusea e foto-/fonofobia estavam presentes em 49%, 42% e 55%, respectivamente. A prevalência da CPTA se correlacionou com condições associadas à dor crônica (excluindo cefaleia), cefaleia episódica pré-existente, número de sintomas pós-traumáticos, ansiedade e depressão. No seguimento em 90-100 dias, a cefaleia pós-traumática havia desaparecido em todos pacientes. Conclusões: A CPTA atribuída a TCE leve é comum, mas uma condição auto-limitada, que frequentemente mostra aspectos migranosos. Pessoas com dor crônica (exceto cefaleia), cefaleia pré-existente e transtornos afetivos estão em maior risco para desenvolverem CPTA. Nenhum dos pacientes desenvolveu cefaleia pós-traumática crônica.

Comentário: Ótimo artigo sobre um tema extremamente comum – a cefaleia aguda pós-traumática associada à TCE leve. O artigo mostra que, assim como a ICHD-2 define, esta dor é difícil de ser caracterizada, por ser polimórfica. Contudo, seu fenótipo mais comum é de uma dor migranosa, unilateral, leve-moderada intensidade, que geralmente surge no primeiro dia pós-TCE e é mais comum em quem tem cefaleia prévia. Contudo, a transformação em cefaleia pós-traumática crônica não foi vista nestes pacientes (talvez por terem menos fatores de risco para cronificação, usados nos critérios de exclusão, como TCE prévio, abuso de medicação e drogas). Provavelmente, os pacientes que vemos na prática diária evoluindo para cefaleia pós-traumática crônica já possuem uma cefaleia ou uma predisposição à cefaleia prévia (cujo trauma desencadearia as dores) ou tem seus mecanismos centrais de controle de dor já afetados por dores crônicas ou transtornos afetivos.

Link: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/22116940

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Cefaleias e performance acadêmica em estudantes universitários: um estudo transversal

(“Headaches and academic performance in university students: a cross-sectional study”)

Souza-e-Silva HR, Rocha-Filho PA

Headache. 2011 Nov-Dec;51(10):1493-502

Abstract: Objetivos: Estimar a prevalência de cefaleia em 1 ano, suas repercussões e sua aassociação com a performance acadêmica de estudantes universitários. Métodos: Estudo transversal – 380 estudantes foram randomicamente selecionados de um grupo de 1718, e 90,5% deles foram entrevistados. Uma entrevista semiestruturada, o Headache Impact Test (HIT-6) e a Hospital Anxiety and Depression Scale foram usadas. As variáveis relacionadas à performance acadêmica (absenteísmo, corficiente de performance e número de reprovações em disciplinas) foram obtidas por consultas aos arquivos acadêmicos. Resultados: 344 estudantes foram entrevistados. A prevalência de cefaleia foi de 87,2%. A prevalência de migrânea foi 48,5%. A prevalência de cefaleia tipo tensional foi 42,4%. Durante os 3 meses prévios à entrevista, 8,7% dos estudantes procuraram serviços de emergência [pela cefaleia], 30,8% perderam aula e 30,8% tiveram uma queda na sua capacidade produtiva por causa da cefaleia. Resultado do HIT-6: Pessoas com impacto substancial/grave [da cefaleia em suas vidas] = 49%. Os modelos de regressão linear múltipla mostraram que cefaleias intensas/muito intensas estão significativamente associadas a um número maior de reprovações em disciplinas e absenteísmo. Não houve associação entre as notas dos estudantes e cefaleias. Conclusão: Uma alta prevalência de cefaleia na população estudada foi verificada. Um alto impacto da cefaleia na vida do estudante esteve associado a uma piora da performance acadêmica.

Comentário: Trabalho nacional publicado em revista de alto impacto em Cefaliatria, realizado em Recife, mostra um tema pouco explorado por neurologistas, mas certamente de grande relevância: o impacto da cefaleia sobre estudantes universitários. O estudo confirma que esta subpopulação tem alta prevalência de migrânea, grandes índices de absenteísmo (faltas na universidade), algum comprometimento sobre a performance acadêmica, resultando em reprovações. Fatores mais relacionados com estas associações negativas (principalmente absenteísmo) foram o semestre na faculdade (pior nos últimos anos de curso), trabalho concomitante ao curso e uso de álcool. A ideia principal é que devemos estar atentos para nossos pacientes universitários e questionar estes aspectos em suas vidas, considerando o uso de profilático de maneira mais precoce que na população geral. Se necessário, devemos conscientizar também os familiares e professores do pacientes a compreender suas limitações temporárias pela cefaleia. Este artigo é um bom exemplo de como boas ideias e parcos recursos são tão úteis quanto muitas verbas e pouca criatividade.

http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/22082420

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Características da aura visual migranosa no Sul do Brasil e no Norte dos EUA

(“Characteristics of migraine visual aura in Southern Brazil and Northern USA”)

Queiroz LP, Friedman DI, Rapoport AM, Purdy RA

Cephalalgia. 2011 Dec;31(16):1652-8

Abstract: Introdução: Aura migranosa, constituída de um ou mais sintomas neurológicos de origem cortical ou do tronco encefálico, é um fenômeno neurológico complexo. Aura visual é a sua manifestação mais frequente. Estudar os componentes subjetivos da aura visual torna possível identificar as características comuns. Objetivo: Descrever as características da aura migranosa visual em pacientes com migrânea com aura. Métodos: Nós realizamos um estudo retrospectivo e descritivo de aura visual em 122 pacientes migranosos avaliados em 2 clínicas de cefaleia nas Américas. Este estudo foi desenhado para determinar as características de uma aura visual típica. Resultados: Os aspectos mais comuns da aura visual em nosso estudo foram que ocorre antes da cefaleia, com um intervalo de menos que 30 minutos, dura de 5 a 30 minutos, tem um início gradual, geralmente começa perifericamente, é unilateral e tem padrão tremulante. Além disso, a localização da aura visual típica no campo visual não tem relação fixa à lateralidade da cefaleia, é discretamente mais comum ser incolor e é frequentemente descrita como escotomas cintilantes e linhas de ziguezague. Turvação visual, não considerada um fenômeno áurico de origem cortical, é o sintoma visual mais frequentemente relatado. Conclusões: Aura visual migranosa é heterogênea e pleomórfica, e alguns de nossos achados vão de encontro às informações comuns.

Comentário: Mais um ótimo trabalho brasileiro, feito por um experiente cefaliatra nacional ao lado de 2 lendas do mundo das cefaleias (Prof. Allan Rapaport e Prof. R. Allan Purdy), e que já havia sido apresentado no último Congresso Brasileiro de Cefaleia. Costumamos aprender sobre a aura visual de uma maneira estanque, como se em todas as pessoas ocorressem da mesma forma, e se não preencher exatamente os critérios da ICHD-2, não é aura. Este trabalho vem desmistificar a migrânea com aura visual, mostrando que é um fenômeno extremamente variável e de fenótipos atípicos, e o termo “aura típica” não é tão apropriado assim… Contudo, é possível delinear um padrão mais recorrente: ocorre antes da cefaleia, com intervalo menor que 30 minutos, duração menor que 30 minutos (porém foram vistos casos com duração menor que 5 minutos de maior que 60 minutos – até 3 dias!), de início gradual e na periferia do campo visual, unilateral e incolor (porém uma alta porcentagem de auras coloridas foi vista). Os fenômenos visuais mais comuns foram a turvação visual (mesmo que não seja considerada aura) e os escotomas cintilantes.

Link: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/22116942

 

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