Atualizações em Neuroimunologia – Jan/12

Publicado: 31/01/2012 em Neuroimunologia
Tags:, ,

Intrathecal effects of daclizumab treatment of multiple sclerosis

(“Efeitos intratecais do tratamento com Daclizumab em pacientes com Esclerose Múltipla”)

 
Neurology. 2011 Nov 22;77(21):1877-86
 
Abstract: Objetivos: Previamente reportamos que o daclizumab, um anticorpo monoclonal humanizado contra CD25, reduz o número de lesões captantes de contraste (LCC) em pacientes com Esclerose Múltipla (EM) que não eram respondedores ao tratamento com interferon. Essa resposta ao Daclizumab se correlaciona com a expansão de células NK CD56. Esses dados têm sido reproduzidos em um ‘trial’ multicêntrico controlado com placebo (estudo CHOICE). O atual trabalho investiga se a monoterapia com Daclizumab reduz LCC em pacientes com EM recorrente-remitente (EMRR) virgens de tratamento, assim como analisa os efeitos intratecais no sistema imune. Métodos: Dezesseis pacientes com EMRR com alto nível de atividade inflamatória foram aceitos em um estudo ‘open-label’, fase II, que comparou os pacientes pré- e pós tratamento. Daclizumab foi usado como monoterapia por 54 semanas. Os pacientes foram seguidos por esse período com exames clínicos e de imagem seriados, além de pesquisa de marcadores biológicos no sangue e líquor. Resultados: O estudo atingiu os propósitos pré-definidos. Houve uma redução de 87,7% nas LCC no encéfalo (propósito primário) e melhoras nas escalas Multiple Sclerosis Functional Composite (propósito secundário), Scripps Neurologic Rating Scale, and Expanded Disability Status Scale (propósito terciário). Houve uma expansão no número de células NKCD56 no sangue periférico, assim como no líquor, com um declínio nas razões células T/células NK e células B/células NK e IL-12p40 no líquor. Surpreendentemente, CD25 Tac foi igualmente bloqueado nas células imunes,  no liquor e no sangue periférico. Conclusões: A monoterapia com Daclizumab inibe a formação de places de EM em pacientes com EMRR e células NK imunoregulatórias talvez suprimam diretamente a ativação de uma reposta imune patogênica no sistema nervoso central. Classificação de evidência: O estudo provê evidência classe III que a monoterapia com Daclizumab reduz o número de LCC em pacientes com EMRR virgens de tratamento no decorrer de um tratamento de 54 semanas. 

Comentário: O ‘background’ desse trabalho foi outro trabalho que mostra que o Daclizumab diminui o número de LCC em pacientes com EM não respondedores, ou respondedores subótimos, a interferons e que essa resposta está relacionada a células NK CD56. O que o atual trabalho questiona é se o Daclizumab diminui o número de LCC em pacientes com EMRR virgens de tratamento. Essa pergunta é importante uma vez que o tratamento com interferon também aumenta a população de células NK, que por sua vez podem atuar sobre as células autoimunes ativadas. A população desse trabalho foram 16 pacientes adultos  com diagnóstico de EMRR com alta taxa de atividade inflamatória e EDSS 1-5,5 com ao menos 0,5 LCC/ mês. A comparação da efetividade do tratamento foi pré X pós tratamento. A terapia com Daclizumab foi endovenosa 1mg/kg na semana 0, após 2 semanas e depois 1 vez por mês. É importante frisar que 2 pacientes não conseguiram completar as 54 semanas propostas. Um paciente apresentou, durante a terapia com Daclizumab, reumatismo palindrômico respondedor a retirada da droga. O segundo paciente a atividade da doença não cedeu e ele foi retirado do estudo para seguir outra terapia mais agressivo e não foi seguido! Em relação a efeitos colaterais e adversos, o trabalho relata, além do caso de reumatismo polindrômico, aumento no número de infecções (principalmente urinárias e respiratória), dermatografia, psoaríase seborreica e dor de cabeça. Além de sugerir que o modo de atuação do Daclizumab através de células NK, o trabalho também sugere que uma vez que a expansão dessa população de células pode ser analisada no sangue periférico, a contagem de  células NK no sangue periférico poderia ser usada como uma marcador da efetividade do tratamento. Não foi encontrado efeito na contagem de leucócitos no líquor, ou naquantificação  das IL6 ou IL8 ou CXCR3 ou CCR5, ou nas razões CD4/CD8, células T/ células B. Pode-se dizer, então, que o Daclizumab é uma possível imunoterapia cujo modo de atuação se dá em grande parte através da expansão de células NK. Apesar do resultado promissor, antes de colocarmos em prática essa terapia, devemos nos lembrar que esse foi um estudo fase II, em um pequeno número de pacientes – inclusive um dos pacientes não respondedor ao Daclizumab foi retirado do estudo e não seguido -, e que o estudo é controlado com placebo, não comparando o tratamento do Daclizumab aos atuais e já aprovados medicamentos para o tratamento da EM. 

Link: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/22076546

——————————————————————————————————————————————————————

 

Vitamina D no Sistema Nervoso Central saudável e com inflamação: acesso e função

(“Vitamin D in the healthy and inflamed central nervous system: Access and function”)

 
J Neurol Sci. 2011 Dec 15;311(1-2):37-43
 
Abstract: Exposição a altas doses de vitamina D pode ter efeito protetor em relação ao desenvolvimento e progressão da Esclerose Múltipla (EM), possivelmente através das propriedades imunomoduladoras do metabólito biologicamente ativo 1,25-dihidroxi Vitamina D. Até o momento, a maioria dos estudos sobre os possíveis mecanismos da vitamina D na EM focaram na modulação do sistema imune fora dos sistema nervoso central (SNC) No entanto, a vitamina D pode ter efeito na patofisiologia da EM dentro do SNC. Nessa revisão, a presença e as funções da vitamina D no SNC saudável e no com inflamação são exploradas. É discutido que a Vitamina D, a proteína transportadora de Vitamina D, o receptor de Vitamina D (VDR) e as enzimas necessárias (CYP27B1) para o metabolismo da Vitamina D estão presentes no SNC. Tanto o VDR como CYP27B1 são expressos em várias células, incluindo neurônios, glia e linfócitos invasores. Alguns estudos vem pesquisando um possível papel modulador da Vitamina D na patofisiologia da EM, incluindo inflamação, desmielinização, dano axonal e remielinização. É concluído que a Vitamina D tem importância local no SNC inflamado e é provável que tenha um papel na EM. Estudos futuros devem caracterizar melhor o impacto na Vitamina D na EM. 

Comentário: Atualmente muito se tem falado no papel da vitamina D na EM. Essa revisão tenta mostrar o racional por trás desta discussão. A vitamina D tem um papel modulador no sistema imune, mas é a sua deficiência uma causa da EM? É um fator modulador? Ou só um marcador de inflamação? A vitamina D atua nas células T do sangue periférico, inclusive Tregs. A favor da importância da vitamina D na EM estudos mostram que a sua administração previne a Encefalomielite Autoimune Experimental (mostrando o impacto de sua modulação, e não necessariamente especificidade na patofisiologia da doença em si, uma vez que teria que ser estudado a Vitamina D em outros modelos de doenças inflamatórias), que há regulação in vitro do haplotipo DRB1*15  (associado a maior risco de EM),  além de uma relação entre níveis altos de Vitamina D e menor número de surtos em pacientes com EM remitente–recorrente, associado a um rápido declínio cognitivo naqueles pacientes com níveis baixos dessa vitamina. Dados mostrando que a Vitamina D é um marcador de inflamação são discutidos nesse trabalho como o de que níveis intratecais elevados da proteína transportadora de vitamina D foram encontrados na EM , assim como na herniação de disco, Síndrome de Guillain-Barre, doença de Parkinson e na doença de Alzheimer ou que estimulação de microglia de ratos através de lipopolissacarídeos ou interferon – gama aumenta a síntese de 1,25(OH)2D.  Portanto, mais estudos são necessários para sabermos a relevância clínica da Vitamina D, tanto na EM recorrente-remitente como na primariamente progressiva. É ela um importante modulador nos pacientes, ou só naqueles com deficiência? Sua suplementação é válida em todos os tipos de EM? Nos pacientes em tratamento com imunomoduladores, ela é uma terapia adjuvante? Creio que todas essas perguntas necessitam ser respondidas antes da sua prescrição, uma vez que não podemos esquecer que a vitamina D também tem efeito no metabolismo do cálcio…

Link: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/21862439

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s