Atualizações em Neurorradiologia Intervencionista – Mar/12

Publicado: 14/03/2012 em Neurorradiologia Intervencionista
Tags:, , ,

Estudo randomizado do Clazosentan em pacientes com HSA aneurismática submetidos a embolização por molas

(“Randomized Trial of Clazosentan in Patients With Aneurysmal Subarachnoid Hemorrhage Undergoing Endovascular Coiling“)

Macdonald RL, Higashida RT, Keller E, Mayer SA, Molyneux A, Raabe A, Vajkoczy P, Wanke I, Bach D, Frey A, Nowbakht P, Roux S, Kassell N

Stroke. 2012 Mar 8

Abstract: Introdução/Objetivos: Tem sido demonstrado que o Clazosentan, um antagonista de receptor de endotelina-I, reduz o vasoespasmo após a hemorragia subaracnóide aneurismática (HSA). O estudo CONSCIOUS-3 avaliou se o clazosentan reduziu a morbidade relacionada ao vasoespasmo e a mortalidade pós-HAS tratada por embolização endovascular. Métodos: Neste estudo duplo-cego, controlado com placebo, fase III foram randomizados pacientes com HSA, tratados por embolização endovascular com molas, para clazosentan (5 ou 15mg/h) até 14 dias ou placebo. O desfecho primário (mortalidade por todas as causas; novos infartos cerebrais relacionados a vasoespasmo ou déficit neurológico isquêmico tardio; terapia de resgate para vasoespasmo) foi avaliado 6 semanas pós-HSA. O principal desfecho secundário foi dicotomizado pela Escala Extendida de Prognóstico de Glasgow (semana 12). Resultados: CONSCIOUS-3 foi interrompido prematuramente após a conclusão do CONSCIOUS-2; 577/1500 de pacientes previstos (38%) foram inscritos e 571 foram tratados (placebo, n = 189; clazosentan 5 mg / h, n = 194; clazosentan 15 mg / h, n = 188). O desfecho primário ocorreu em 50/189 de pacientes tratados com placebo (27%), comparado com 47/194 pacientes (24%) tratados com clazosentan 5 mg / h (odds ratio [OR], 0,786, IC 95%, 0,479 -1,289, P = 0,340), e 28/188 pacientes (15%) tratados com clazosentan 15 mg / h (OR, 0,474; 95% CI, 0,275-0,818, P = 0,007). O prognóstico ruim (Extended Glasgow Outcome Scale ≤ 4) foi observado em 24% dos pacientes com placebo, 25% dos pacientes com clazosentan 5 mg / h (OR, 0,918; 95% CI, 0,546-1,544, P = 0,748), e 28 % dos pacientes com clazosentan 15 mg / h (OR, 1,337, 95% CI, 0,802-2,227, P = 0,266). Complicações pulmonares, anemia e hipotensão foram mais comuns em pacientes que receberam clazosentan do que naqueles que receberam placebo. Na semana 12, a mortalidade foi de 6%, 4%, e 6% com o placebo, clazosentan 5 mg / h, e clazosentan 15 mg / h, respectivamente. Conclusões: O clazosentan 15 mg/h reduziu significativamente a morbidade/mortalidade por todas as causas relacionados ao vasoespasmo pós-HSA. Entretanto, nenhuma das doses melhorou o resultado pela escala de prognóstico de Glasgow.

Comentários: Muitos estudos já foram conduzidos no intuito de encontrar soluções para o vasoespasmo cerebral, uma condição grave e frequente entre os paciente com HSA aneurismática. Entretanto, além da nimodipina oral, a maioria dos estudos até hoje não conseguiu definir com clareza outras terapêuticas para a prevenção do vasoespasmo. Este estudo é um fruto da ‘’big science’’, que nos revela uma nova medicação que foi eficaz no tratamento do vasoespasmo cerebral. Esta medicação esteve associada à hipotensão arterial, anemia e complicações pulmonares, que foram resolvidas clinicamente. Os autores discutem possíveis motivos para a não melhora da escala de prognóstico Glasgow. São levantadas algumas hipóteses, por exemplo, de que a associação do clazosentam com a nimodipina oral pode ter levado a hipotensão arterial ou de que o clazosentam teria efeito apenas nos vasos cerebrais de maior calibre não sendo efetivo na prevenção dos danos microestruturais e microvasculares atribuídos ao vasoespasmo. De qualquer maneira a medicação se mostrou definitivamente eficaz; resta-nos aguardar mais estudos que definam relações de eficácia quanto a diferentes dosagens, tempo de uso e associações medicamentosas.

Link: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/22403047

—————————————————————————————————————————————————————–

Trombólise local na trombose venosa cerebral grave

(“Local Thrombolysis for Severe Cerebral Venous Sinus Thrombosis“)

Guo XB, Guan S, Fan Y, Song LJ

AJNR Am J Neuroradiol. 2012 Mar 1

Abstract: Introdução/Objetivo: Trombose venosa cerebral (TVC) é uma entidade rara que pode ser de dificil manejo. A maioria dos pacientes com TVC melhoram após o tratamento com heparina, mas um subgrupo de TVC grave tem um prognóstico reservado. Tais pacientes podem se beneficiar da trombólise local. O objetivo deste estudo foi avaliar uma série retrospectiva de pacientes com TVC grave, e estudar a segurança e eficácia da trombólise local nos pacientes com TVC não responsiva a terapia convencional com heparina.Materiais e métodos: Foram incluidos 37 pacientes com TVC, que receberam trombólise local, e avaliados durante 3 anos (Janeiro de 2007 a dezembro de 2009). A urokinase foi infundida no seio venoso por um microcateter. Foram coletados dados demográficos, clínicos e de achados radiológicos. Foram obtidos dados do seguimento de 6 meses. Ressonância magnética foi repetida para avaliar a recanalização dos seios. Resultados: Vinte e sete pacientes (73%) tiveram bom prognóstico e 7 pacientes (19%) tiveram apenas déficits moderados, mas mantiveram-se independentes para suas atividades da vida diária. Um paciente sobreviveu com déficit neurológico grave e 2 pacientes morreram. A recanalização completa do seio sagital superior foi obtida em 35 pacientes (97%). No seguimento de 6 meses, 34 pacientes (92%) ficaram assintomáticos ou tiveram apenas sintomas subjetivos mínimos. Conclusions: A trombólise local, intra-seio, é segura e efetiva em pacientes com TVC grave. Entretanto, o subgrupo de pacientes que mais se beneficiaria deste procedimento não ficou claro apartir dos nossos dados. São necesários grandes estudos randomizados e controlados para esclarecer esta questão.

Comentários: Este é um estudo chinês, no formato de uma série retrospectiva de 37 casos de TVC, publicado em um dos mais importantes periódicos em neuroradiologia da atualidade. Estamos diante da maior série já publicada sobre trombólise in-situ (ou local) para TVC. Tais dados são escassos possivelmente porque a TVC é uma entidade rara (cerca de 1% dos AVCs) e apresenta em geral bom prognóstico clínico sob um regime de heparinização plena. Interessante notar que os autores indicaram o procedimento para TVC nas seguintes situações: ausência de resposta clínica com heparina, trombose do seio reto, AVC isquêmico venoso extenso, piora rápida e progressiva do déficit neurológico ou alterações do estado mental. Sobre o procedimento, um microcateter foi mantido na porção proximal do seio trombosado e foi utilizado um regime de infusão continua de urokinase (total de 1.000.000 U/dia) que durou em média 5,5 dias. Quanto ao temor de transformação hemorrágica sob uso de trombolítico próximo a regiões de infarto venoso e sangramento associado, foram observados 2 casos de sangramento, sendo um deles fatal. Enfim, como os próprios autores sugerem são necessários estudos com desenho metodológico adequado para avaliar esta modalidade terapêutica no contexto da TVC grave. Como o estudo não nos traz todas as respostas que gostaríamos de ter, acredito que poderemos extrair dele a idéia de que, frente a casos de TVC graves e refratários ao tratamento convencional, podemos recorrer à terapêutica endovascular.

Link: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/22383243

comentários
  1. Marcelo Cabral disse:

    Excelente blog!
    Sou R3 de neurologia no RJ , sempre acesso para me manter atualizado.
    Muito obrigado e parabéns pelo trabalho de vocês

  2. Luis Henrique disse:

    Obrigado Marcelo! Espero que o JEAN possa sempre o auxiliar. Todos nós que escrevemos aqui também aproveitamos para aprender com os colegas das diferentes sub-áreas. Afinal, conhecer os artigos mais relevantes tem sido uma das tarefas mais difíceis. Aqui temos o privilégio de receber os resumos traduzidos e filtrados!

    Abs

    Luis H.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s