Atualizações em Neuroimunologia – Mar/12

Publicado: 29/03/2012 em Neuroimunologia
Tags:, , ,

Um estudo prospectivo, randomizado e controlado de transplante autólogo de células-tronco hematopoiéticas para esclerose múltipla agressiva: um artigo de posição

(“A prospective, randomized, controlled trial of autologous haematopoietic stem cell transplantation for aggressive multiple sclerosis: a position paper”)

Saccardi R, Freedman M, Sormani M, Atkins H, Farge D, Griffith L, Kraft G, Mancardi G, Nash R, Pasquini M, Martin R, Muraro P

Mult Scler. 2012 Mar 20

Abstract: Introdução: O transplante autólogo de células-tronco hematopoiéticas (TATCH) tem sido usado como uma opção terapêutica nos últimos 15 anos em pacientes portadores de doenças autoimunes com mau prognóstico devido a não terem respondido a tratamentos de primeira linha. Atualmente, mais de 600 pacientes portadores de Esclerose Múltipla (EM) tem sido tratados com TACTH em vários centros. A maior parte desses pacientes foram recrutados em pequenos trials fase 1 ou 2, realizados em um único centro. Imagens de Ressonância Magnética (RM) e dados clínicos de relatos de séries de casos ou análises baseadas em registros sugerem que a maioria dos pacientes tem uma boa resposta, mas o melhor resultado é visto em pacientes que foram transplantados durante a fase de EM recorrente–remitente quando comparados aos pacientes em fase secundariamente progressiva. Objetivos: Após duas reuniões internacionais com suporte das Sociedades  Americana e Européia de Transplante de Sangue e Medula Óssea, um comitê interdisciplinar composto de neurologistas e hematologistas  foi formado com o propósito de discutir um ‘trial’ clínico controlado desenhado dentro dos atuais cenários de tratamento de EM, incluindo o uso de TACTH. Conclusões: Os objetivos de um  ‘trial’, a seleção de pacientes, o protocolo de transplante e avaliação de resultado são discutidos e sumarizados nesse artigo com o objetivo de estabelecer um estudo prospectivo, randomizado, controlado e multicêntrico para avaliar a eficácia clínica do TATCH para o tratamento de EM com alto grau de inflamação.

Comentário: Esse artigo sumariza resultados de outros artigos que já cobriram o TATCH para EM e reforça que o resultado é positivo em pacientes com EM surto-remissão e/ou com características inflamatórias na RNM que se mostraram refratários a outras terapias. Outro ponto importante a se destacar, é que este artigo aborda é que o risco relacionado ao TATCH diminuiu após modificações em regimes de imunossupressão e condicionamento, mas mesmo assim esse risco é maior que o de outras terapias, mostrando que o TATCH não deve ser usado como primeira opção de tratamento. Outra característica de destaque é a didática explicação (“Figura 4”) do TATCH e a comparação entre diferentes regimes de transplante. Mas a principal razão desse trabalho é propor um protocolo hierarquizado entre os tratamentos em voga, incluindo o TATCH, a ser usado em um estduo clínico, definindo os critérios de inclusão e os resultados primários a serem estudados.

Link: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/22383228

——————————————————————————————————————————————————————

Imunidade por células T CD8+ na polirradiculopatia inflamatória desmielinizante aguda

(“CD8+ T-cell immunity in chronic inflammatory demyelinating polyradiculoneuropathy”)

Schneider-Hohendorf T, Schwab N, Uçeyler N, Göbel K, Sommer C, Wiendl H

Neurology. 2012 Feb 7;78(6):402-8

Abstract: Objetivos: A Poliradiculoneuropatia Inflamatória Desmielinizante Crônica (PIDC) é uma doença do sistema nervoso periférico não rara, mas muitas vezes não diagnosticada, de provável etiologia autoimune. Apesar dos conceitos atuais de PIDC sugerirem que as células B e autoanticorpos têm um papel importante na patogenia, a presença de células TCD8 em biópsias de nervo ainda não foi compreendida. Tal fato motivou a estudarmos a expansão clonal dos linfócitos derivados do sangue que infiltram o tecido nervoso na PIDC no intuito de avaliar o envolvimento de células T na patogenia dessa doença. Métodos: Caracterizamos a composição clonal do repertório dos receptores de células T em biópsias de nervo sural (n=25) e sangue periférico (n=12) de pacientes com PIDC usando tecnologia baseada em PCR (PCR-based CDR3 spectratyping) e subsequente sequenciamento de DNA. Como controles, foram usadas biópsias musculares de pacientes com miopatias inflamatórias (dermatomiosite, miosite por corpúsculo de inclusão) e biópsias de pacientes sem neuropatia cuja biópsia de nervo foi usada para diagnóstico de outras comorbidades. Imunohistoquímica foi usada para visualizar as populações de células TCD8 nas biópsias de nervos surais. Resultados:  Em relação aos controles, as células T em biópsias de pacientes com PIDC mostraram restrição importante em seu repertório de receptores de células T, tanto de forma monoclonal como oligoclonal. Pertinentemente as expansões clonais encontradas nas biópsias de nervo foram refletidas no ‘pool’ de células T CD8 no sangue periférico dos pacientes. Um ‘overlap’ dos clones encontrados no sangue em biópsias foi confirmado pelo sequenciamento CDR3. Finalmente o predomínio de clones de células TCD8 nas células infiltrantes foi visualizada por imunohistoquímica. Conclusões: Os dados evidenciam a existência na PIDC de um ataque ao nervo periférico mediado por células TCD8 dirigidas a um antígeno restringido ao complexo de histocompatibilidade classe I.

Comentário: Esse artigo é interessante por trazer resultados que reforçam o conceito que a PIDC é uma doença autoimune, além de colocar as células T em evidência na patofisiologia dessa doença, corroborando com o fato de que, no modelo animal, é necessária a transferência de células T – e não de anticorpos – para que a doença seja reproduzida em laboratório. O seu diferencial é estudar células TCD8, além da metodologia elegante usada.

Link: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/22238416

——————————————————————————————————————————————————————

Destino das células-tronco transplantadas nos nervos periféricos

(“Fate of stem cell transplants in peripheral nerves”)

Walsh SK, Kumar R, Grochmal JK, Kemp SW, Forden J, Midha R

Stem Cell Res. 2012 Mar;8(2):226-38

Abstract: Apesar de nervos periféricos que foram danificados demonstram potencial de regeneração, a recuperação completa é algo infrequente. O uso de células-tronco é uma tentativa de recuperar nervos danificados com o intuito de otimizar a sua própria capacidade de recuperação. Vários modos de utilização de células-tronco mostraram sucesso em modelos animais, mas poucos estudos focaram em como essas células se comportaram após o transplante, sua sobrevivência e diferenciação. Em um trabalho anterior, demonstramos que células derivadas da dermis de roedores recém-natos (células precursoras derivadas da pele – SKPs)  podem melhorar a capacidade de regeneração de um nervo periférico danificado, tanto cronicamente como agudamente,  quando transplantadas distalmente à injúria  em ratos Lewis. O propósito desse trabalho foi acompanhar o destino de células-tronco após transplante em nervos periféricos danificados e a resposta dessas células a um conhecido fator de crescimento de glia. O resultado reportado é que SKPs sobrevivem, diferenciam em células de Schwann, proporcionam mielinização e não são atacadas pelo sistema imune do organismo onde ocorreu o transplante em um período de follow-up de 10 semanas.  Além disso, o destino de SKPs in vivo depende do microambiente onde foram transplantada o qual pode ser otimizado com a administração de heregulina-1β.

Comentário: Esse é um artigo que traz esperanças a todos que trabalham, ou são vítimas, com injúrias ao nervo periférico. Mas, ao mesmo tempo, mostra que ainda é necessário pesquisa para colocarmos em prática a idéia de transplante de células-tronco em pacientes, pois além de estudamos qual a melhor célula-tronco, qual o melhor regime, é necessário avaliarmos e melhorarmos o micro-ambiente onde a célula-tronco será transplantada para um melhor resultado.

Link: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/22265742

——————————————————————————————————————————————————————

Diagnóstico diferencial de mielite tranversa longitudinal extensa

(“The differential diagnosis of longitudinally extensive transverse myelitis”)

Kitley J, Leite M, George J, Palace J

Mult Scler. 2012 Mar;18(3):271-85

Abstract: A mielite tranversa longitudinal extensa (MTLE) refere-se a uma entidade inflamatória espinhal, caracterizada por um padrão de hipersinal na sequência T2 da Ressonância,  extendendo-se por 3 ou mais segmentos e de várias etiologias associadas. Apesar de raro, MTLE é uma entidade clínica importante , com consequências  funcionais catastróficas e de possível recorrência clínica. Identificação precoce da etiologia é de vital importância para otimizar o tratamento e acompanhamento clínico.  Apesar da MTLE estar classicamente associada à Neuromielite Óptica (NMO) , há muitas outras etiologias, como por exemplo, infecções, distúrbios metabólicos e paraneoplásicos/neoplásicos. Algumas destas causas há tratamento específico. Investigação laboratorial e radiológica pode ajudar na identificação das diferentes causas. O tratamento da MLTE é diferente nas causas inflamatórias e não inflamatórias e previne aqueles pacientes que têm alto risco de recorrência.

Comentário: Este artigo de revisão de Mielite Tranversa Longitudinal Extensa (MTLE), publicado pelo grupo de Oxford na Multiple Sclerosis Journal deste mês, é uma boa opção para revermos o diagnóstico diferencial das MTLE’s como as causas paraneoplásicas (associadas aos anticorpos CRMP-5 e  anfifisina-IgG) e metabólicas (deficiência de cobre). Comenta também, de forma sucinta,  sobre a polêmica associação de anticorpos não-órgão-específicos associados com um “NMO spectrum”, assunto discutido de forma mais interessante por Weinshenker et al., na MS Journal de fevereiro.

Link: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/21669935

 

comentários

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s