Atualizações em Cefaleias – Mar/12

Publicado: 03/04/2012 em Cefaleias
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Cefaléia em Salvas nos Estados Unidos da America: aspectos demográficos, características clínicas, gatilhos, relação com suicídio e carga pessoal

(“Cluster headache in the United States of America: demographics, clinical characteristics, triggers, suicidality, and personal burden”)

Rozen TD, Fishman RS

Headache. 2012 Jan;52(1):99-113

Abstract: Objetivo: Apresentar os resultados dos Estados Unidos (EUA) Inquérito de Cefaléia, incluindo dados demográficos cefaléia em salvas, características clínicas, comportamento suicida, retardo de diagnóstico, gatilhos e encargos pessoais. Introdução: Há poucos estudos de grande escala abordando pacientes com cefaléia em salvas, e nenhum dos EUA. Este manuscrito vai apresentar os dados da Pesquisa sobre Cefaléia em Salvas dos EUA, a maior pesquisa já concluída de pacientes cefaléia em salvas que vivem nos EUA. Métodos: A amostragem total foi composta de 187 questões de múltipla escolha que abordavam questões relacionadas com cefaléia em salvas, incluindo dados demográficos, características clínicas, comorbidades, história familiar, gatilhos, história de tabagismo, e encargos pessoais. O levantamento foi colocado em um site de outubro a dezembro de 2008. Resultados: Um total de 1134 indivíduos completaram o estudo (816 do sexo masculino, 318 do sexo feminino). Alguns destaques principais da pesquisa incluem os seguintes: (1) atraso no diagnóstico: ainda há um atraso significativo no diagnóstico para pacientes com cefaléia em salvas, em média 5 anos ou mais, com apenas 21% dos dos pacientes recebendo um diagnóstico correto no momento da apresentação inicial. (2) Suicídio: ideações suicidas são substanciais, ocorrendo em 55%. (3) A cor dos olhos: a cor dos olhos predominante em pacientes com cefaléia em salvas é marrom e azul, não avelã como sugerido nas descrições anteriores. (4) Lateralidade: cefaléia em salvas tem uma predominância do lado direito. (5) perfil de ataque: em portadores de cefaléia em salvas nos EUA, a maioria dos ataques ocorrem entre o início da noite e primeiras horas da manhã com horário de pico de início dor de cabeça entre meia-noite e 3 horas da manhã, a periodicidade circadiana para cefaléia em salvas é presente, mas não é tão importante como se pensava anteriormente. (6) Gatilhos: cerveja é o tipo de álcool mais comum dentre os gatilhos em pacientes com cefaléia em salvas dos EUA; desencadeantes de enxaqueca tais como mudanças climáticas e cheiros também ocorrem comumente na cefaléia em salvas. (7) co-morbidades médicas: úlcera péptica não tem uma alta prevalência em pacientes com cefaléia em salvas nos EUA, como sugerido pela literatura anterior; cefaléia em salvas é associada a uma baixa prevalência de doença cardíaca, bem como doença cerebrovascular, embora a maioria dos pacientes sejam fumantes crônicos. Em portadores de cefaléia em salvas nos EUA, parece haver comorbidade com síndrome das pernas inquietas, e isso não foi demonstrado em populações não-americanas com cefaléia em salvas. (8) ônus pessoal: cefaléia em salvas é incapacitante para o indivíduo e quase 20% dos pacientes com cefaléia em salvas perderam um emprego por causa da cefaléia em salvas, enquanto outros 8% fora do trabalho ou incapazes também por suas dores de cabeça. Conclusão: Alguns resultados da pesquisa confirmam o que se sabe atualmente sobre cefaléia em salvas, enquanto alguns outros resultados contradizem o que foi escrito anteriormente e, ainda, outras informações são completamente novas sobre essa fascinante dor de cabeça.

Comentário: Estudo epidemiológico americano que trata de um dos principais tipos de cefaléia primária que, apesar de incomum, traz gigantesco sofrimento aos seus portadores. Ressalta ainda a importância do correto diagnóstico deste tipo de dor, pois 50% dos pacientes neste estudo revelaram ideação suicida e 2% já tentaram suicídio de alguma forma. Além disso, grande parte apresenta comportamento de auto-agressão durante as crises de dor. Como era de se esperar, interessantes características clínicas em relação à cefaléia em salvas são citadas, tais como: presença de sintomas compatíveis com aura e desencadeantes outros, além de bebidas alcoólicas. Portanto, o artigo tem grande relevância por abordar uma cefaléia tão incapacitante, ressaltando seus aspectos clínicos e epidemiológicos. É fundamental que seja lembrada diante de um paciente com cefaléia excruciante, de curta duração (15 a 180 minutos) com sintomas autonômicos ou agitação importante. O tratamento é único e o uso das medicações analgésicas habituais não tem efeito.

Link: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/22077141

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Tratamento de Resgate para Migrânea Aguda, Parte 1: Triptanos, Diidroergotamina e Magnésio

(“Rescue Therapy for Acute Migraine, Part 1: Triptans, Dihydroergotamine, and Magnesium”)

Kelley NE, Tepper DE

Headache. 2012 Jan;52(1):114-28

Abstract: Objetivo: Rever e analisar relatórios publicados sobre o tratamento agudo da enxaqueca com triptanos, diidroergotamina (DHE) e magnésio no departamento de emergência, atendimento de urgência, e clínicas de dor de cabeça. Métodos: MEDLINE usando os termos “migraine” e “emergency”, “therapy” e “treatment”. Relatos de unidades de urgência ou emergência usando medicações por qualquer via foram incluídos. Relatos de clínicas de cefaléia foram incluídos somente caso o medicamento utilizado fosse parenteral. Resultados: Haviam estudos de tratamento de resgate de crise migranosa utilizando triptanos somente com o sumatriptano, injetável e nasal, e rizatriptano. A eficácia foi muito variável, mesmo quando a análise  estatística separou os pacientes que ficaram livres de dor daqueles com alívio da dor. Como estes medicamentos são reconhecidamente melhores no início da enxaqueca, parte desta variabilidade pode ser atribuída ao tempo para administração do triptano desde o início da crise. Vários estudos compararam triptanos com antieméticos, antagonistas da dopamina, e anti-inflamatórios não-esteróidais. A porcentagem total de pacientes com o alívio da dor depois de tomar sumatriptano foi aproximadamente equivalente à registada com droperidol e proclorperazina. O sumatriptano foi equivalente à DHE apenas quando comparações emparelhadas foram realizadas. Enquanto os dados existentes sugerem que o magnésio pode ser eficaz no tratamento de todos os sintomas em pacientes com enxaqueca com aura, nos demais pacientes com enxaqueca a sua eficácia parece estar limitada a tratar somente fotofobia e fonofobia. Conclusões: Embora existam relativamente poucos estudos envolvendo tratamento agudo de crise migranosa com uso de triptanos ou DHE por profissinais de saúde em unidades de urgência e emergência, eles parecem ser equivalentes aos antagonistas da dopamina para o alívio da dor da enxaqueca. A inclusão relativamente rara de um braço de placebo e a utilização frequente de medicamentos de combinação em braços de tratamento ativo dificulta a comparação dos agentes individuais uns com os outros.

Comentário: Parte 1 de revisão em três partes que aborda o uso de triptanos e diidroergotamina (DHE) como drogas a serem utilizadas em pronto-socorro para abortar crises de migrânea. No caso da DHE, estudos analisados utilizam a medicação intra-venosa ou sub-cutânea, as quais não temos no Brasil. Em caso de crise de dor refratária e sem sensibilização central, considerar o uso do sumatriptano sub-cutâneo ou do rizatriptano via oral (dispersível). As próximas partes abordarão outros tratamentos (neurolépticos, antihistamínicos, antiinflamatórios e outros).

Link: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/22211870

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Tratamento de Resgate para Migrânea Aguda, Parte 2: Neurolépticos, anti-histamínicos e outros

(“Rescue Therapy for Acute Migraine, Part 2: Neuroleptics, antihistamines, and others”)

Kelley NE, Tepper DE

Headache. 2012 Feb;52(2):292-306

Abstract: Objetivos: Esta segunda parte, de uma série de 3, examina a eficácia relativa do tratamento da cefaléia com neurolépticos, anti-histamínicos, antagonistas da serotonina, valproato e outros medicamentos (octreotide, lidocaína, óxido nitroso, propofol e bupivacaína)  em unidades de urgência e/ou emergência ou clínicas de dor de cabeça. Métodos: MEDLINE usando os termos “migraine” AND “emergency” e “therapy” ou “treatment”. Foram utilizados relatos de caso de departamentos de emergência e urgência utilizando todas as vias de administração das medicações. Relatos de clínicas de dor de cabeça só foram incluídos se os medicamentos foram administrados por via parenteral. Resultados: Proclorperazina, prometazina, e metoclopramida, quando usados isoladamente, foram superiores ao placebo. Droperidol e proclorperazina foram superiores ou iguais em termos de eficácia para todos os outros tratamentos, embora eles também apresentem mais efeitos colaterais (especialmente acatisia). A metoclopramida foi equivalente a proclorperazina, e, quando combinada com difenidramina, foi superior em eficácia aos triptanos e anti-inflamatórios não-esteróidais. Meperidina foi inferior a clorpromazina e equivalente aos outros neurolépticos. A porcentagem total de pacientes com o alívio da dor após tomar droperidol e proclorperazina foi equivalente ao sumatriptano. Conclusões: Proclorperazina e metoclopramida são os anti-enxaquecosos mais frequentemente estudados no contexto de emergência. A eficácia de cada um é superior à do placebo. Proclorperazina é superior ou equivalente a todas as outras classes de medicamentos em produzir alívio da dor da enxaqueca. Antagonistas da dopamina em geral parecem ser equivalentes para o alívio da dor de enxaqueca comparados aos medicamentos mais específicos sumatriptano e diidroergotamina, embora haja menos estudos envolvendo os dois últimos. A falta de comparação com placebo e a utilização frequente de medicamentos combinados em braços de estudos de tratamento complica a comparação dos agentes isolados um com o outro.

Comentário: Esta é a segunda parte sobre o tratamento abortivo da migrânea em uma unidade de urgência/emergência fazendo boa análise de drogas de nosso uso rotineiro para tal fim: metoclopramida, clorpromazina e algumas butirofenonas, bem como anti-histamíncos, valproato, octreotide e outros. Confirma a eficácia de algumas frente ao placebo (fenotiazinas, metoclopramida) e mesmo frente a outras drogas, sempre considerando a presença dos vários efeitos colaterais. Ainda faz referência à farmacologia das classes de medicamento, analisadas de forma sucinta, mas com ótima aplicação na prática. Novamente, cita estudos que usam diidroergotamina parenteral e não temos tal formulação disponível no Brasil. Achei importante o uso de alguns medicamentos que claramente não são primeira opção, mas que podem fazer parte de nosso arsenal casos onde há contra-indicação às terapias de primeira linha. Aguardamos agora a parte 3, aonde será abordado o uso de AINH e opióides.

Link: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/22309235

 

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