Atualizações em Epilepsia – Abr/11

Publicado: 20/04/2012 em Epilepsia
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Abrimos os trabalhos da edição de abril do JEAN com o retorno dos resumos em Epilepsia feitos pelo mais novo mestre em Neurologia pela FMRP-USP, nosso amigo Bruno Monnerat. Parabéns, Brunão!

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Tendências para cirurgia de epilepsia nos Estados Unidos entre 1990 e 2008

(“Epilepsy surgery trends in the United States, 1990-2008”)

Englot DJ, Ouyang D, Garcia PA, Barbaro NM, Chang EF

Neurology. 2012 Apr 17;78(16):1200-6

Abstract: Objetivo: Examinar tendências nacionais de cirurgia ressectiva para epilepsia farmacorresistente antes e depois de estudo Classe I que demonstrou sua eficácia e recomendações clínicas, recomendando avaliação cirúrgica precoce. Métodos: Estudo de coorte populacional com tendências de pacientes internados em hospitais americanos para epilepsia focal farmacorresistente entre 1990 e 2008 que foram submetidos ou não à lobectomia, segundo informações da Nationwide Inpatient Sample. Resultados: Dados revelaram 112.026 hospitalizações por epilepsia focal farmacorresistente e 6,653 cirurgias ressectivas (lobectomias e lobectomias parciais) de 1990 a 2008. Uma tendência ao aumento das hospitalizações ao longo do tempo não foi acompanhada por um aumento nas cirurgias, produzindo uma tendência geral de redução das taxas de cirurgia de epilepsia. Fatores associados com esta tendencia incluem uma redução nas hospitalizações por epilepsia nos hospitais de grande porte, e aumento nas internações de hospitais de pequeno porte, que não fazem cirurgia de epilepsia. Pacientes brancos e os com convênio tiveram mais chance de serem operados do que pacientes de minorias, e aqueles com assistência estatal. Conclusão: Apesar de prova Classe I e subsequentes recomendações clínicas sugerindo a realização de lobectomia, sua utilização não aumentou de 1990 a 2008. A cirurgia continua a ser largamente subutilizada como tratamento de epilepsia, com disparidades significantes por raça e cobertura. Paciente que mantém crises epilépticas após falha de duas medicações antiepilépticas devem ser encaminhadas para um centro de cirurgia de epilepsia para avaliação.

Comentário: Estudo que se propõe, especificamente, a analisar se as lobectomias estão sendo mais realizadas nos últimos anos. Não estão: pelo contrário, as internações por problemas associados à epilepsia aumentam muito mais do que as cirurgias, que estão estáveis. Não se pode aplicar as peculiaridades da amostra quanto à raça e cobertura para os pacientes brasileiros. Não se pode responsabilizar a melhora no desempenho de novas medicações antiepilépticas com causa da redução de cirurgias, pois houve aumento nas hospitalizações gerais associadas à epilepsia. Não se sabe exatamente qual tipo de cirurgia foi feita, pois o código abrange lobectomia temporal e outras.

Link: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/22442428

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Risco de longo prazo para desenvolvimento de epilepsia após crises febris: uma coorte prospectiva

(“Long-term risk of developing epilepsy after febrile seizures: A prospective cohort study”)

Neligan A, Bell GS, Giavasi C, Johnson AL, Goodridge DM, Shorvon SD, Sander JW

Neurology. 2012 Apr 10;78(15):1166-70

Abstract: Objetivo: Reportar o acompanhamento prospectivo de uma coorte a partir da ocorrência de crise febril por um período médio de 24 anos para estimar o risco a longo prazo para desenvolvimento de epilepsia. Método: O National General Practice Study of Epilepsy é um amplo estudo comunitário prospectivo de 1.195 pessoas com uma suposta primeira crise epiléptica seguidas desde os anos 80, dos quais 220 (18%) tiveram crises febris. Índices de incidência com intervalo de confianca de 95% para epilepsia subsequente foram calculados em faixas de 5 anos. Resultados: Informações sobre evolução foram obtidas em 181 (83%) das pessoas com um seguimento médio para a coorte inteira de 21,6 anos. Destes, 175 (97%) estavam livres de crises nos últimos 5 anos, enquanto 171 (94%) estavam livres de crises e também de anticonvulsivantes. Seis por cento desenvolveu epilepsia, mas o risco de desenvolver epilepsia na coorte durante o período foi 10 vezes superior ao da população geral. O indice de incidencia foi significativamente elevado na faixa de 0-14 anos mas não na de 15-19 anos. Conclusão: O risco de desenvolver epilepsia nas pessoas que tiveram crises febris parece diminuir com o tempo. Mais estudos prospectivos de longo prazo são necessários para confirmar estes achados.

Comentário: Estudos populacionais prévios determinaram que o risco de desenvolver epilepsia após crises febris varia entre 2 e 7%. Este estudo é de um grupo inglês respeitado pelo material epidemiológico, e sua hipótese era que, com o passar do tempo, a quantidade de pacientes com epilepsia tende a subir, mas a incidência (casos novos) tende a cair. Isso foi confirmado pelo estudo, e a maior chance para ocorrência de epilepsia é até os 14 anos de idade. Interessante perceber que 68% dos paciente tiveram apenas uma crise febril, e nada mais.

Link: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/22459683

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Quem precisa de teste de Wada? Indicações clínicas atuais para procedimentos com amobarbital

(“Who needs a Wada test? Present clinical indications for amobarbital procedures”)

Wagner K, Hader C, Metternich B, Buschmann F, Schwarzwald R, Schulze-Bonhage A

J Neurol Neurosurg Psychiatry. 2012 May;83(5):503-9

Abstract: Introdução: O teste de Wada tem sido o padrão-ouro para determinar a localização cerebral da área de linguagem durante avaliações pré-cirúrgicas há décadas. Entretanto, nos últimos anos houve mudanças nos programas de cirurgia de epilepsia favorecendo o uso de métodos não-invasivos, como IRM funcional (IRMf). Apesar disso, testes de Wada ainda são realizados, embora em menor quantidade, em muitos centros de cirurgia de epilepsia. Métodos: Análise retrospectiva monocêntrica das indicações clínicas para realização de teste de Wada. Os dados clínicos dos pacientes recentemente (2004-2010) submetidos ao teste foram revisados (42 procedimentos hemisféricos e 8 superseletivos) e analisados. Resultados: Motivos para conduzir um teste de Wada foram (1) incapacidade do paciente em colaborar para estudo de llinguagem por IRMF; (2) validação de padrões atípicos ou inconclusivos observados à IRMf; (3) avaliação da propagação de atividade epileptiforme bilateral; (4) teste seletivo de linguagem e outros domínios cognitivos ou (5) avaliação de localização motora. Pacientes não-cooperativos à IRMf ou cuja IRMf foi inconslusiva são significativamente mais jovens (p<0,05). Conclusão: Argumenta-se que a IRMf pode substituir o teste de Wada na maioria dos pacientes cooperativos com clara lateralização de linguagem, mas em pacientes agitados ou com retardo, assim como naqueles com resultados atípicos ou duvidosos, os testes de Wada ainda fornecem informações valiosas. Além disso, métodos não-invasivos menos suscetíveis à artefatos de movimento são discutidos como possíveis alternativas para estes pacientes.

Comentário: O teste de Wada consiste na desativação de um hemisfério cerebral através da utilização de anestésicos endovenosos aplicados através de cateterismo cerebral. Seu fundamento é o de simular cirurgias e identificar o déficit obtido. Os autores, experientes em cirurgia de epilepsia, recusam a indicação do teste de Wada para testagem de memória (clássica aplicação do método), pois amnésia é extremamente rara atualmente, e o teste não é capaz de predizer mudanças pós-operatórias na função de memória adequadamente. Isso não é unânime. Além disso, o grupo curiosamente ainda usa amobarbital, em detrimento ao etomidato que é muito mais simples e igualmente eficaz para realização do teste. Em relação à linguagem, seguem as tendências atuais de valorizar uma IRMf consistente e coerente com a clínica. A aplicação para diferenciação entre descargas generalizadas ou por sincronia bilateral secundária também é incomum.

Link: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/22396439

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