Atualizações em Neurologia Cognitiva – Abr/12

Publicado: 23/04/2012 em Neurologia Cognitiva
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Acurácia dos critérios diagnósticos clínicos de doença de Alzheimer nos Centros do National Institute on Aging Alzheimer Disease, 2005-2010

(“Accuracy of the clinical diagnosis of Alzheimer disease at National Institute on Aging Alzheimer Disease Centers, 2005-2010”)

Beach TG, Monsell SE, Phillips LE, Kukull W

J Neuropathol Exp Neurol. 2012 Apr;71(4):266-73

Abstract: O exame neuropatológico é considerado como o padrão-ouro para doença de Alzheimer (DA). Para determinar a acurácia dos métodos diagnósticos clínicos usados atualmente, dados clínicos e neuropatológicos do National Alzheimer’s Coordinating Center, que reúne informações de redes dos Centros de DA (CDA) patrocinados pelo National Institute on Aging (NIA), foram coletados como parte do National Alzheimer’s Coordinating Center Uniform Data Set (UDS) entre 2005 a 2010. Uma busca no banco de dados inicialmente incluiu todos 1198 indivíduos com pelo menos um atendimento clínico pela UDS e que morreram e foram necropsiados; 279 foram excluídos como não tendo demência ou porque dados críticos foram perdidos. O número de indivíduos final foi de 919. Sensibilidade e especificidade foram determinadas baseadas em níveis clínicos de confiança de DA “provável” e “possível” e 4 níveis de confiança neuropatológica, baseados em densidade de placas neuríticas [critérios CERAD] e estágios neurofibrilares de Braak. A sensibilidade variou de 70,9% a 87,3%; a especificidade variou de 44,3% a 70,8%. No geral, a sensibilidade foi aumentada com critérios clínicos mais permissivos e a especificidade foi aumentada com critérios mais restritivos, enquanto que o oposto foi verdadeiro para os critérios neuropatológicos. Quando um diagnóstico clínico não foi confirmado pelos critérios mínimos da histopatologia de DA, os diagnósticos neuropatológicos primários mais frequentes foram a demência apenas com emaranhados ou doença de grânulos argirofílicos, degeneração lobar frontotemporal, doença cerebrovascular, doença por corpos de Lewy e esclerose hipocampal. Quando a demência não foi clinicamente diagnosticada como DA, 39% dos casos tinham ou excediam os critérios mínimos para histopatologia de DA. Neurologistas do NIA-CDA tiveram uma acurácia preditiva mais alta quando eles diagnosticavam DA em indivíduos com demência, que quando eles diagnosticaram demências não-DA. A taxa de erros diagnósticos [com os critérios clínicos de DA] deve ser considerada quando número de indivíduos para estudos em DA forem estimados, incluindo estudos clínicos e estudos epidemiológicos.

Comentário: Os trabalhos de acurácia de critérios diagnósticos clínicos, comparados com o exame neuropatológico (padrão-ouro), são muito úteis para sabermos se nossas definições clínicas atuais têm poder suficiente para predizer uma doença, mesmo sem uma análise altamente invasiva. Em DA, a necessidade de termos bons critérios clínicos para diagnóstico da doença tem particular relevância; contudo, os critérios clínicos que usamos pouco variaram nos últimos 20 anos, baseados nos critérios do Consortium to Establish a Registry for Alzheimer’s Disease (CERAD) de 1991 (devemos lembrar as últimas iniciativas para atualização dos critérios de demência e DA, baseadas em biomarcadores de imagem e do LCR, mas ainda não consagrados para o uso na prática clínica). Fazendo o raciocínio inverso, o presente trabalho mostra que nossos critérios falham em detectar a doença quando está presente (sensibilidade) de 12,7% a 29,1%, e falham em afastar a doença quando a mesma está ausente (especificidade) em 29,2% a 55,7%. O valor preditivo positivo (porcentagem de pessoas que realmente tem DA dentre todos os casos que foram diagnosticados como DA pelos critérios clínicos) variou de 46% a 83,3%, com melhores valores se os critérios neuropatológicos de DA forem menos restritivos. Os falsos positivos tiveram diagnósticos patológicos diversos, como doença por grânulos argirofílicos, DFT e doença cerebrovascular. Logo, ao fazer um diagnóstico de DA baseado nos critérios clínicos, sempre temos que ter em mente a possibilidade de erro acima de 20% dos casos.

Link: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/22437338

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Influência da atividade cognitiva na vida tardia sobre a saúde cognitiva

(“Influence of late-life cognitive activity on cognitive health”)

Wilson RS, Segawa E, Boyle PA, Bennett DA

Neurology. 2012 Apr 10;78(15):1123-9

Abstract: Objetivos: Testar a hipótese de que a participação na vida tardia em atividades mentalmente estimulantes afeta a saúde cognitiva subsequente. Métodos: As análises foram baseadas em 1076 pessoas idosas sem demência no início do estudo, participando de um estudo de coorte longitudinal. Eles completaram as avaliações clínicas anuais por uma média de 4,9 anos. Cada avaliação incluiu a administração de uma escala auto aplicada sobre participação em atividades mentalmente estimulantes e um bateria de testes de performance cognitiva. Medidas estabelecidas previamente de atividades cognitivamente estimulantes e de função cognitiva foram definidas. Resultados: Durante o período de observação, a participação em atividades cognitivas (estimativa de mudança anual média = -0,066, EP = 0,005, p < 0,001) e a função cognitiva (estimativa = -0,077, EP = 0,005, p < 0,001) declinaram em taxas que se correlacionaram moderadamente (r = 0,44, p < 0,001). O nível de atividade cognitiva em um determinado ano predisse o nível da função cognitiva global no ano seguinte, mas o nível de cognição global não predisse o nível de participação em atividade cognitiva. A atividade cognitiva mostrou o mesmo padrão de associações unidirecionais com medidas de memória episódica e semântica, mas suas associações com memória operacional foram bidirecionais. Conclusão: Os resultados sugerem que a estimulação mental mais frequente em idosos leva a uma função cognitiva melhor.

Comentário: É do senso comum o conceito de que uma atividade mental intensa pode reduzir as chances de demências e até reverter seus efeitos, e todo bom neurologista costuma estimular atividades intelectuais de seus pacientes idosos. Mas o que seria uma atividade intelectual? E como saber se pessoas com baixa atividade intelectual tem pior desempenho cognitivo, ou se estas pessoas têm baixa atividade cognitiva por já terem algum comprometimento cognitivo? Este trabalho é um belo exemplo de como medidas sem grandes custos podem ter alto impacto sobre condições patológicas degenerativas. Eles avaliaram mais de 1000 idosos sem demência por quase 5 anos, quantificaram as atividades mentais que estas pessoas praticavam (incluindo leitura, atividades de gestão, treino em artes, jogos em geral etc.) e seu desempenho cognitivo ao longo do tempo, e perceberam que houve uma correlação moderada (r = 0,44) entre atividades mentais realizadas e desempenho cognitivo no ano seguinte. Este dado reforça uma série de trabalhos que mostram estes mesmos resultados, e embasa nossa antiga orientação: cultura é saúde.

Link: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/22491864

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Pesquisa Translacional em Neurologia: Demência

(“Translational Research in Neurology: Dementia”)

Honig LS

Arch Neurol. 2012 Apr 2. [Epub ahead of print]

Abstract: As demências são caracterizadas por critérios clinicopatológicos. A compreensão molecular destas doenças, baseadas em estudos imunohistoquímicos, investigações bioquímicas, abordagens genéticas e modelos animais, têm resultado em avanço nos diagnósticos. Deste modo, a pesquisa translacional tem nos permitido aplicar nossos conhecimentos científicos básicos em neurodegeneração para um desenvolvimento racional de novas terapias investigacionais baseadas em nosso entendimento atual de patogênese das doenças. Esta revisão aborda a aplicação de pesquisa translacional para diagnóstico e tratamento de síndromes demenciais. O desenvolvimento de biomarcadores tem fornecido métodos de imagem e bioquímicos que ajudam o médico mois do que nunca no diagnóstico de demências neurodegenerativas, especialmente a doença de Alzheimer (DA). Novos critérios diagnóstico para doenças são baseados nestas técnicas moleculares. E estes biomarcadores são de potencial uso no monitoramento de atividade de doença durante estudos terapêuticos. Investigações translacionais também têm levado na direção de novos rumos na investigação direcionada de demência. Ocorre particularmente assim no desenvolvimento e teste de tratamentos modificadores de doença que podem retardar ou deter a deterioração progressiva. Estudos clínicos recentes não têm sido baseados em testes empíricos de drogas já conhecidas, mas sim, preferencialmente, teste de drogas baseadas em bioquímica, cultura de células e modelos animais, para interferirem em elementos conhecidos da cascata patogênica da DA.

Comentário: Mais um artigo de revisão sobre o estado da arte em medicina translacional – que seria a forte interação entre a pesquisa básica e a pesquisa clínica em um determinados assunto, em uma via de mão dupla – focado em demências, mais especificamente em doença de Alzheimer. Faz uma breve revisão de fisiopatogenia e revisa todas as categorias de tratamento existente para DA. Muito indicado para quem deseja se familiarizar aos aspectos moleculares das demências.

Link: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/22473767

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