Atualizações em Cefaleias – Mai/12

Publicado: 11/06/2012 em Cefaleias
Tags:, , ,

Cefaleias primárias unilaterais e contínuas: um modelo nosológico para a hemicrania contínua

(“Primary continuous unilateral headaches: a nosologic model for hemicrania continua”)

Cephalalgia. 2012 Apr;32(5):413-8

Abstract: Introdução: Hemicrania continua foi originalmente descrita como uma dor estritamente unilateral, contínua, com resposta absoluta (total) à indometacina. O reconhecimento de um número crescente de pacientes com as mesmas características clínicas, com exceção da resposta à indometacina tem gerado controvérsia sobre se os fenótipos responsivos/não-responsivos pertencem à mesma desordem. Discussão: Sugerimos que o fenótipo não-responsivo deve ser diferenciado do conceito original de hemicrania continua, porque provavelmente indica um tipo distinto de cefaleia de natureza indeterminada,  hemicrania incerta. No entanto, diferenciando hemicrania incerta de hemicrania continua não implica que as duas dores de cabeça não são relacionados. Ambas as hemicranias podem fazer parte de um continuum, dando origem a um campo mais amplo de diagnóstico. Conclusão: Parece haver uma síndrome de ‘dor de cabeça contínua primária unilateral “com pelo menos duas categorias distintas: hemicrania continua e hemicrania incerta, que são diferenciadas por sua respectiva resposta à indometacina. Esta divisão indica pluralidade, mas acrescenta precisão e permite um diagnóstico claro de alguns casos polêmicos.

Comentário: Artigo interessante ao chamar atenção para os casos de dor contínua, com fenótipo muito semelhante à hemicrania continua, mas que não podem receber este nome pela ausência de resposta à indometacina. Propõe então um grupo maior, cefaleias primárias unilaterais e contínuas, que incluiria a hemicrania continua e a hemicrania incerta. Fica bem claro durante todo o artigo que tal classificação é baseada no quadro clínico, e que isto é muito diferente de uma classificação fisiopatológica, que ainda não é possível. Não há aqui qualquer proposta terapêutica. Gostei da argumentação, muito didática e organizada. Infelizmente, também fica claro o nosso pouco entendimento em alguns tipos de cefaleia.

Link: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/22407660

——————————————————————————————————————————————————————

Atualização na Fisiopatologia e Manejo da Hipertensão Intracraniana Idiopática

(“Update on the pathophysiology and management of idiopathic intracranial hypertension”)

Biousse V, Bruce BB, Newman NJ

J Neurol Neurosurg Psychiatry. 2012 May;83(5):488-94

Abstract: Hipertensão intracraniana idiopática é uma doença de etiologia desconhecida, geralmente afetando mulheres jovens obesas, produzindo uma síndrome de pressão intracraniana aumentada sem causa identificável. Apesar de um grande número de hipóteses e publicações na última década, a etiologia ainda é desconhecida. O metabolismo da vitamina A, o tecido adiposo como um tecido endócrino secretor e anormalidades venosas cerebrais são áreas de estudo ativo sobre a fisiopatologia da hipertensão intracraniana idiopática. Ainda não há consenso baseado em evidências ou orientações formais em matéria de manejo e tratamento da doença. Estudos de tratamento mostram que a punção lombar diagnóstica é uma valiosa intervenção, e que o controle do peso é fundamental. No entanto, permanecem muitas questões em relação à eficácia da acetazolamida, derivações liquóricas e implante de stent seio venoso cerebral transverso.

Comentário: Revisão bastante objetiva com alguns pontos muito positivos: quadros didáticos contendo critérios diagnósticos, achados à RM inespecíficos que podem corroborar com o diagnóstico de hipertensão intracraniana e quadro com os fatores de risco associados a pior prognóstico visual em pacientes com diagnóstico de HII. Revisa ainda os tratamentos disponíveis, com bastante ressalva para o uso do stent em seio transverso, com indicação bastante específica (estenose bilateral ou estenose em um lado e hipoplasia no outro, sintomas refratários e sinais de hipertensão intracraniana e impossibilidade de ser submetido a procedimento cirúrgico ou em quem tal procedimento já se mostrou ineficaz). Pessoalmente, acho fundamental nosso conhecimento e atenção para esta enfermidade, visto que sua prevalência deverá aumentar com o aumento da obesidade na população. Suspeitar do diagnóstico e identificar sua presença certamente impedirá graves conseqüências para os pacientes.

Link: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/22423118

——————————————————————————————————————————————————————

Atualização em Cefaleia Numular

(“Nummular headache update”)

Pareja JA, Montojo T, Alvarez M

Curr Neurol Neurosci Rep. 2012 Apr;12(2):118-24

Abstract: Cefaleia numular é caracterizada por dor de cabeça sentida exclusivamente em uma área arredondada ou elíptica, tipicamente de 1 a 6 cm de diâmetro. A dor permanece confinada à mesma área e esta não se altera em sua  forma ou tamanho com o passar do tempo. A área sintomática pode ser localizada em qualquer parte da cabeça, mas acomete principalmente a região parietal de forma unilateral. Raramente pode ser multifocal. Neste caso, cada área sintomática mantendo todas as características da cefaleia numular. A dor é geralmente leve ou moderada, geralmente descrita como pressão ou facada, podendo durar minutos, horas ou dias, constante e perene, ou intermitente. Sobre a dor de base, pode haver exacerbações espontâneas ou desencadeadas por estímulos mecânicos ou não. Durante e entre os períodos sintomáticos a área afetada pode mostrar combinações variáveis de hipoestesia, disestesia, parestesia, dolorimento e alterações tróficas. Cefaleia numular emerge como uma doença primária, com características claras presentes em topografia singular.

Comentário: A cefaleia numular foi descrita por Pareja et al. em 2002, com um número cada vez maior de casos publicados é possível uma melhor caracterização deste tipo de cefaleia primária. Esta dor encontra-se descrita no apêndice da classificação internacional das cefaléias de 2004 e, no presente artigo de revisão, o autor propõe uma modificação dos critérios diagnósticos, tornando-o mais abrangente quanto à duração e intensidade da dor, mas sem perder sua característica “localizatória” peculiar. Discute possibilidades fisiopatológicas deixando claro que a classificação deste tipo de dor envolve somente a descrição de um fenótipo. Tal descrição permite a separação deste grupo de pacientes com tal dor daqueles portadores de outros tipos de cefaleia no intuito de conseguir um tratamento mais direcionado. Por enquanto as propostas terapêuticas são com o uso da gabapentina, tricíclicos ou toxina botulínica tipo A.

Link: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/22203526

comentários
  1. neuropil disse:

    Dizem que Harry Potter tinha cefaleia numular Valdemort-induzida (Mohen SA, Robbins MS. Headache. 2012 Feb;52(2):323-4). Tá valendo, Beto?

    • Andre disse:

      Cefaléia numular pós magia arcana atribuída a mago das trevas. Vai constar na próxima classificação.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s