Atualizações em Neurologia Cognitiva – Set/12

Publicado: 08/10/2012 em Neurologia Cognitiva
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Uso em longo prazo de extrato padronizado de Ginkgo biloba para prevenção de doença de Alzheimer (GuidAge): um estudo randomizado e placebo controlado

(“Long-term use of standardised ginkgo biloba extract for the prevention of Alzheimer’s disease (GuidAge): a randomised placebo-controlled trial”)

Vellas B, Coley N, Ousset PJ, Berrut G, Dartigues JF, Dubois B, Grandjean H, Pasquier F, Piette F, Robert P, Touchon J, Garnier P, Mathiex-Fortunet H, Andrieu S; for the GuidAge Study Group

Lancet Neurol. 2012 Oct;11(10):851-859

Abstract: Introdução: Estratégias de prevenção são urgentemente necessárias para se controlar o surgimento crescente de doença de Alzheimer (DA). Nós avaliamos a eficácia em longo prazo do uso de extrato padronizado de ginkgo biloba para redução da incidência de DA em idosos com queixa de memória. Métodos: No estudo clínico GuidAge randomizado, duplo-cego e placebo-controlado, nós incluímos adultos com mais de 70 anos ou mais velhos que tinham queixas de memória espontâneas ao seu médico generalista na França. Nós ordenamos os participantes randomicamente na proporção 1:1 para uso de extrato padronizado de ginkgo biloba (EGb761) 120 mg duas vezes ao dia ou placebo. Os participantes e os investigadores do estudo foram mascarados para as avaliações dos grupos. Os participantes foram seguidos por 5 anos por médicos generalistas e em centros terciários de distúrbios de memória. O desfecho primário foi a conversão para DA provável nos participantes que receberam pelo menos uma dose da droga do estudo ou placebo, comparado pelo uso do teste log-rank. Achados: Entre março de 2002 e novembro de 2004, nós incluímos randomicamente 2854 participantes, dos quais 1406 receberam pelo menos uma dose de EGb761 e 1414 receberam pelo menos uma dose de placebo. Após 5 anos, 61 indivíduos do grupo ginkgo tiveram o diagnóstico de DA provável (incidência de 1,2 casos por 100.000 pessoas/ano) comparados com 73 indivíduos no grupo placebo (incidência de 1,4 casos por 100.000 pessoas/ano; hazard ratio [HR] 0,84, C95% 0,6-1,18; p=0,306), mas este risco não foi proporcional ao longo do tempo. A incidência de efeitos adversos foi a mesma entre os grupos. 76 participantes no grupo ginkgo morreram, em comparação com 82 indivíduos no grupo placebo (HR 0,94; 0,69-1,28. p=0,68). 65 indivíduos no grupo ginkgo tiveram AVC comparados com 60 participantes do grupo placebo (RR 1,12, IC95% 0,77-1,63; p=0,57). A incidência de eventos cardiovasculares e hemorrágicos não diferiu entre os grupos. Interpretação: O uso em longo prazo de ginkgo biloba neste estudo não reduziu o risco da progressão para doença de Alzheimer comparado com placebo.

Comentário: Este estudo vem para tentar definir definitivamente qual o papel do uso de ginkgo biloba, um extrato herbal chinês com grande popularidade pelo mundo por suas múltiplas habilidades curativas e protetoras, na proteção contra o surgimento de DA em uma população de idosos com queixa de memória. Sem grandes surpresas, o estudo mostra que não há nenhum efeito protetor com uso de ginkgo biloba para se evitar DA (curiosamente, os autores perceberam um possível efeito após 5 anos de uso, mas estes dados não são muito confiáveis, em minha opinião). Além disso, ginkgo biloba não protegeu para nenhum outro evento neurológico. Logo, resumo os resultados de maneira prática e clara: caros neuropolaqueiros, por favor, não prescrevam ginkgo biloba para seus pacientes. Além de contribuir para a polifarmácia, é dinheiro que estas pessoas estão perdendo.

Link: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/22959217

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Delirium é um forte fator de risco para demência em pessoas muito idosas: um estudo de coorte baseado em população

(“Delirium is a strong risk factor for dementia in the oldest-old: a population-based cohort study”)

Davis DH, Muniz Terrera G, Keage H, Rahkonen T, Oinas M, Matthews FE, Cunningham C, Polvikoski T, Sulkava R, Maclullich AM, Brayne C

Brain. 2012 Sep;135(Pt 9):2809-16

Abstract: Estudos recentes sugerem que delirium está associado com risco de demência e também de aceleração do declínio em demência já existente. Entretanto, estudos anteriores podem ter sido enviesados por avaliações incompletas do estado cognitivo no baseline. Neste estudo, nós usamos uma verdadeira amostra populacional para determinar se delirium é um fator de risco para demência incidente e declínio cognitivo. Nós também examinamos o efeito do delirium no nível patológico por associações entre demência e marcadores neuropatológicos de demência nos pacientes com e sem história de delirium. O estudo Vantaa 85+ examinou 553 indivíduos (92% elegíveis) com idade >= 85 anos no baseline, 3, 5, 8 e 10 anos. Necropsia encefálica foi feita em 52%. Modelos de regressão foram usados para avaliar associações entre (i) delirium e demência incidente [nova] e (ii) declínio no MEEM no grupo inteiro. A relação entre demência e marcadores neuropatológicos (tipo Alzheimer, infartos e corpos de Lewy) foi modelada e estratificada pela história de delirium. Delirium aumentou o risco de demência incidente (OD 8,7; IC95% 1,5-6,3). Delirium foi também associado com piora na gravidade da demência (OR 3,1; IC95% 1,5-6,3) assim como a deterioração no escore de função global (OR 2,8; IC95% 1,4-5,5). Na população total do estudo, delirium esteve associado com perda de 1 ou mais pontos no MEEM por ano (IC95% 0,11-1,89) que naqueles sem história de delirium. Em indivíduos com demência e sem história de delirium (n=232), todos achados patológicos foram significativamente associados com demência. Entretanto, em indivíduos com delirium e demência (n=58), não houve relação entre demência e estes marcadores. Por exemplo, estágios de Braak mais altos foram associados com demência quando não havia história de delirium (OR 2,0; IC95% 1,1-3,5), p=0,02), mas naqueles com história de delirium, não houve relação significativa (OR 1,2; IC95% 0,2-6,7; p=0,85). Esta tendência de OR estar próxima do 1,0 no grupo delirium e demência foi observada para placa neurítica, status de ApoE, presença de infartos, sinucleinopatia e perda neuronal na substância negra. Estes achados são os primeiros a demonstrar, em um verdadeiro estudo de população, que delirium é um fator de risco forte para demência incidente e declínio cognitivo em idosos muito velhos. Entretanto, neste estudo, a relação não parece ser mediada por achados neuropatológicos clássicos associados à demência.

Comentário: Cada vez mais vemos o surgimento de demência em indivíduos idosos após quadros de delirium ou sepse. Vários estudos apontam para esta associação, porém um estudo bem desenhado e feito na população estava faltando. Este belíssimo estudo, extremamente difícil de ser realizado, publicado na prestigiada revista Brain, mostra de modo definitivo e elegante que o evento “delirium” está associado com um forte risco posterior de o indivíduo desenvolver demência nos primeiros 3 anos após, se idade >= 85 anos. Uma coisa interessante: os indivíduos que tiveram delirium e demência não apresentaram achados neuropatológicos das demências típicas. Isso nos leva a crer que, nestes indivíduos do estudo, a perda funcional que leva estes indivíduos à síndrome demencial não é necessariamente por causas clássicas de demência, como Alzheimer, demência vascular e doença por corpos de Lewy, mas sim por alterações de função neuronal.

Link: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/22879644

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Impacto do delirium no curso da doença de Alzheimer

(“Impact of Delirium on the Course of Alzheimer Disease”)

Weiner MF

Arch Neurol. 2012 Sep 17:1-2

Abstract: Não há.

Comentário: Na mesma linha do artigo anterior, este artigo editorial aborda os resultados de um artigo recente (Gross et al. Delirium and long-term cognitive trajectory among persons with dementia. Arch Intern Med 2012; 172(17):1324-1331) que mostrou o alto risco de piora da demência após episódio de delirium em indivíduos com DA hospitalizados, e que medidas de anti-delirium poderiam prevenir estes declínios na população com Alzheimer. Comenta sobre alguns artigos que estudaram possíveis medidas que preveniriam delirium (como assistência na orientação tempo-espaço, ajustes em deficiências auditivas e visuais, atenção especial à nutrição, hidratação, sono e manutenção da mobilidade), tendo resultados controversos. Porém, é certo que mais estudos sobre o efeito destas medidas de assistência geriátrica devem ser feitos para estudar este assunto. E, a meu ver, mesmo antes de resultados mais impactantes, os neurologistas e médicos em geral já devem promover estes cuidados especiais aos idosos com demência que são hospitalizados.

Link: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/22986451

 

comentários
  1. Miriam Herscovici Martines disse:

    Ol!Muito bom esse estudo e as concluses.Gostaria de saber o efeito do ginko biloba sobre a labirintite.Obrigada!Miriam

    Date: Mon, 8 Oct 2012 03:24:44 +0000 To: miriam.herscovici@hotmail.com

    • neuropil disse:

      Olá Miriam, fico feliz que você tenha gostado dos resumos. As síndromes vestibulares periféricas, como as labirintopatias, não são doenças específicas da Neurologia (melhor investigadas pela Otorrinolaringologia), então minha informação pode não ser a mais acurada. Contudo, tanto na minha prática clínica quanto no resultado de uma rápida pesquisa no PubMed, não temos boas evidências de que Ginkgo biloba seja tão útil nas labirintopatias quanto as medicações usuais. Há um estudo de 2004, feito pelo conceituado Instituto Cochrane sobre eficácia de Ginkgo no tinnitus (zumbido) (http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/15106224), e o resultado foi negativo.

  2. Saul disse:

    Grande bruno! Muito interessante o artigo, tentei lê-lo na integra, mas não consegui. O que eles queriam dizer com “pelo menos uma dose” de gingko biloba X placebo? Dose diária? ou alguns dos pacientes sairam do estudo?
    Parabéns pela força na manutenção do Blog

    • neuropil disse:

      Salve Saul! Bem, acho que eles quiseram dizer que as pessoas usaram as drogas de seus respectivos grupos, mesmo que pelo menos uma vez apenas no período do estudo (eu não comentei, mas acho que este trabalho poderia ter feito alguma mensuração mais apurada sobre aderência ao tratamento. Afinal, deixar pessoas com queixa de memória supostamente usando uma medicação por um período tão longo, sem checar se estão usando de fato, parece-me um erro). Quanto ao dropout, eles analisaram apenas aqueles que chegaram no fim do estudo, mas comparavam os resultados dos grupos após cada ano de uso.

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