Atualizações em Distúrbios de Movimento – Set/12

Publicado: 12/10/2012 em Distúrbios de Movimento
Tags:, , , ,

Espasticidade: patofisiologia, avaliação e manejo

(“Spasticity: pathophysiology, evaluation and management”)

Kheder ANair KP

Pract Neurol. 2012 Oct;12(5):289-98

Abstract: A espasticidade é comum em muitas doenças neurológicas, como AVC e esclerose múltipla. Faz parte da síndrome do neurônio motor superior, manifestando-se com aumento do tônus muscular, clonus, espasmos, distonia espástica e co-contrações. O impacto da espasticidade varia desde um sinal neurológico sutil a espasticidade severa, causando dor e contratura. A espasticidade já existente pode ser piorada por fatores externos como constipação, infecções do trato urinário ou úlceras de pressão. Seu manejo envolve identificação e eliminação de gatilhos; neurofisiologia; medicações orais como baclofeno, tizanidina e dantrolene; injeção focal de toxina botulínica, álcool ou fenol, ou bomba intratecal de baclofeno; e ressecção cirúrgica de raízes dorsal selecionadas da medula espinhal. Este artigo revisa a compreensão atual de patofisiologia, dos aspectos clínicos e do manejo da espasticidade.

Comentário: É sempre um prazer ler artigos como este, principalmente quando se trata de um tema extremamente prático como a espasticidade, que todos neurologistas (e fisiatras também) obrigatoriamente devem conhecer para seu manejo, mesmo que não sejam aplicadores de toxina botulínica, escrito em uma revista com um perfil bem pragmático (Practical Neurology). Os autores abordam a espasticidade como se fosse uma síndrome a parte da síndrome do neurônio motor superior, que engloba aspectos particulares como espasmos, clonus e a distonia espástica (as alterações fixas dos músculos, que costumamos denominar de “espasticidade” em si), além de comentar sobre as alterações tróficas viscoelásticas que acometem os membros nas fases tardias do quadro e dificultam a eficácia dos tratamentos. Além disso, revisa sobre algumas pistas clínicas para diferenciar a espasticidade de outras formas de aumento de tônus muscular. Contudo, a parte mais importante é a ampla abordagem de todos os tratamentos usados, desde os não-farmacológicos (como a fisioterapia motora de movimentos passivos e exercícios ativos) aos medicamentosos – neste âmbito, os autores reforçam a importância das medicações orais, como baclofeno (a principal droga), benzodiazepínicos, dantrolene, tizanidina (a segunda melhor droga, em minha opinião). Eles insistem que estas medicações devem ser usadas até suas doses máximas e por longo prazo, e caso o paciente não tolere doses maiores, sugerem a associação entre 2 drogas (eu considero a associação entre baclofeno e tizanidina como melhor opção, por terem mecanismos de ação distintos). Também comenta sobre os tratamentos invasivos de modo geral, como toxina botulínica, desnervação por fenol, bomba de infusão intratecal de baclofeno e rizotomias. Do fundo do coração, se você tiver que ler um artigo completo apenas de todos os que eu coloquei no JEAN, recomendo fortemente que leia este.

Link: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/22976059

——————————————————————————————————————————————————————

Tratamento cirúrgico para distonia secundária

(“Surgical treatment for secondary dystonia”)

Tierney TSLozano AM

Mov Disord. 2012 Oct 4

Abstract: O tratamento cirúrgico para distonias secundárias é geralmente concebido como menos eficaz do que para distonias primárias. Entretanto, vários relatos de casos e pequenas séries abertas recentemente tem surgido, descrevendo desfechos favoráveis após cirurgia para algumas distonias não-primárias. Nós discutimos as opções de tratamento cirúrgico para este grupo de condições diversas, incluindo distonia tardia, paralisia cerebral distônica e certas doenças heredodegenerativas, em que a estimulação cerebral profunda (DBS) e lesões ablativas do pálido posteroventral têm mostrado serem efetivas. Outros tipos de distonia secundária respondem menos à cirurgia palidal, particularmente quando lesões anatômicas dos núcleos da base são proeminentes nas imagens pré-operatórias. Para estas condições, a aplicação central de baclofeno e a desnervação por toxina botulínica podem ser consideradas. Com a otimização dos cuidados médicos e cirúrgicos, alguns pacientes com distonia secundária têm adquirido redução na incapacidade funcional e dor, assemelhando-se a documentada na distonia primária.

Comentário: Atualmente, temos poucas opções de tratamento eficaz para as distonias em geral, e para as distonias secundárias (conceituadas pelos autores do artigo como as formas classicamente secundárias, as distonias-plus e as heredodegenerativas), os resultados são ainda menos animadores. Este artigo revisa estudos onde se avaliou a eficácia de tratamentos invasivos para esta categoria de distonias. Em resumo, percebe-se que um grupo específico de doenças, como distonia tardias, paralisia cerebral distônica, a neurodegeneração associada à pantotenato-kinase (PKAN, a forma mais comum de neurodegeneração associada ao ferro) e a DYT3, uma forma de distonia com parkinsonismo ligada ao cromossomo X (Lubag) tem uma boa eficácia tanto na colocação de DBS bilateral em pálido interno, principalmente a PKAN em fases precoces. Entretanto, outras distonias, como as provocadas por lesões no estriado (de natureza vascular ou desmielinizante) não apresentam melhoras após DBS ou lesões ablativas, e nestes casos refratários ao tratamento cirúrgico, podemos utilizar a infusão central de baclofeno (particularmente eficaz para espasticidade) e a toxina botulínica.

Link: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/23037556

——————————————————————————————————————————————————————

Novo algoritmo para o diagnóstico das distonias hereditárias

(“New algorithm for the diagnosis  of hereditary dystonias”)

Camargos SCardoso F

Arq Neuropsiquiatr. 2012 Sep;70(9):715-7

Abstract: Levando em consideração o interesse crescente no campo da genética das distonias, organizou-se um algoritmo rápido e didático com a finalidade de auxiliar no diagnóstico das principais formas de distonia hereditária. O ramo principal desse algoritmo é a própria classificação da distonia: primária, paroxística ou plus. As características específicas de cada síndrome podem sugerir o diagnóstico.

Comentário: Publicado pela pessoa que, em minha opinião, é a maior autoridade brasileira em genética de distúrbios de movimento (Profa. Sarah Camargos), além do lendário Prof. Francisco Cardoso, ambos da UFMG, esta revisão tem como objetivo tentar sistematizar o raciocínio para investigação de distonias primárias. Sabe-se atualmente que existem mais de 20 tipos descritos de distonias de causa genética, e conduzir este processo de pesquisa é certamente árduo e apenas possível em centros especializados, já que a pesquisa de cada uma destas mutações é muito custosa. O melhor deste artigo é a figura do algoritmo, onde por algumas manifestações clínicas específicas, orienta-se a pesquisa de determinadas mutações, ordenadamente. Imperdível para os especialistas em distúrbios de movimento, e no caso de não se poder gravar todos os passos, serve ao menos para colar a figura na parede do ambulatório. Artigo de acesso gratuito.

Link: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0004-282X2012000900013&lng=en&nrm=iso&tlng=en

 

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s