Atualizações em Distúrbios de Movimento – Out/12

Publicado: 06/11/2012 em Distúrbios de Movimento
Tags:, , , , ,

Seis meses de retirada de neurolépticos são suficientes para se distinguir parkinsonismo medicamentoso de doença de Parkinson?

(“Is 6 months of neuroleptic withdrawal sufficient to distinguish drug-induced parkinsonism from Parkinson’s disease?”)

Lim T, Ahmed A, Itin I, Gostkowski M, Rudolph J, Cooper S, Fernandez H

Int J Neurosci. 2012 Oct 19

Abstract: Introdução: O parkinsonismo medicamentoso (PMed) é a segunda causa mais comum de síndrome rígido-acinética no mundo ocidental. Diferenciar PMed de doença de Parkinson (DP) pode ser um desafio para os clínicos. Um dos fatores que distinguem PMed de DP é que a retirada do agente neuroléptico no PMed reduziria os sintomas do parkinsonismo. A maioria da literatura usa o parâmetro de 6 meses entre a retirada do neuroléptico e a resolução dos sintomas de parkinsonismo. Métodos: Nós relatamos 2 casos de PMed, onde os sintomas de parkinsonismo persistiram mais que 6 meses desde a retirada do agente bloqueador do receptor de dopamina (ABRD) e os resultados de seus SPECTs para DaT. A imagem do DaT é um radiofármaco recente aprovado nos EUA, indicado para visualização do transportador de dopamina estriatal para ajudar na avaliação de pacientes com síndromes parkinsonianos suspeitos. Resultados: O primeiro caso é de um paciente que desenvolveu parkinsonismo por risperidona, enquanto que o segundo caso desenvolveu parkinsonismo por metoclorpramida. Em ambos os casos, o parkinsonismo persistiu 6 meses após a descontinuação do ABRD, portanto a imagem de DaT foi obtida, mostrando captação dopaminérgica estriatal normal. Nove meses após retirada do ABRD, o parkinsonismo foi significativamente melhorado em ambos pacientes, mas não completamente resolvido. Conclusão: Nossos 2 casos ilustram a possibilidade de parkinsonismo persistente além de 6 a 9 meses desde a retirada do neuroléptico, sem evidências de perda neuronal dopaminérgica pré-sináptica que pudesse ser sugestiva de conversão em DP. Nós recomendamos que a recomendação oficial de tempo mínimo para retirada de neuroléptico seja modificada para, pelo menos, 1 ano antes de se considerar o diagnóstico de conversão de DP nos pacientes com exposição à ABRD.

Comentário: A diferenciação clínica entre doença de Parkinson em um paciente que usa uma medicação que pode causar parkinsonismo e um autêntico caso de parkinsonismo medicamentoso, é muito difícil, pela escassez de biomarcadores para ajudar nesta avaliação, e isso dificulta nossa decisão em otimizar a levodopaterapia para doses bem mais altas. Mesmo se tratando de dois casos, eles são muito ilustrativos para mostrar que devemos esperar mais tempo entre a retirada do neuroléptico e a total melhora do parkinsonismo para sugerirmos uma possível conversão em DP. Estes casos parecem ser uma boa indicação clínica para uso de SPECT DaT. Infelizmente, temos pouquíssimos lugares no Brasil que oferecem esta técnica de medicina nuclear.

Link: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/23078283

——————————————————————————————————————————————————————

Deep-Brain Stimulation para doença de Parkinson

(“Deep-brain stimulation for Parkinson’s disease”)

Okun MS

N Engl J Med. 2012 Oct 18;367(16):1529-38

Abstract: Não há.

Comentário: Ótima revisão sobre DBS na DP feita por uma das grandes autoridades mundiais sobre o tema, Prof. Michael Okun, que inclusive esteve no último Encontro Brasileiro de Distúrbios de Movimento palestrando a respeito de DBS. O artigo aborda desde as bases fisiológicas do método, de maneira sucinta, revisando as indicações clínicas da estimulação, os estudos clínicos que fizeram do DBS um método de eficácia cada vez mais consolidada, além das lacunas de conhecimento ainda existentes. Assim como a literatura corrente, não se posiciona sobre um alvo específico (núcleo subtalâmico ou globo pálido interno), mas comenta sobre a possível vantagem do GPi no quesito desfecho cognitivo. Além de ter ótimas e didáticas ilustrações, o texto é ideal para quem deseja se informar melhor sobre o estado da arte nesta terapia. Artigo padrão New England Journal of Medicine.

Link: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/23075179

——————————————————————————————————————————————————————

Distúrbios de Movimento Faciais Psicogênicos: Aspectos Clínicos e Condições Associadas

(“Psychogenic facial movement disorders: Clinical features and associated conditions”)

Fasano A, Valadas A, Bhatia KP, Prashanth LK, Lang AE, Munhoz RP, Morgante F, Tarsy D, Duker AP, Girlanda P, Bentivoglio AR, Espay AJ

Mov Disord. 2012 Oct;27(12):1544-51

Abstract: O fenótipo facial dos distúrbios de movimento psicogênicos (DMP) não foi caracterizado completamente. Sete centros terciários de distúrbios de movimento, usando uma base de dados padronizada digitalizada, realizaram uma revisão retrospectiva de DMP envolvendo a face. Os pacientes com formas orgânicas de distonia facial ou transtornos médicos ou neurológicos que sabidamente afetam a musculatura facial foram excluídos. Sessenta e um pacientes preencheram os critérios de inclusão para DMP facial (91,8% mulheres; idade 37±.11,3 anos). Espasmos musculares fásicos ou tônicos simulando distonia foram documentados em todos pacientes mais comumente envolveram os lábios (60,7%), seguidos das pálpebras (50,8%), região perinasal (16,4%), e região frontal (8,8%). O padrão mais comum consistiu em protusão de um lado do lábio inferior, tônica, sustentada, lateral e/ou para baixo, com desvio da mandíbula ipsilateral (84,3%). Blefarospasmo ipsi- ou contralateral e contração excessiva do platisma ocorreram isoladamente ou combinados com distonia fixa de lábio (60,7%). Os espasmos foram descritos como dolorosos em 24,6% dos casos. O início dos sintomas foi abrupto na maioria dos casos (80,3%), com pelo menos 1 estresse psicológico precipitante ou trauma identificado em 57,4%. Regiões corporais associadas envolvidas incluíram membros superiores (29,5%), pescoço (16,4%), membros inferiores (16,4%) e tronco (4,9%). Houve flutuações na gravidade e nas exacerbações e remissões espontâneas (60%). Comorbidades prevalentes incluíram depressão (38%) e cefaleia do tipo tensional (26,4%). Desvio fixo de lábio e/ou mandíbula é um padrão característico dos DMP faciais, ocorrendo isolados oiu em combinação com outros DMP ou outros aspectos psicogênicos.

Comentário: Em Neurologia, os distúrbios psicogênicos são reconhecidamente uma incômoda pedra no sapato dos clínicos, e em distúrbios de movimento, pelo caráter incomum da maioria dos padrões motores gerados, esta distinção se torna mais difícil ainda. Surpreendentemente, ainda não havia na literatura uma série de casos de DMP específicos para o segmento cranial, e este trabalho recebe o mérito de ser o primeiro a buscar o padrão fenotípico mais comum destes distúrbios, quando de natureza psicogênica. Mesmo sendo um trabalho retrospectivo, os autores conseguem extrair um padrão mais prevalente nos indivíduos com espasmos faciais psicogênicos:

1) Contração facial unilateral, especialmente no lábio inferior, com ou sem envolvimento da mandíbula ipsilateral;

2) Aspectos inconsistentes, como mudança nos lados e nos padrões entre os exames;

3) Somatizações associadas ou achados sensitivos ou motores sem sentido topográfico;

4) Redução ou abolição do espasmo facial com distração;

5) Resposta à sugestão ou psicoterapia;

6) Início súbito e/ou remissões espontâneas;

7) Exame neurológico normal;

Além disso, foi visto que estes pacientes são geralmente do sexo feminino, queixam-se de dor no local (algo raro nos distúrbios orgânicos), há uma maior taxa de espasmos em platisma, não apresentam o “outro” sinal de Babinski, típico do espasmo hemifacial (elevação do músculo frontal simultânea com contração do orbicular dos olhos ipsilateral) e, pelo contrário, pode haver elevação do frontal contralateral junto com o fechamento da pálpebra. Apenas lembrando: estes pacientes não costumam ter melhoras com os tratamentos convencionais, como toxina botulínica. Além de ter boas fotos, o artigo tem 2 videos muito bons mostrando 2 casos de DMP facial. Obrigatório para os especialistas da área.

Link: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/23033125

 

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s