Atualizações em Distúrbios de Movimento – Dez/12

Publicado: 07/01/2013 em Distúrbios de Movimento
Tags:, , , ,

Distúrbios de Movimento: Compreensão melhorada da doença precoce

(“Movement disorders: improved understanding of early disease”)

Schneider SA, Obeso JA

Lancet Neurol. 2013 Jan;12(1):10-2

Abstract: Não há.

Comentário: Continuando a “Retrospectiva Neurológica 2012”, Schneider e Obeso comentam sobre os principais achados em Dist Mov, em um ano pouco frutífero, na minha humilde opinião. Eles ressaltam o principal assunto em voga nesta área: biomarcadores nas fases pré-clínicas das doenças, principalmente na doença de Parkinson (DP). Ressaltam o estudo de Shannon e colaboradores, com visualização de alfa-sinucleína em biópsias de cólon de indivíduos em risco de ter DP, antes mesmo do diagnóstico da doença (http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/22550057), em uma abordagem mais prática e reprodutível do que a feita pelo grupo de francês de Lebouvier. Agora, a descoberta mais interessante do ano em minha opinião, é a comprovação de que há indução transsináptica de acúmulo de alfa-sinucleína, em uma propagação príon-like, o que foi feito através de injeção de alfa-sinucleína alterada no estriado de roedores, com resultante surgimento de inclusões tipo corpos de Lewy nos neurônios dopaminérgicos da susbtância negra, por transmissão axonal retrógrada, provocando também degeneração da via nigroestriatal e déficits motores (http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/23161999). Estes achados comprovam que a proteína modificada tem um potencial “infectivo” sobre a rede neural associada com o neurônio doente, embasando o que Braak e Del Tredici vêm hipotetizando desde 2001, em seu artigo seminal sobre a hipótese da disseminação caudorostral da alfa-sinucleína na DP. O artigo também relembra de algumas iniciativas interessantes envolvendo declínio cognitivo na DP e sobre diagnóstico pré-clínico em doença de Huntington. Sem trials importantes com medicações, o ano deu lugar aos estudos de intervenções físicas na DP, como exercícios de fortalecimento no membro afetado pela doença, treinos de agilidade sensorimotora, sessões de dança de tango e de tai chi, como adjuvantes para melhora principalmente de estabilidade postural e redução de quedas (http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/21959675; http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/22316445)

Link: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/23237891

——————————————————————————————————————————————————————

Recomendações da EFNS/MDS-ES para o diagnóstico da doença de Parkinson

(“EFNS/MDS-ES recommendations for the diagnosis of Parkinson’s disease”)

Berardelli A, Wenning GK, Antonini A, Berg D, Bloem BR, Bonifati V, Brooks D, Burn DJ, Colosimo C, Fanciulli A, Ferreira J, Gasser T, Grandas F, Kanovsky P, Kostic V, Kulisevsky J, Oertel W, Poewe W, Reese JP, Relja M, Ruzicka E, Schrag A, Seppi K, Taba P, Vidailhet M

Eur J Neurol. 2013 Jan;20(1):16-34

Abstract: Introdução: Uma Força Tarefa foi designada por pesquisadores da European Federation of Neurological Societies (EFS) e pela seção europeia da Movement Disorders Society (MDS-ES) em DP e outros distúrbios de movimento, para revisar sistematicamente as publicações relevantes sobre o diagnóstico de DP. Métodos: Seguindo as instruções da EFNS para preparação de guidelines diagnósticos neurológicos, níveis de recomendação foram criados para critérios diagnósticos e de investigação. Resultados: Para diagnóstico clínico, nós recomendamos o uso dos critérios do Banco de Cérebros Queen Quare (Nível B). Exames genéticos para mutações específicas são recomendados para indivíduos (Nível B), levando em conta aspectos específicos (história familiar e início de surgimento da doença). Nós recomendamos o teste de olfato para se diferenciar DP de outras síndromes parkinsonianas, incluindo formas recessivas (Nível A). O rastreio para DP pré-motora com teste de olfato requer testes adicionais devido sua especificidade limitada. As provas terapêuticas com drogas não são recomendadas para o diagnóstico de parkinsonismo de novo. Há evidências insuficientes para se embasar seu papel [provas terapêuticas com drogas] no diagnóstico diferencial entre DP e outras síndromes parkinsonianas. Nós recomendamos uma avaliação cognitiva e rastreio para distúrbio comportamental do sono REM (DCREM), manifestações psicóticas e depressão grave na avaliação inicial de casos suspeitos de DP (Nível A). Ultrassom transcraniano é recomendado para a diferenciação entre DP e distúrbios parkinsonianos atípicos e secundários (Nível A), para o diagnóstico precoce de DP e na detecção de indivíduos sob risco de ter DP (Nível A), mesmo que a sua técnica esteja longe de ser usada universalmente e requeira alguma experiência. Como a especificidade do ultrassom transcraniano na DP é limitada, ele deveria ser usado em conjunto com outros testes de rastreio. A ressonância magnética convencional (RMc) com sequências de difusão em 1,5T está recomendada como ferramenta de neuroimagem que pode auxiliar no diagnóstico de atrofia de múltiplos sistemas (AMS) ou paralisia supranuclear progressiva (PSP) versus DP, através da atrofia regional e alteração de sinal, assim como pelos padrões de difusibilidade (Nível A). O SPECT DAT-Scan está aprovado na Europa e nos EUA para o diagnóstico diferencial entre parkinsonismos degenerativos e tremor essencial (Nível A). Mais especificamente, o DAT-Scan está indicado na presença de incerteza diagnótica considerável entre parkinsonismo associado à exposição neuroléptica e manifestações tremorigênicas atípicas, como tremor postural unilateral isolado. Estudos de captação cardíaca de MIBG com SPECT podem ser usados para identificar pcientes com PD versus controles e pacientes com AMS (Nível A). Todas outras modalidades de SPECT não foram aprovadas e não podem ser recomendadas para o uso na prática clínica. Até o momento, não se podem fazer conclusões a respeito da eficácia diagnóstica de testes de função autonômica, testes neurofisiológicos e imagem por PET na DP. Conclusões: O diagnóstico da DP é ainda amplamente baseado na correta identificação de suas características clínicas. Investigações específicas (genética, olfatória e estudos de neuroimagem) tem um papel auxiliar na confirmação do diagnóstico, e alguns deles podem ser usados no futuro próximo para se identificar indivíduos na fase pré-sintomática da doença.

Comentário: Guidelines sempre são úteis, principalmente para os não-especialistas da área. Este mês, uma Força Tarefa das maiores autoridades de Distúrbios do Movimento da Europa (exceto Reino Unido) publicou esta revisão sistemática da literatura sobre diagnóstico de DP. De modo efetivo, não traz surpreendentes novidades, mas tem alguns pontos fortes:

– Sobre testes genéticos, os autores sugerem que só sejam feitos para casos onde a história familiar de parkinsonismo seja muito forte e de padrão mendeliano, ou em casos isolados de início precoce;

– Reforça o teste de olfato (no caso, o UPSIT) principalmente como auxiliar no diagnóstico diferencial entre DP e parkinsonismos-plus, que não cursam com hipo/anosmia. Como diagnóstico pré-motor, há boas evidências, porém precisa de mais dados. Um ponto fundamental neste método é o baixo custo de se fazer o teste de olfato, em comparação com métodos de imagem ou laboratoriais;

– Quanto à neuroimagem, o artigo faz uma bela revisão dos possíveis achados em RM de AMS, PSP e síndrome corticobasal. Há uma tabela com estes sinais que merece ser vista com carinho;

– Na parte de medicina nuclear, o texto é categórico em dizer que ainda não há boas evidências de uso de PET no estudo de DP. Quanto ao SPECT, os autores recomendam seu uso no diagnóstico diferencial entre DP e parkinsonismo medicamentoso ou com tremor essencial.

Link: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/23279440

——————————————————————————————————————————————————————

Resumo das recomendações da revisão da EFNS/MDS-ES sobre manejo terapêutico da doença de Parkinson

(“Summary of the recommendations of the EFNS/MDS-ES review on therapeutic management of Parkinson’s disease”)

Ferreira JJ, Katzenschlager R, Bloem BR, Bonuccelli U, Burn D, Deuschl G, Dietrichs E, Fabbrini G, Friedman A, Kanovsky P, Kostic V, Nieuwboer A, Odin P, Poewe W, Rascol O, Sampaio C, Schüpbach M, Tolosa E, Trenkwalder C, Schapira A, Berardelli A, Oertel WH

Eur J Neurol. 2013 Jan;20(1):5-15

Abstract: Objetivo: Resumir as recomendações de tratamento baseados em evidência em DP da EFNS/MDS-ES 2010. Este resumo inclui as recomendações de tratamento para DP inicial e avançada. Métodos: Para a publicação em 2010, uma busca na literatura foi feita para artigos publicados atpe setembro de 2009. Para este resumo, uma busca adicional foi realizada até dezembro de 2010. A classificação da evidência científica e a pontuação de recomendações foram feitas de acordo com as orientações da EFNS. Em casos onde havia insuficiente evidência científica, o estabelecimento de um consenso (“ponto de boa prática”) foi feito. Resultados e Conclusões: Para cada indicação clínica, uma lista de intervenções terapêuticas está estabelecida, incluindo a classificação da evidência.

Comentário: Feita pela mesma Força Tarefa responsável pelo artigo comentado acima, este é expressamente voltado para o tratamento. Você não precisará ler suas 24 páginas para saber o que deseja: o artigo resume em tabelas muito didáticas sobre o que fazer em cada situação: tratamento da DP nas fases iniciais, fases avançadas (complicações motoras), sintomas cognitivo-comportamentais e sintomas autonômicos e relacionados ao sono. Aposto que você não se arrependerá em usar este artigo para atualizar suas condutas em doença de Parkinson.

Link: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/23279439

 

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s