Memantina em pacientes com degeneração lobar frontotemporal: um estudo multicêntrico, randomizado, duplo-cego e placebo-controlado

(“Memantine in patients with frontotemporal lobar degeneration: a multicentre, randomised, double-blind, placebo-controlled trial”)

Boxer AL, Knopman DS, Kaufer DI, Grossman M, Onyike C, Graf-Radford N, Mendez M, Kerwin D, Lerner A, Wu CK, Koestler M, Shapira J, Sullivan K, Klepac K, Lipowski K, Ullah J, Fields S, Kramer JH, Merrilees J, Neuhaus J, Mesulam MM, Miller BL

Lancet Neurol. 2013 Feb;12(2):149-56

Abstract: A memantina tem sido usada sem aprovação para o tratamento de degeneração lobal frontotemporal (DLFT). Um estudo aberto prévio de 26 semanas sugeriu uma melhora transitória e modesta nos sintomas neuropsiquiátricos medidos pelo inventário neuropsiquiátrico (INP). Nós objetivamos determinar se memantina é um tratamento efetivo para DLFT. Métodos: Nós fizemos um estudo randomizado, paralelo, duplo-cego e placebo-controlado com memantina 20 mg diária oral por 26 semanas em pacientes com DLFT. Os participantes preencheram os critérios de Neary para DLFT variante comportamental (DLFTc) ou demência semântica (DS) e apresentavam atrofia encefálica. O uso de inibidores da acetilcolinesterase foi proibido. Os indivíduos foram randomicamente designados para receber memantina ou placebo (1:1) em blocos de 2 e 4 pacientes. Todos os pacientes e pessoas relacionadas ao estudo estavam cegas para os tratamentos determinados. Os desfechos primários foram a mudança no escore total do INP e no escore de mudança de impressão clínica global (CGIC) após 26 semanas, e foi feita análise intention-to-treat. Dos 100 pacientes selecionados, 81 foram randomizados para receber memantina (39 pacientes) ou placebo (42 pacientes). Cinco (6%) pacientes descontinuaram tratamento, e 76 completaram as 26 semanas. O número de pacientes envolvidos por menor que o planejado, por conta da preferência de muito pacientes por usar memantina ou inibidores de acetilcolinesterase “por conta” do que participar do estudo clínico. O tratamento com memantina não teve efeito tanto no INP (média de diferença 2,2, IC95% -3,9 a 8,3, p=0,47) ou CGIC (média de diferença 0,0) após 26 semanas de tratamento. A memantina foi bem tolerada em geral; contudo, os pacientes no grupo memantina tinham mais sintomas adversos cognitivos (6 pacientes) que os do grupo placebo (um). Interpretação: O tratamento com memantina não mostrou benefício em pacientes com DLFT. Estes dados não apoiam o uso de memantina na DLFT.

Comentário: A DLFT, diferente da doença de Alzheimer, não tem medicações sintomáticas específicas, e os sintomas comportamentais são manejados geralmente com antidepressivos e neurolépticos. Pelo menos até onde minha experiência acompanhou, não é uma conduta frequente no Brasil o uso empírico de memantina na DLFT, mas parece que é uma conduta off-label comum em alguns países. Este estudo mostra que, de fato, não há qualquer benefício no uso de memantina nesta condição, nas formas mais comuns (variante comportamental e demência semântica) da doença. Isso ajuda a reduzir pelo menos uma medicação, que não é barata, da polifarmácia característica dos idosos com demência.

Link: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/23290598

——————————————————————————————————————————————————————

Melhoramento neural do encéfalo em envelhecimento: restaurando a aquisição de habilidades em indivíduos idosos

(“Neuroenhancement of the aging brain: Restoring skill acquisition in old subjects”)

Zimerman M, Nitsch M, Giraux P, Gerloff C, Cohen LG, Hummel FC

Ann Neurol. 2013 Jan;73(1):10-5

Abstract: Objetivo: O declínio das funções cognitivas, incluindo a aquisição prejudicada de novas habilidades, é uma característica de pessoas idosas que impactam em atividades da vida diária, independência e integração nas sociedades modernas. Métodos: Nós testamos se a aquisição de uma habilidade motora complexa pode ser melhorada em indivíduos idosos pela aplicação de estimulação transcraniana com corrente direta (ETCcd) sobre o córtex motor. Resultados: O principal achado foi que os participantes idosos tiveram melhoras substanciais quando ao treino foi aplicado o ETCcd, com efeitos durando pelo menos 24 horas. Interpretação: Estes resultados sugerem que a estimulação cerebral não-invasiva é uma ferramenta promissora e segura para se ajudar, potencialmente, a independência funcional de indivíduos idosos na vida diária.

Comentário: O envelhecimento é um dos temas mais estudados da atualidade. Não sabemos exatamente como e porquê acontece, e temos apenas algumas noções de como o sistema nervoso é afetado por este fenômeno. Mesmo fora do contexto das síndromes demenciais típicas da terceira idade, a senescência também causa redução em várias habilidades cognitivas, que afastam os idosos do cenário produtivo competitivo em que vivemos atualmente, além de prejudicar sua independência funcional no dia-a-dia. A ETCcd é um método relativamente recente, baseado na modulação da neurotransmissão elétrica cortical por um campo magnético gerado por uma corrente direta aplicada próxima ao crânio. Este trabalho mostrou que sessões de treino em uma habilidade motora simples (sequências específicas de teclas digitadas), acopladas ao ETCcd, apresentou um grande e inesperado efeito de melhora na performance e no aprendizado apenas em idosos, não ocorrendo em pessoas adultas jovens. Deve ser ressaltado que se trata de um estudo piloto, com 20 indivíduos, porém os resultados na modificação de desempenho foram tão bons, que certamente outros grupos tentarão replicá-lo e incrementar suas aplicações. Sendo um método que eu, particularmente, vejo com grande interesse, este suposto novo processo de indução de plasticidade sináptica poderá ter futuras aplicações também em pessoas com síndromes demenciais que afetam o neocórtex.

Link: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/23225625

——————————————————————————————————————————————————————

O espectro da doença na encefalopatia traumática crônica

(“The spectrum of disease in chronic traumatic encephalopathy”)

McKee AC, Stein TD, Nowinski CJ, Stern RA, Daneshvar DH, Alvarez VE, Lee HS, Hall G, Wojtowicz SM, Baugh CM, Riley DO, Kubilus CA, Cormier KA, Jacobs MA, Martin BR, Abraham CR, Ikezu T, Reichard RR, Wolozin BL, Budson AE, Goldstein LE, Kowall NW, Cantu RC

Brain. 2013 Jan;136(Pt 1):43-64

Abstract: A encefalopatia traumática crônica (ETC) é uma taupatia crônica que ocorre como consequência de lesões de traumatismos cranioencefálicos (TCE) leves repetidos. Nós analisamos os encéfalos pós-morte obtidos de uma coorte de 85 indivíduos com história de TCE leves repetidos, e foi encontrada evidência de ETC em 68 indivíduos: todos homens, com idades de 17 a 98 anos (média 59,5 anos), incluindo 64 atletas, 21 militares veteranos (86% dos quais eram também atletas) e um indivíduo com comportamento de autoagressão com movimentos repetidos de balançar a cabeça (head banging). Dezoito indivíduos, pareados por idade e sexo, sem história de TCE leve repetido serviram como indivíduos controle. Na ETC, o espectro da patologia de tau hiperfosforilada abrangeu, em gravidade, de epicentros de emaranhados neurofibrilares perivasculares focais no neocórtex frontal a uma grave taupatia afetando várias regiões encefálicas, incluindo o lobo temporal medial, permitindo assim um estadiamento progressivo da patologia, de estágio I a IV. As varicosidades axonais multifocais e perda axonal foram encontradas na profundidade do córtex e na substância branca subcortical em todos estágios da ETC. Inclusões imunorreativas para TDP-43 e seus neuritos foram encontrados em 85% dos casos, englobando de patologia focal nos estágios I a II a inclusões e neuritos espalhados no estágio IV. Os sintomas no estágio I da ETC incluíram cefaleia e perda da atenção e concentração. Os sintomas adicionais do estágio II incluíram depressão, explosividade e perda de memória de curto prazo. No estágio III, disfunção executiva e declínio cognitivo foram vistos, e no estágio IV, demência, dificuldade em se encontrar palavras e agressividade foram característicos. Dados sobre a exposição atlética estiveram disponíveis em 34 jogadores de futebol americano; o estágio da ETC se correlacionou com a duração elevada do período em que jogaram, tempo de sobrevida após aposentadoria e a idade de morte. A ETC foi o diagnóstico único em 43 casos (63%); 8 foram diagnosticados como doença de neurônio motor (12%), 7 como doença de Alzheimer (11%), 11 com doença por corpos de Lewy (16%) e 4 como degeneração lobar frontotemporal (6%). Há uma progressão ordenada e previsível das anormalidades da tau hiperfosforilada no sistema nervoso na ETC que ocorre em conjunto com perda e ruptura axonal ampla. A associação frequente de ETC com outras doenças neurodegenerativas sugere que trauma encefálico repetido e deposição de proteína tau hiperfosforilada promovem o acúmulo de outras proteínas agregadas anormalmente, como a TDP-43, β-amiloide e alfa-sinucleína.

Comentário: A ETC é um fenômeno cada vez mais estudado e reconhecido pela comunidade neurológica. Hoje é sabido claramente se tratar de uma doença bem distinta das outras síndromes demenciais neurodegenerativa, sendo a sua causa TCE repetidos ao longo de vários anos, afetando profissionais com maior exposição a riscos, como atletas de esportes de alto impacto, lutadores de artes marciais e militares. Este importante estudo faz uma correlação entre os achados neuropatológicos e os sintomas clínicos, e os autores propõem um estadiamento de 4 fases, no mesmo modelo de outras doenças neurodegenerativas. Infelizmente, estudos de coorte retrospectiva não são os melhores para uma descrição clínica de doenças, por isso os sintomas de “cefaleia”, “depressão” etc., definidos pelo artigo, parecem tão vagos. O pronto reconhecimento desta entidade pelos neurologistas será fundamental para uma descrição mais minuciosa dos sintomas destes pacientes, fornecendo mais embasamento para diagnóstico, prevenção e tratamento da doença.

Link: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/23208308

 

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s