Atualizações em Neurologia Cognitiva – Mar/13

Publicado: 10/04/2013 em Neurologia Cognitiva
Tags:, , ,

Custos monetários da demência nos Estados Unidos da América

(“Monetary costs of dementia in the United States”)

Hurd MD, Martorell P, Delavande A, Mullen KJ, Langa KM

N Engl J Med. 2013 Apr 4;368(14):1326-34

Abstract: Introdução: A demência afeta um grande e crescente número de adultos idosos nos EUA. Os custos monetários atribuíveis à demência são provavelmente similarmente grandes e continuama a aumentar. Métodos: Em uma subamostra (856 pessoas) da população do Health and Retirement Study (HRS), um estudo nacional longitudinal de idosos, o diagnóstico de demência foi determinado com o uso de uma avaliação cognitiva detalhada realizada em 3 a 4 horas, com uma revisão feita por especialistas. Nós então categorizamos o estudo cognitivo de toda amostra do HRS (10903 pessoas, 31936 pessoas-anos) baseados nas medidas do estado cognitivo e funcional de todos os participantes do HRS, identificando assim pessoas nesta amostra maior com alta probabilidade de demência. Os custos de mercado associados com os cuidados com pessoas com demência foram determinados com base nos gastos autorrelatados [das famílias] e na utilização de serviços de enfermagem; os dados do Medicare foram usados para se identificar os custos pagos pelo Medicare. As horas de cuidados informais (não-remunerados) foram medidos, assim como os custos de cuidados formais remunerados. Resultados: A prevalência estimada de demência entre pessoas com mais de 70 aos nos EUA em 2010 foi de 14,7%. O custo monetário anual por pessoa atribuível à demência foi de $56.290 ou $41.689 [dólares], dependendo do método usado para avaliar os custos informais. Estes custos individuais sugerem que o custo monetário total da demência em 2010 foi entre $157 bilhões e $215 bilhões. O Medicare pagou aproximadamente $11 bilhões deste custo. Conclusões: A demência representa uma carga financeira substancial na sociedade, similar à carga de doenças cardíacas e câncer.

Comentário: Os dados epidemiológicos sobre demência no futuro não são nada bons: as estimativas dizem que a prevalência dobrará ou triplicará até 2050, e que grande parte destas pessoas estará em países em desenvolvimento como o nosso. E quanto a demência custa a um país? Este estudo americano baseado em dados populacionais e em um estudo longitudinal com idosos mostrou valores alarmantes: Primeiro, que os custos informais (como gastos com cuidadores não-remunerados e impactos indiretos na economia) são tão altos quanto os formais (medicações, internações, cuidados remunerados), indicando que força de trabalho é “perdida” e custa muito ao país; segundo, que o valor gasto total estimado é exorbitante (um gasto de 157 bilhões de dólares, por volta de 300 bilhões de reais, algo por volta de um doze avos do PIB brasileiro de 2012); terceiro, os modelos preveem que estes gastos aumentaram vertiginosamente ao longo dos anos, e na década de 2040, estará por volta de 511 bilhões de dólares. Logo, um questionamento é óbvio: nosso frágil sistema de saúde está preparado para isso? Infelizmente, o Brasil não tem fortes políticas de prevenção de saúde, e os fatores de risco para demência mais importantes são quase os mesmos das doenças cardiovasculares. Resta-nos esperar que algo milagroso surja neste período para o tratamento destas doenças, e que o Brasil esteja atento aos novos tempos.

Link: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/23550670

——————————————————————————————————————————————————————

Mudanças na cognição e comportamento na esclerose lateral amiotrófica: natureza do comprometimento e implicações para avaliação

(“Changes in cognition and behaviour in amyotrophic lateral sclerosis: nature of impairment and implications for assessment”)

Goldstein LH, Abrahams S

Lancet Neurol. 2013 Apr;12(4):368-80

Abstract: O aumento da consciência das mudanças cognitivas e comportamentais na esclerose lateral amiotrófica (ELA) foi conduzido por vários estudos baseados em clínicas e em população. A síndrome frontotemporal ocorre em uma proporção substancial de pacientes, um subgrupo do qual se apresenta com demência frontotemporal. As perdas são caracterizadas por alterações de função executiva e memória de trabalho, estendendo-se a mudanças em linguagem e na cognição social. O comportamento e as anormalidades em cognição social estão próximas e similares àquelas descritas na demência frontotemporal variante comportamental, correspondendo a um espectro clínico que liga a ELA e a demência frontotemporal. Os déficits cognitivos devem ser considerados no manejo clínico, mas poucos recursos de avaliação de especialistas estão disponíveis, logo o estado cognitivo da maioria dos pacientes é desconhecido. Os procedimentos padronizados de avaliação não estão apropriados para se detectar as disfunções causadas pela piora física progressiva; técnicas que mensurem melhor os problemas encontrados neste grupo de pacientes são necessárias para se estabelecer os efeitos da doença. São necessários instrumentos de detecção que sejam validados especificamente para ELA, e considerem a heterogeneidade do comprometimento e a incapacidade física.

Comentário: Cada vez mais os neurologistas consideram a ELA como uma doença com sintomas motores e não-motores, à semelhança da doença de Parkinson, e as alterações cognitivas e comportamentais são bem comuns neste espectro de disfunções. Tivemos a oportunidade de publicar um caso bem caracterizado de ELA com DLFT provado neuropatologicamente (https://neuropolaca.wordpress.com/2012/03/12/divulgacao-de-artigo-dos-santos-et-al-2012/). Esta revisão é bem ampla no sentido de discutir aspectos como alterações na função executiva, linguagem, cognição social, teoria da mente e comportamento (com um padrão muito similar ao visto na DLFT variante comportamental), e como melhorar a avaliação ao se considerar as incapacidades motoras.

Link: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/23518330

——————————————————————————————————————————————————————

Neuroimagem em demência: um guia prático

(“Neuroimaging in dementia: a practical guide”)

Mortimer AM, Likeman M, Lewis TT

Pract Neurol. 2013 Apr;13(2):92-103

Abstract: Cerca de 800.000 pessoas no Reino Unido estão demenciadas. Doença de Alzheimer, demência por corpos de Lewy, demência vascular e degeneração lobar frontotemporal são responsáveis pela maioria. Mesmo que a clínica detalhada seja a base da avaliação de pacientes com distúrbios cognitivos, técnicas de imagem estruturais e funcionais estão progressivamente sendo mais usadas. A neuroimagem pode identificar mudanças para suplementar o diagnóstico clínico e ajudar a distinguir os subtipos de demência. Isto pode ser importante para o tratamento, prognóstico e planejamento do manejo. Além disso, mudanças precoces na imagem estrutural e funcional pode ter um papel na detecção pré-clínica, talvez permitindo que pessoas comecem algum tratamento mais cedo. Nesta revisão, nós explicamos as ferramentas disponíveis para o neurorradiologista e examinamos as implicações dos achados de imagem na avaliação de pacientes com comprometimento cognitivo ou demência.

Comentário: Serei bem breve – este é o melhor artigo sobre neuroimagem em Demências que eu já li. Extremamente prático e didático, explica ferramentas mais conhecidas dos neurorradiologistas, como a escala de atrofia temporal medial de Scheltens e a escala de microangiopatia de Fazekas, além de outros detalhes importantes de neuroimagem nesta área. Senti falta apenas de se falar em hidrocefalia de pressão normal. Bibliografia muito boa. Leitura obrigatória!

Link: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/23468560

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s