Atualizações em Neurologia Cognitiva – Abr/13

Publicado: 12/05/2013 em Neurologia Cognitiva
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Hidrocefalia de pressão normal idiopática: Patofisiologia e diagnóstico por biomarcadores do LCR

(“Idiopathic normal-pressure hydrocephalus: Pathophysiology and diagnosis by CSF biomarkers”)

Jeppsson A, Zetterberg H, Blennow K, Wikkelsø C

Neurology. 2013 Apr 9;80(15):1385-92

Abstract: Objetivos: Este estudo observacional almejou explorar a patofisiologia da hidrocefalia de pressão normal (HPN) e avaliar o valor diagnóstico e prognóstico dos biomarcadores do LCR. Métodos: O LCR lombar e ventricular de pacientes com HPN e de indivíduos idosos normais [apenas LCR lombar] antes e 6 meses após o tratamento cirúrgico foi analisado por ELISA. Nós analisamos a proteína leve do neurofilamento (NFL), a proteína básica da mielina (MBP), um painel de isoformas da β-amiloide (Aβ, Aβ40 e Aβ42), isoformas da proteína precursora da amiloide solúvel (sAPP), proteína tau total e fosforilada (t- e p-tau), e marcadores inflamatórios interleucina-8, interleucina-10 e proteína quimioatratora dos monócitos-1. Resultados: A NFL estava elevada e as proteínas derivadas da APP e da tau estavam mais reduzidas nos pacientes com HPN do que nos idosos saudáveis. Após a cirurgia, houve um aumento na NFL, as proteínas derivadas da APP, p-tau e da albumina no LCR ventricular, enquanto que os níveis de MBP e t-tau reduziram. Os pacientes com melhora mostraram um aumento maior das proteínas derivadas da APP no LCR ventricular após o shunt do que naqueles que não melhoraram. Conclusão: Nós interpretamos que nossos dados da fisiopatologia da HPN sejam interpretados por uma redução do metabolismo periventricular e degeneração axonal, porém sem lesão cortical importante.

Comentário: No atual estado da arte, a HPN continua sendo uma condição difícil de ser diagnosticada, principalmente pelo difícil diagnóstico diferencial entre demência vascular na avaliação de neuroimagem, e pela ausência de biomarcadores que auxiliem na detecção dos casos que podem se beneficiar da cirurgia. Este estudo tenta caracterizar um padrão em algumas proteínas presentes no LCR de indivíduos com HPN antes e após a derivação, e compará-los com indivíduos idosos saudáveis. O padrão revelado de elevação de proteína do neurofilamento e redução das proteínas associadas à APP e β-amiloide associado à HPN já é um bom começo para termos um futuro painel de biomarcadores para HPN, porém será necessário comparar estas mesmas liquóricas de pacientes com doença de Alzheimer, degeneração frontotemporal, síndromes parkinsonianas atípicas e, principalmente demência vascular, o principal diagnóstico diferencial da HPN. Além disso, os próximos estudos devem focar em se encontrar os marcadores substitutivos para a eficácia do tratamento cirúrgico.

Link: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/23486875

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Variabilidade do peso corporal na meia-idade e risco de demência na velhice

(“Body weight variability in midlife and risk for dementia in old age”)

Ravona-Springer R, Schnaider-Beeri M, Goldbourt U

Neurology. 2013 Apr 30;80(18):1677-83

Abstract: Objetivo: Analisar a relação entre a variabilidade do peso corporal e demência mais de 3 décadas mais tarde. Métodos: A medida da variabilidade do peso corporal foi baseada em 3 medidas sucessivas de peso retiradas de 10000 homens trabalhadores experientes aparentemente saudáveis participantes do estudo Israel Ischemic Heart Disease , no qual os fatores de risco cardiovasculares e o estado clínico foram avaliados em 1963, 1965 e 1968, quando os indivíduos tinham de 40 a 70 anos. Os grupos de homens foram estratificados de acordo com os quartis de desvio-padrão (DP) de mudanças de peso em 3 medidas (1963/1965/1968): ≤ 1,15 kg, 1,16-1,73 kg, 1,74-2,65 kg e ≥ 2,66 kg. A prevalência de demência foi avaliada mais de 36 anos após em aproximadamente um sexto dos que sobreviveram até 1999/2000 (idade mínima de 76 anos) e que foram submetidos a avaliação cognitiva (n = 1620). Resultados: As taxas de prevalência de demência dos sobreviventes foram de 13,4%, 18,4%, 20,1% e 19,2% do primeiro ao quarto quartil de variações de DP de peso, respectivamente (p = 0,034). Comparado ao primeiro quartil de variabilidade de DP de peso e ajustado para diabetes mellitus, altura e estado socioeconômico, uma análise multivariada demonstrou que a odds ratio foi de 1,42 (IC95 0,95-2,13), 1,59 (IC95 1,05-2,37), 1,74 (IC95 1,14-2,64) nos quartis 2 a 4 de variabilidade de DP de peso respectivamente. Esta relação foi independente da direção da mudança de peso. Conclusão: As variações no peso da meia-idade pode anteceder a demência na fase idosa.

Comentário: Vários estudos já identificaram a obesidade na meia-idade (30 aos 60 anos) como um fator de risco independente para desenvolvimento de demência, porém este estudo mostra resultados mais provocadores: a variação de peso, tanto para mais quanto para menos, por um período de pelo menos 5 anos, entre os 40 aos 70 anos, também é um fator de risco independente para demência na velhice, mesmo após quase 40 anos das mensurações destas variações de peso. As variações do peso não precisam ser muito amplas: variações de mais de 3 kg já teriam os maiores riscos. Particularmente, vejo estes resultados com muito ceticismo por vários motivos, mas principalmente por não explicar porque perdas de peso também provocariam no futuro uma síndrome demencial. Creio que estes dados devam ser melhor explorados em estudos longitudinais.

Link: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/23576627

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Sensibilidade e especificidade dos critérios FTDC para demência frontotemporal variante comportamental

(“Sensitivity and specificity of FTDC criteria for behavioral variant frontotemporal dementia”)

Harris JM, Gall C, Thompson JC, Richardson AM, Neary D, du Plessis D, Pal P, Mann DM, Snowden JS, Jones M

Neurology. 2013 Apr 17

Abstract: Objetivos: Nós objetivamos avaliar a sensibilidade e especificidade dos critérios atualizados para demência frontotemporal variante comportamental (DFTc) baseados em uma coorte de pacientes com demência confirmados por necropsia. Métodos: Duzentos e trinta e nove pacientes com demência confirmada, clinicamente avaliada em uma unidade cognitiva especializada foram identificados. Os pacientes com afasia predominante, distúrbios motores ou informação clínica insuficiente foram excluídos. Os critérios do Consenso de DFT foram aplicados aos dados clínicos em anonimato da avaliação inicial dos pacientes por avaliadores que estavam cegos para diagnóstico clínico e patológico. Resultados: A coorte final do estudo englobou 156 pacientes com demência de início precoce. Os critérios atualizados para DFTc possível têm uma sensibilidade de 95% e especificidade de 82%. Os critérios de DFTc provável têm uma sensibilidade de 85% e especificidade 95%. Os falsos-positivos foram predominantes nos pacientes com doença de Alzheimer pré-senil. Conclusão: Os critérios diagnósticos revisados mostraram encorajantes alta sensibilidade e especificidade quando aplicados a pacientes com demência precoce. Eles fornecem uma ferramenta útil tanto para pesquisadores especialistas quanto para clínicos generalistas. Há a necessidade de mais estudos prospectivos de sensibilidade ee especificidade envolvendo um espectro mais amplo de pacientes com demência.

Comentário: Cada vez mais o diagnóstico de degeneração lobar frontotemporal tem sido auxiliado por métodos complementares, mas a evolução dos critérios clínicos é essencial para que mais casos sejam descobertos. Este artigo estudou a validade dos critérios propostos pelo consenso de DLFT publicados na Brain em 2011 (http://brain.oxfordjournals.org/content/134/9/2456.full.pdf+html) e mostrou ótimos valores de sensibilidade e especificidade, permitindo seu uso já na prática diária. Eu recomendo a leitura e utilização destes critérios.

Link: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/23596080

 

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