Atualizações em Neuroimunologia – Jun/13

Publicado: 05/07/2013 em Neuroimunologia
Tags:, , ,

Eventos moleculares doença-específicos em lesões corticais em Esclerose Múltipla

(“Disease-specific molecular events in cortical multiple sclerosis lesions”)

Fischer MTWimmer IHöftberger RGerlach SHaider LZrzavy THametner SMahad DBinder CJKrumbholz MBauer JBradl M,Lassmann H

Brain. 2013 Jun;136(Pt 6):1799-815

Abstract: As lesões corticais são um importante fator na patologia da Esclerose Múltipla (EM). Apesar da inflamação aparentar ter papel na formação de lesões na EM, os mecanismos que levam a desmielinização e neurodegeneração ainda são pouco compreendidos. O objetivo deste trabalho é identificar alguns desses mecanismos através da combinação de estudos de expressão genética e de análise neuropatológica. Nesse estudo, mostramos que  a combinação de inflamação, desmielinização primária em placas e neurodegeneração cortical é específica para a EM e não são vistos em outras doenças inflamatórias crônicas mediadas por células T CD8 (encefalite de Rasmussen), células  B ( linfoma de células B) ou inflamação crônica complexa (meningite tuberculosa, meningite luética ou meningite purulenta crônica). Além, nós realizamos análise de microarray “genome-wide” comparando lesões corticais ativas de EM  micro-dissecadas com lesões de meningite tuberculosa (controle inflamatório), doença de Alzheimer (controle neurodegenerativo) e em secções corticais de controles pareados por idade. Mais de 80% dos genes identificados como específicos para EM estão relacionados a inflamação mediada por células T, ativação da micróglia, dano celular oxidativo, lesão e reparo de DNA,  remielinização e regeneração. Finalmente,  confirmamos por imunohistoquímica que dano oxidativo em lesões corticais em EM são associados a lesão de oligodendrócitos e de neurônios, sendo que esse último tipo de dano também afeta axônios e dendritos. Nosso estudo provê novas idéias no complexo mecanismo de neurodegeneração e regeneração cortical em pacientes com EM.

Comentário: Excelente artigo que pretende identificar características próprias da EM, comparando lesões corticais de EM com outras doenças neurológicas (Encefalite de Rasmussen, Linfoma de células B, meningites crônicas, doença de Alzheimer), através de análise patológica e genômica dessas mesmas lesões.  Artigos como esse são importantes para o entendimento da patofisiologia da EM, principalmente em questões se EM deve ser considerada uma doença primariamente inflamatória com componente degenerativo ou uma doença neurodegenerativa com componente inflamatório. Ou se ela é uma doença primariamente da substância branca ou se a desmielinização é secundária. Todas as lesões estudadas foram frutos de autopsia. As lesões de EM eram ativas de pacientes  com EM (21) nas formas aguda (6), recorrente-remitente (1), secundariamente progressiva (7) e primariamente progressiva (7). Os controles usados foram de pacientes com meningite crônica (tuberculosa -4, luética – 1, purulenta – 1), linfoma de células B com acometimento cortical e de meninges (4), doença de Alzheimer (11), pacientes sem doença neurológica do SNC pareados por idade (17). Foram consideradas lesões ativas de EM aquelas que apresentavam, em macrófagos reativos, produtos de degradação para mielina ou antígenos neuronais como neurofilamentos. Os resultados mostram que lesões focais de desmielinização primária do tipo placa (perda total de mielina com preservação axonal) são características de EM.  O infiltrado inflamatório nas lesões corticais de EM se mostrou composto de células T, células B, plasmócitos e macrófagos, semelhante ao infiltrado de lesões corticais de meningite crônica luética e tuberculosa. Em relação a imunohistoquímica, desmielinização e perda de oligodendrócitos foram restritos as lesões de EM. Na análise de genes, 4 grupos foram estudados: genes relacionados à inflamação, à morte celular e dano do DNA e reação à injuria tecidual. Os genes identificados com inflamação foram aqueles relacionados ao reconhecimento de antígenos de classe I e de classe II de células T- em especial Th1 e Th17,  na ativação de micróglia e macrófagos, em sinalização de citocinas e quimiocinas e em recrutamento de leucócitos e síntese de selectinas.  No caso de morte celular e dano ao DNA, os genes mais ativados foram aqueles relacionados à apoptose, dano e reparo do DNA, p53, e canais de potássio e cloreto envolvidos no controle do volume celular e genes envolvidos na modulação de excitotoxicidade e isquemia.  O maior grupo de genes foi o de reação tecidual à injúria, onde o maior subgrupo foi o de genes envolvidos no metabolismo de RNA e na regulação da transcrição e da tradução, assim como a genes responsáveis por desenvolvimento cerebral, crescimento axonal e função das sinapses.

Esse artigo aborda rapidamente um dado que atualmente vem sendo muito falado na EM: inflamação em meninges, o que vem sendo apontado como um novo caminho para a entrada de células inflamatórias na EM.

O estudo conclui que desmielinização e neurodegeneração em EM não são consequências apenas de inflamação, mas sim resultado de mecanismos de injúria próprios da EM. Ademais, o dano oxidativo tem papel principal no processo de degeneração dos oligodendrócitos, na desmielinização e no dano neuronal.  Esse dano oxidativo seria fruto de processos ainda não compreendidos, mas dirigidos pela inflamação persistente de meninges e do parênquima cortical.

Link: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/23687122

——————————————————————————————————————————————————————

Achados de ressonância magnética após longo seguimento em pacientes com neuromielite óptica: pacientes seropositivos versos seronegativos

(“Long-term MRI findings in neuromyelitis optica: seropositive versus seronegative patients”)

Kıyat-Atamer AEkizoğlu ETüzün EKürtüncü MShugaiv EAkman-Demir GEraksoy M

Eur J Neurol. 2013 May;20(5):781-7

Abstract: Neuromielite óptica (NMO) é uma doença inflamatória desmielinizante severa associada a anticorpos contra aquaporina 4 (AQP4-Ab). Um grande número de pacientes permanece seronegativo mesmo com o decorrer da doença. Estudos de imagem do sistema nervoso central por ressonância magnética (RM) no acompanhamento de pacientes são ou raros ou por curto tempo. O objetivo deste estudo é determinar as características na RM após longo acompanhamento de pacientes soropositivos e soronegativos, e acessar possível superposição com Esclerose Múltipla. Métodos: Características clínicas e radiológicas de 28 pacientes com NMO no diagnóstico e de 17 pacientes após 9 anos de acompanhamento foram analisados. 50% dos pacientes são seropositivos para AQP4-Ab. RM de cérebro e coluna no diagnóstico e após 9 anos foram analisadas e comparadas retrospectivamente. Resultados: Mais pacientes no grupo soronegativo apresentaram lesões cerebrais ao diagnóstico. Lesões medulares em pacientes seropositivos eram mais longas e com mais edema nas RM iniciais. Após o acompanhamento por 9 anos não houve diferenças entre os grupos. Pacientes no grupo soropositivo apresentaram tendência de desenvolvimento de lesões cerebrais ao decorrer do acompanhamento. Nenhum paciente preencheu o critério radiológico de Barkhof ou McDonald para EM no diagnóstico ou no decorrer do tempo. Conclusão: RM encefálica mostra diferenças entre os pacientes soropositivos e soronegativos no diagnóstico da NMO, mas essas diferenças desaparecem com o decorrer do tempo. Nenhum dos pacientes AQP4 negativos preencheu o critério radiológico para EM em nenhum momento, sugerindo que NMO seronegativa  e EM são entidades diferentes.

Comentário: Os pacientes foram testados por cell based essay, teste considerado atualmente mais sensível que imunofluorescência. Apesar do artigo focar no aspecto radiológico entre os pacientes soropositivos e soronegativos, o que chama atenção são as tabelas onde as características clínicas dos 2 grupos são apresentadas. Resumindo, os dados estatisticamente significativos, o EDSS após 9 anos se mostrou diferente (5.2 para o grupo soropositivo e 3.1 para o grupo soronegativo), assim como o índice de progressão. Tal dado mostra a importância da sorologia para AQP4 em pacientes com mielite ou neurite óptica. Além da soropositividade diferenciar NMO  de EM, doenças com tratamentos diferentes, ela também é de preditiva de prognóstico.

Link: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/23279782

 

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s