Atualizações em Neurologia Cognitiva – Ago/13

Publicado: 09/09/2013 em Neurologia Cognitiva
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Níveis de educação muito baixos e reserva cognitiva: um estudo clinicopatológico

(“Very low levels of education and cognitive reserve: a clinicopathologic study”)

Farfel JMNitrini RSuemoto CKGrinberg LTFerretti RELeite RETampellini ELima LFarias DSNeves RCRodriguez RDMenezes PRFregni FBennett DAPasqualucci CAJacob Filho WOn behalf of the Brazilian Aging Brain Study Group

Neurology. 2013 Aug 13;81(7):650-657

Abstract: Objetivos: Nós conduzimos um estudo clinicopatológico em uma grande população com níveis de educação muito baixos para determinar se muito poucos anos de educação poderiam contribuir para a reserva cognitiva e modificar a relação dos índices neuropatológicos para demência. Métodos: Neste estudo transversal, nós incluímos 675 indivíduos com idade acima de 50 anos do Grupo de Estudos Brasileiro de Envelhecimento do Encéfalo. As habilidades cognitivas foram avaliadas através de uma entrevista estruturada com um informante no momento da necropsia, incluindo a escala CDR (Clinical Dementia Rating). As avaliações neuropatológicas foram realizadas usando imunohistoquímica e os critérios aceitos internacionalmente. Modelos de regressão linear multivariada foram conduzidos para se determinar se a associação entre habilidades cognitivas (mensuradas pelo CDR “soma das caixas”) e anos de educação foi independente das variáveis sociodemográficas e dos índices neuropatológicos, incluindo placas neuríticas, emaranhados neurofibrilares, infartos lacunares, doença de pequenos vasos e corpos de Lewy. Além disso, os modelos de interação foram usados para examinar se a educação modificou a relação entre índices neuropatológicos e cognição. Resultados: A educação média foi de 3,9 ± 3,5 anos. A educação formal foi associada com um CDR mais baixo (β = -0,197; IC95% -0,3, -0,052; p = 0,008), após ajuste para as variáveis sociodemográficas e índices neuropatológicos. Além disso, a educação modificou a relação de infartos lacunares com habilidades cognitivas (p = 0,04). Conclusões: Mesmo alguns poucos anos de educação formal contribuem para a reserva cognitiva.

Comentário: Este interessante trabalho foi conduzido por pesquisadores do Banco de Cérebros de São Paulo, pertencente à USP, um grupo competente que vem criando um dos maiores bancos de encéfalos do mundo, com grande potencial científico. A proposta do trabalho vai ao encontro do artigo revisado mês passado (https://neuropolaca.wordpress.com/2013/08/07/atualizacoes-em-neurologia-cognitiva-jul13/), porém envolvendo indivíduos com analfabetos e com baixíssima escolaridade, algo que nosso país tem em excesso. Metodologicamente, é muito difícil se comprovar associações de causalidade entre reserva cognitiva e aspectos neuropatológicos, e este trabalho tem importantes limitações neste sentido, mas conseguiu mostrar que lesões vasculares de pequenos vasos são mais achadas nos indivíduos com menor escolaridade, talvez por baixos níveis socioeconômicos. É mais um trabalho que vem reforçar a plausibilidade biológica da hipótese da reserva cognitiva.

Link: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/23873971

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Mecanismos moleculares da perda de memória associada à idade: a proteína ligada à histona RbAp48

(“Molecular Mechanism for Age-Related Memory Loss: The Histone-Binding Protein RbAp48”)

Pavlopoulos EJones SKosmidis SClose MKim CKovalerchik OSmall SAKandel ER

Sci Transl Med. 2013 Aug 28;5(200):200

Abstract: Para se distinguir a perda de memória do envelhecimento de modo mais explícito da doença de Alzheimer (DA), nós exploramos suas associações moleculares no giro denteado (GD), uma sub-região da formação hipocampal que se acredita estar afetada pelo envelhecimento. Nós conduzimos um estudo de expressão gênica em tecidos humanos pós-morte retirados do GD e do córtex entorrinal (CE), uma sub-região vizinha não afetada pelo envelhecimento e conhecida por ser o local de surgimento da DA. Usando a expressão no CE para normalização, nós identificamos 17 genes que manifestaram confiáveis mudanças ligadas à idade no GD. A mudança mais significativa foi um declínio associado à idade no RbAp48, uma proteína ligada à histona que modifica a acetilação da histona. Para testar se o declínio da RbAp48 poderia ser responsável pela perda de memória associada à idade, nós avaliamos camundongos e encontramos que, consistente com humanos, a RbAp48 esteve menos abundante no GD de camundongos idosos que de jovens. Em seguida, nós geramos um camundongo transgênico que expressava um inibidor da RbAp48 no prosencéfalo basal de adultos. A inibição da RbAp48 em camundongos jovens causaram déficits de memória dependentes do hipocampo similares àqueles do envelhecimento, tal como foi mensurado pelos testes de reconhecimento de objeto novo e no labirinto aquático de Morris. As imagens de ressonância magnética funcional mostraram que, na formação hipocampal, a disfunção foi observada seletivamente no GD, e isto correspondeu a uma redução seletiva regional na acetilação de histona. O aumento da regulação da RbAp48 no GD dos camundongos selvagens idosos melhorou a perda de memória baseada em hipocampo relacionada à idade e as anormalidades na acetilação da histona. Juntos, estes achados mostram que o GD é uma sub-região hipocampal afetada pelo envelhecimento, e identificam os mecanismos do envelhecimento cognitivo que podem servir como alvos válidos para intervenção terapêutica.

Comentário: Confesso que, há muito tempo, eu não lia um artigo TÃO bom (também não é todo dia que reviso um artigo da Science). Como vocês podem notar, o autor correspondente do artigo é, nada mais nada menos, Prof. Eric Kandel, o Prêmio Nobel responsável por grande parte das descobertas moleculares envolvidas no processo de memória, e certamente um dos melhores neurocientistas do século XX. Antes do trabalho, o grupo tinha uma hipótese de que o declínio cognitivo do envelhecimento iniciaria em uma sub-região diferente do declínio que ocorre na DA: o esquecimento causado pela velhice seria iniciado no GD, e o CE seria a região de surgimento do processo patológico da DA. Os pesquisadores fizeram uma pesquisa de expressão gênica no GD de cérebros humanos, e o gene mais associado com o declínio cognitivo foi o da proteína RbAp48, que está reduzida em idosos. Para explorar o papel desta proteína no envelhecimento, um modelo animal de camundongo transgênico com nulificação da ação desta proteína foi criado, e com estes roedores eles puderam mostrar que camundongos jovens com ausência de efeito da proteína RbAp48 apresentavam o mesmo desempenho de memória que animais idosos, há uma redução de perfusão no GD destes animais pela RM funcional, e se este hipocampo for infectado por vírus que provocam aumento na expressão do gene da RbAp48, há recuperação da memória dos animais transgênicos, em níveis semelhantes aos controles. O artigo é repleto de gráficos e imagens que comprovam a relação de causalidade entre a proteína RbAp48 e os processos de memória normal, e é um exemplo de como se faz medicina translacional: uma informação adquirida em encéfalos humanos foi confirmada em modelos animais, e para se fechar o ciclo, isto deverá se transformar em uma intervenção terapêutica.

Link: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/23986399

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Níveis de glicemia e risco de demência

(“Glucose levels and risk of dementia”)

Crane PKWalker RHubbard RALi GNathan DMZheng HHaneuse SCraft SMontine TJKahn SEMcCormick WMcCurry SMBowen JDLarson EB

N Engl J Med. 2013 Aug 8;369(6):540-8

Abstract: Introdução: O diabetes é um fator de risco para demência. Não se sabe se níveis altos de glicose aumentam o risco de demência em pessoas sem diabetes. Métodos: Nós usamos 35.264 medidas clínicas de glicemia e 10.208 medidas de hemoglobina glicada de 2067 participantes sem demência para se examinar a relação entre níveis de glicemia e o risco de demência. Participantes do estudo “Adult Changes in Thought” foram incluídos (839 homens e 1228 mulheres), com média de idade no baseline de 76 anos; 232 participantes tinham diagnóstico de diabetes, e 1835 não tinham. Nós projetamos modelos de regressão de Cox, estratificados de acordo com o estado do diabetes e ajustado para idade, sexo, coorte do estudo, nível educacional, nível de exercício, pressão arterial e estado para doenças coronarianas e cerebrovasculares, fibrilação atrial, tabagismo e tratamento para hipertensão. Resultados: Durante um seguimento mediano de 6,8 anos, foi feito diagnóstico de demência em 524 participantes (74 com diabetes e 450 sem). Entre participantes sem diabetes, os níveis de glicemia mais altos nos 5 anos antes da entrada no estudo estavam relacionados a um maior risco de demência (p = 0,01); com uma glicemia de 115mg%, comparado com 100mg%, o risco relativo ajustado para demência foi de 1,18 (IC95% 1,04-1,33). Entre os participantes com diabetes, os níveis mais altos de glicemia também estiveram relacionados a um risco aumentado de demência (p = 0,002); com níveis glicêmicos de 190mg% comparados com 160mg%, o risco relativo ajustado foi de 1,4 (IC95% 1,12-1,76). Conclusões: Nossos resultados sugerem que níveis mais altos de glicemia podem ser um fator de risco para demência, mesmo entre pessoas sem diabetes.

Comentário: A associação entre demência (principalmente vascular e tipo Alzheimer) e diabetes já é conhecida em vários trabalhos, porém não se sabe se a mera presença de níveis glicêmicos mais altos já aumentaria o risco de demência. A partir de uma coorte imensa, foram analisados os níveis glicêmicos de antes do início do estudo, e foi visto que, mesmo em indivíduos não diabéticos, a glicemia acima de 100mg% já aumentava o risco de uma conversão em demência nos anos seguintes. O mesmo foi visto em diabéticos, com um risco maior. Mesmo sendo uma relação de causalidade metodologicamente difícil de se retirar as inúmeras variáveis que podem influenciar este resultado, devemos estar atentos principalmente aos pacientes com resistência insulínica, que ainda não preenchem critérios para diabetes mellitus tipo 2. Não há evidências que justifiquem o tratamento precoce de pessoas com glicemia de jejum alterada e declínio cognitivo.

Link: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/23924004

 

comentários
  1. […] fisiologia e fisiopatologia da memória e suas disfunções: 1) a descoberta da proteína RbAp48 (https://neuropolaca.com/2013/09/09/atualizacoes-em-neurologia-cognitiva-ago13/), que parece ser essencial na formação da memória, e sua disfunção relacionada a uma perda de […]

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