Atualizações em Distúrbios de Movimento – Out/13

Publicado: 08/11/2013 em Distúrbios de Movimento
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Alfa-sinucleína em nervos cutâneos autonômicos

(“α-Synuclein in cutaneous autonomic nerves”)

Wang NGibbons CHLafo JFreeman R

Neurology. 2013 Oct 29;81(18):1604-10

Abstract: Objetivo: Desenvolver um biomarcador cutâneo para doença de Parkinson (DP). Métodos: Vinte pacientes com DP e 14 indivíduos controles foram submetidos a avaliações neurológicas, testes autonômicos e biópsias de pele na perna distal, coxa distal e coxa proximal. O depósito de alfa-sinucleína e a densidade das fibras nervosas intraepidérmicas, sudomotoras e pilomotoras foram medidas. O depósito de alfa-sinucleína foi normalizado com a densidade de fibras nervosas (razão de alfa-sinucleína). Os resultados foram comparados com os escores das avaliações e testes de função autonômica. Resultados: Os pacientes com DP apresentaram uma neuropatia autonômica e sensitiva, caracterizada pela perda de fibras intraepidérmicas e pilomotoras (p < 0,05 vs. controles, em todos os sítios) e pelas mudanças morfológicas nas fibras sudomotoras. Os pacientes com DP têm um maior depósito de alfa-sinucleína e maiores razões de alfa-sinucleína comparados a controles, no interior de fibras pilomotoras e sudomotoras (p < 0,01, todos os sítios), mas não em nervos sensitivos. As maiores razões de alfa-sinucleína se correlacionaram com os escores de Hoehn & Yahr (r = 0,58-0,71, p < 0,01), com a função adrenérgica simpática (r = -0,40 a -0,06, p < 0,01) e com a função parassimpática (r = -0,66 a -0,77, p < 0,01). Conclusões: Nós concluímos que o depósito de alfa-sinucleína está aumentado em fibras adrenérgicas simpáticas cutâneas e colinérgicas simpáticas, mas não em fibras sensitivas dos pacientes com DP. Os maiores depósitos de alfa-sinucleína estiveram associados com maior disfunção autonômica e DP mais avançada. Estes dados sugerem que medidas de deposição de alfa-sinucleína em nervos cutâneos autonômicos podem ser um útil biomarcador em pacientes com DP.

Comentário: A busca por um biomarcador da DP está muito acirrada, e todas as possibilidades estão sendo exploradas. Procuramos sinais da patobiologia da doença em várias partes do sistema nervoso, desde o LCR até as fibras nervosas mais finas, e os resultados estão surgindo. Estes autores conseguiram, pela primeira vez, mostrar a presença de depósitos de alfa-sinucleína em nervos autonômicos da pele dos membros inferiores de pacientes com DP, e correlacionar com determinadas disfunções autonômicas, como a resposta da frequência cardíaca à manobra de Valsalva. Existe uma grande discussão sobre os déficits autonômicos na DP, e provavelmente os autores foram os primeiros a mostrar este acúmulo periférico de alfa-sinucleína por usar um protocolo mais racional para processamento das biópsias. Isto reforça a recente hipótese de sinucleinopatias serem doenças de todo tecido nervoso, não afetando apenas o encéfalo. Mesmo ainda sendo muito prematuro para uma indicação clínica, considero estes resultados de grande relevância.

Link: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/24089386

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Perspectivas terapêuticas para a doença de Parkinson

(“Therapeutic prospects for Parkinson’s disease”)

Olanow CWSchapira AH

Ann Neurol. 2013 Sep;74(3):337-47

Abstract: Terapias dopaminérgicas como levodopa têm proporcionado benefícios para milhos de pacientes com DP e revolucionaram o tratamento desta doença. Entretanto, os pacientes continuam a ter incapacidade, a despeito do melhor tratamento moderno, As terapias dopaminérgicas e cirúrgicas estão associadas a efeitos adversos potencialmente graves. Aspectos não-motores e não-dopaminérgicos como congelamento, quedas e demência mão são adequadamente controlados com as medicações disponíveis, e representam a principal origem de incapacidade nos pacientes na fase avançada da doença. Além disso, a doença continua a progredir sem tréguas. As maiores necessidades terapêuticas incluem uma terapia dopaminérgica sem associação com efeitos adversos, uma terapia que melhore os aspectos não-motores e não-dopaminérgicos da doença, e um tratamento modificador de doença que lentifique ou suspenda a progressão da doença. Esta revisão considerará as atuais tentativas para se resolver estas questões e os obstáculos que devem ser ultrapassados para o desenvolvimento de terapias mais eficazes para DP.

Comentário: De uma série especial de artigos de revisão terapêutica da Annals of Neurology, este trabalho assinado pelos Profs. Olanow e Schapira faz uma análise crítica das últimas novidades sobre tratamentos para DP, e a conclusão é que o cenário atual é bem escasso de esperanças, em meio a tantos estudos clínicos negativos com as drogas testadas nos últimos 5 anos. Há alguma esperança em tratamentos voltados para os genes envolvidos com formas genéticas de DP, como parkina e a LRRK2, mas ainda no plano dos modelos animais. Outra mensagem dos autores é que, para um breakthrough terapêutico em DP, será necessário muito investimento nesta área, de uma ordem financeira bem maior do que a atual, e o fato de não existir um biomarcador confiável para a doença também dificulta os ensaios clinico. O artigo pode ser lido gratuitamente, na íntegra, no link abaixo.

Link: http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1002/ana.24011/pdf

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Efeitos do exercício sobre a mobilidade em pessoas com doença de Parkinson

(“Effects of exercise on mobility in people with Parkinson’s disease”)

van der Kolk NMKing LA

Mov Disord. 2013 Sep 15;28(11):1587-96

Abstract: A DP é uma doença neurodegenerativa prevalente, onde só existem tratamentos sintomáticos. Os distúrbios de marcha e de equilíbrio são comuns na DP, e são grandes causadores de piora na incapacidade e redução na qualidade de vida associada à doença e sobrevivência. Os déficits de marcha e equilíbrio na DP são consideravelmente difíceis de serem tratados e não são melhorados significativamente pelos tratamentos farmacológicos ou cirúrgicos. As últimas duas décadas viram um aumento dramático de pesquisas e interesse clínico no uso de exercícios como tratamento de problemas de mobilidade em pessoas com DP. Com avanços empolgantes na pesquisa básica sugerindo mudanças neuroquímicas e neuroplásticas após o exercício, um número crescente de estudos de alta qualidade estão analisando aspectos particulares da mobilidade que melhoram com exercícios. O exercício tem o potencial de ajudar tanto aspectos motores (marcha, equilíbrio, força) e não-motores (depressão, apatia, fadiga, constipação) da DP, assim como complicações secundárias da imobilidade (cardiovasculares, osteoporose). Este artigo foca primariamente nos recentes avanços sobre os efeitos do exercício na melhora da mobilidade, enfatizando a importância dos exercícios direcionados para se maximizar os benefícios do exercício. Sugestões para protocolos de exercícios, questões de aderência e direções para pesquisas futuras são abordadas.

Comentário: Com os sucessivos fracassos farmacológicos em DP, cada vez mais a comunidade neurológica se volta para os efeitos de intervenções não-medicamentosas nesta doença. Este artigo de revisão faz uma abordagem muito didática de todas as possíveis formas de atividade física/exercícios (principalmente no contexto da Educação Física), e algumas mensagens importantes são transmitidas:

– Exercícios de fortalecimento muscular e alongamento melhoram mobilidade nas pessoas com DP;

– Exercícios aeróbicos (o principal usado é o treino em esteira) melhoram vários aspectos da marcha e equilíbrio dos pacientes;

– Treinos focados em equilíbrio e resistência podem reduzir o risco de quedas;

– Exercícios complexos, como prática de dança e tai chi, têm bons efeitos principalmente sobre controle postural e equilíbrio;

– Sintomas não-motores, como apatia e depressão, melhoram com exercícios;

Há uma densa literatura reforçando estas evidências científicas, mostrando que não podemos mais ignorar estes benefícios aos nossos pacientes. Os grandes problemas da prática de exercício nestes indivíduos residem na baixa aderência à atividade física de longo prazo (> 3 meses), na presença de comorbidades clínicas que limitam o exercício (insuficiência cardíaca, pneumopatias etc) e no risco de lesões associadas à prática das atividades (como quedas e risco de fraturas). Contudo, se estes fatores não forem uma barreira importante aos pacientes, a prática de exercícios deve ser estimulada, sempre com uma orientação de educadores físicos ou fisioterapeutas. O artigo também contém pequenas sugestões de protocolos de exercícios físicos, para os profissionais da área. Leitura imperdível!

Link: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/24132847

 

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