Atualizações em Neurologia Cognitiva – Nov/13

Publicado: 05/12/2013 em Neurologia Cognitiva
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Prática clínica: Transtorno de déficit de atenção e hiperatividade em adultos

(“Clinical practice: Adult attention deficit-hyperactivity disorder”)

Volkow NDSwanson JM

N Engl J Med. 2013 Nov 14;369(20):1935-44

Abstract: Não há.

Comentário: Confesso que tenho minhas desconfianças sobre qualquer doença moderna sem um substrato anatomopatológico. E na minha lista negra de diagnósticos desconfiáveis está a TDAH. Esta ótima e simples revisão sobre TDAH em adultos deve ser lida por qualquer médico ou profissionais na área da saúde, por se tratar de um problema que envolve vários profissionais, principalmente psicólogos e psiquiatras, estando os neurologistas no meio deste fogo cerrado. A revisão comenta sobre as peculiaridades do transtorno após a transição da infância/adolescência para a fase adulta, algumas sutis mudanças diagnósticas na nova edição do DSM (DSM-V) e faz uma extensa discussão a respeito dos psicoestimulantes. Além disso, os autores ressaltam que este diagnóstico clínico independe da realização de questionários e avaliações neuropsicológicas específicas, adicionais aos critérios do DSM-V. Um dos maiores desafios na TDAH em adultos, em minha opinião, é a grande quantidade de condições psiquiátricas que podem simulá-la (transtornos ansiosos, de humor, uso de substâncias ilícitas) e a considerável quantidade de pessoas que cada vez mais simulam os efeitos da síndrome para fazer uso recreacional dos estimulantes. Para ajudar no diagnóstico, o artigo sugere que o médico deve ter a certeza de que os sintomas atrapalham a pessoa desde a infância, e é muito recomendado que venha à consulta uma pessoa próxima ao paciente como testemunha dos sinais e sintomas relatados. Cada vez mais creio que esta é uma condição psiquiátrica como depressão e transtorno bipolar, não sendo aconselhado que neurologistas façam o tratamento e seguimento destas pessoas. Mas esta é uma opinião pessoal.

Ótimo artigo, qualidade New England Journal of Medicine. Não deixem de ler!

Link: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/24224626

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Dieta mediterrânea melhora cognição: o estudo randomizado PREDIMED-NAVARRA

(“Mediterranean diet improves cognition: the PREDIMED-NAVARRA randomised trial”)

Martínez-Lapiscina EHClavero PToledo EEstruch RSalas-Salvadó JSan Julián BSanchez-Tainta ARos EValls-Pedret CMartinez-Gonzalez MÁ

J Neurol Neurosurg Psychiatry. 2013 Dec;84(12):1318-25

Abstract: Objetivo: Estudos observacionais prévios relatam efeitos benéficos da dieta mediterrânea (MedDiet) na função cognitiva, mas os resultados forma inconsistentes. Nós avaliamos os efeitos sobre a cognição de uma intervenção nutricional usando MedDiet em comparação com uma dieta controle pobre em gorduras. Métodos: Nós avaliamos 522 participantes com alto risco vascular (44,6% homens, idade 74,6±5,7 anos na avaliação cognitiva) incluídos em um ensaio de prevenção primário, randomizado e multicêntrico (PREDIMED), após uma intervenção nutricional comparando duas MedDiet (suplementadas com óleo de oliva extra virgem (EVOO) ou com nozes/castanhas diversas) versus uma dieta controle pobre em gordura. A performance cognitiva global foi examinada pelo Mini-Exame do Estado Mental (MEEM) e o Teste do Desenho do Relógio (TDR) após 6,5 anos de intervenção nutricional. Os pesquisadores que avaliaram os desfechos estavam cegos para a composição dos grupos. Nós usamos modelos lineares para controle de potenciais confundidores. Resultados: Após ajuste para sexo, idade, educação, genótipo da apolipoproteína E, história familiar de declínio cognitivo/demência, tabagismo, atividade física, índice de massa corpórea, hipertensão, dislipidemia, diabetes, álcool e ingesta energética total, os participantes do grupo MedDiet+EVOO mostraram médias de MEEM e de TDR maiores, com diferenças significativas versus controle (diferenças ajustadas: +0,62 (IC 95% +0,18 a +1,05), p = 0,005 para MEEM, e +0,51 (IC 95% +0,2 a +0,82), p = 0,001 para TDR). As médias ajustadas dos escores de MEEM e TDR foram tão mais altas para participantes do grupo MedDiet+Castanhas/Nozes versus controles (diferenças ajustadas: +0,57 (IC 95% +0,11 a +1,03), p = 0,015 para MEEM e +0,33 (IC 95% +0,003 a +0,67), p = 0,048 para TDR). Estes resultados não foram distintos após controle para depressão nova. Conclusões: Uma intervenção com MedDiet suplementada tanto com EVOO quanto com castanhas/nozes parece melhorar a cognição, em relação à dieta pobre em gordura.

Comentário: Uma das maneiras atuais de ser “legal” perante a sociedade, além de ser contra a Polícia e o PT, é usar a dieta mediterrânea. Há várias evidências, com níveis diferentes de confiabilidade, de que haja um benefício sobre risco cardiovascular em pessoas que usam esta dieta, que consiste em alto consumo de vegetais (frutas, castanhas, verduras, legumes e cereais), moderado-alto consumo de peixes e frutos-do-mar e baixa ingesta de laticínios e carne, além de uso regular em baixas quantidade de álcool (principalmente vinho tinto) nas refeições. Mesmo não sendo a maior casuística de intervenção nutricional deste tema e com alguns erros metodológicos citados pelos autores, este trabalho tem seu valor ao mostrar que, mesmo após controle para várias variáveis confundidoras, a performance no MEEM e no exame do relógio é melhor nos indivíduos com MedDiet, independente se suplementada com óleo extra virgem ou com castanhas. Do ponto de vista populacional, se esta intervenção realmente for correta, e se for aplicada em um número extenso de pessoas, não apenas idosos, poderíamos ter uma redução nas crescentes incidências de demência. Apenas lembrando, a perspectiva é que o número de casos novos de demência, principalmente em países em desenvolvimento, quadruplique até 2050.

Link: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/23670794

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Incidência de demência por corpos de Lewy e de demência da doença de Parkinson

(“Incidence of dementia with lewy bodies and Parkinson disease dementia”)

Savica RGrossardt BRBower JHBoeve BFAhlskog JERocca WA

JAMA Neurol. 2013 Nov 1;70(11):1396-402

Abstract: Importância: Dados epidemiológicos sobre demência por corpos de Lewy (DCL) e demência da doença de Parkinson (DDP) continuam limitados, tanto nos EUA quanto no resto do mundo. Estas informações são essenciais para orientar pesquisar e intervenções clínicas ou públicas de saúde. Objetivo: Investigar a incidência de DCL entre moradores do condado de Olmsted, Minnesota, e compará-la com a incidência de DDP. Desenho: O sistema de registros médicos do Projeto de Epidemiologia de Rochester foi usado para se identificar todas as pessoas que desenvolveram parkinsonismo e, em particular, DCL ou DDP de 1991 até 2005 (15 anos). Um especialista em Distúrbios do Movimento revisou os registros médicos completos de cada paciente suspeito para confirmar o diagnóstico. Contexto: Condado de Olmsted, Minnesota, de 1991 a 2005 (15 anos). Participantes: Todos os residentes no condado de Olmsted, Minnesota, que permitiram a pesquisa de seus registros médicos. Desfechos e medidas principais: Incidência de DCL e DDP. Resultados: Entre 542 casos novos de parkinsonismo, 64 tinham DCL e 46 tinham DDP. A taxa de incidência de DCL foi de 2,5 global, e também aumentou de acordo com a idade. As taxas de incidência de DCL e DDP combinadas foram de 5,9. Os pacientes com DCL foram mais jovens no início dos sintomas que os pacientes com DDP, e tinham mais alucinações e flutuação cognitiva. Os homens tiveram uma incidência mais alta de DCL que as mulheres ao longo do espectro etário. A patologia foi consistente com o diagnóstico clínico em 24 dos 34 pacientes (77,4%) que foram submetidos à necropsia. Conclusões e relevância: A taxa global de incidência de DCL é menor que a taxa de doença de Parkinson. A incidência de DCL aumenta de acordo com a idade e está nitidamente mais elevada em homens. Esta diferença entre homens e mulheres pode sugerir diferentes mecanismos etiológicos. Nossos achados podem orientar planejamentos de saúde e estimular novos estudos.

Comentário: Este interessante estudo vem nos ajudar em uma área algo nebulosa em Neurologia Cognitiva: a epidemiologia da DCL. Estando entre a terceira e a segunda causa de demência no mundo, de acordo com distintas amostras, um dos grandes problemas da detecção desta doença é a associação do quadro cognitivo com sintomas parkinsonianos, levando a erros diagnósticos frequentes por neurologistas menos avisados, sendo provavelmente subdiagnosticada. Através dos critérios diagnósticos do último consenso sobre DCL, os autores foram buscar dados clínicos em uma população de quase 2 milhões de habitantes (condado de Olmsted, Minnesota) e rastrearam tanto indivíduos potencialmente portadores de DCL e DDP, sendo os prontuários destes indivíduos rastreados posteriormente revisados por um neurologista especialista em Distúrbios do Movimento. Através desta metodologia, os autores viram que a incidência de DCL é maior que a de DDP, porém cerca de 3 vezes menor que a incidência de doença de Parkinson, e de modo particular, a incidência em homens é quase 4x maior que a em mulheres, uma distinção de gênero não comum às demências neurodegenerativas. Além disso, alucinações e flutuações cognitivas durante o dia parecem ser sintomas muito confiáveis para diagnóstico de DCL. Além de alguns problemas que são inerentes a estudos retrospectivos, acho que os autores poderiam ter comparado estas incidências com as de doença de Alzheimer e de demência vascular na mesma população.

Link: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/24042491

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