Atualizações em Neurologia Cognitiva – Jan/14

Publicado: 10/02/2014 em Neurologia Cognitiva
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Consumo de álcool e declínio cognitivo na terceira idade precoce

(“Alcohol consumption and cognitive decline in early old age”)

Sabia SElbaz ABritton ABell SDugravot AShipley MKivimaki MSingh-Manoux A

Neurology. 2014 Jan 28;82(4):332-9

Abstract: Objetivo: Examinar a associação entre consumo de álcool na meia-idade e o subsequente declínio cognitivo. Métodos: Os dados foram de 5054 homens e 2099 mulheres do estudo de coorte Whitehall II, com uma média de idade de 56 anos (44-69 anos) na primeira avaliação cognitiva. O consumo de álcool foi avaliado 3 vezes nos dez anos seguintes à primeira avaliação (1997-1999). Os testes cognitivos foram repetidos de 2002 a 2004 e de 2007 a 2009. As baterias de teste cognitivo incluíram 4 testes que avaliaram memória e função executiva; um escore cognitivo global resumiu as performances nestes testes. Modelos lineares mistos foram usados para avaliar a associação entre ingesta de álcool e declínio cognitivo, expressado em escores z. Resultados: Em homens, não houve diferenças no declínio cognitivo entre os abstêmios de álcool, desistentes do alcoolismo e bebedores de quantidades leves e moderadas de álcool (<20g/dia). Entretanto, o consumo de álcool ≥ 36g/dia foi associado com um declínio mais veloz em todos os domínios cognitivos comparados com o consumo entre 0,1 e 19,9 g/dia: média da diferença do escore cognitivo global em 10 anos = -0,10, função executiva = -0,06, e memória = -0,16. Em mulheres, comparadas com aquelas que ingeriram de 0,1 a 9,9 g/dia de álcool, aquelas que se abstiveram da bebida por 10 anos mostraram um declínio mais veloz no escore cognitivo global e da função executiva. Conclusões: Consumo de álcool excessivo em homens (acima de 36 g/dia) esteve associado com um declínio cognitivo mais veloz comparado com consumo de álcool leve a moderado.

Comentário: Já revisamos artigos anteriores deste grupo da coorte Whitehall II, da University College London, o principal estudo longitudinal da atualidade que avalia a influência de vários fatores sobre o declínio cognitivo em adultos. Com uma casuística imensa, acima dos 5000 indivíduos, os autores resolveram avaliar o impacto do etilismo em adultos de meia-idade sobre o declínio cognitivo na velhice. Os resultados mostraram que homens que usaram álcool numa quantidade de 36 g/dia durante a meia-vida (aproximadamente dos 30 aos 50 anos) evoluíram com perda cognitiva consistente de modo mais intenso nos 10 anos seguintes. É importante reforçar que estes indivíduos não tinham diagnóstico de qualquer doença neurológica. Fazendo algumas contas rápidas, as 36 g de álcool por dia seriam iguais a ingesta de 750 ml de cerveja (quase uma garrafa) por dia, 375 ml de vinho por dia ou 112,5 ml de pinga diárias. Não é uma quantidade alta de álcool que se deve beber por dia para estar sob risco de declínio cognitivo. Estes dados estão em concordância com outros vários estudos que também mostraram esta associação, contudo, pelo modelo longitudinal do estudo, este artigo mostra um grau de evidência maior a respeito deste evento. Outro achado interessante do estudo foi o achado de uma associação também entre mulheres abstêmias de álcool e o rápido declínio cognitivo.

Link: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/24431298

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Dois estudos fase 3 de bapineuzumab na doença de Alzheimer leve a moderada

(“Two phase 3 trials of bapineuzumab in mild-to-moderate Alzheimer’s disease”)

Salloway SSperling RFox NCBlennow KKlunk WRaskind MSabbagh MHonig LSPorsteinsson APFerris SReichert MKetter NNejadnik BGuenzler VMiloslavsky MWang DLu YLull JTudor ICLiu EGrundman MYuen EBlack RBrashear HRBapineuzumab 301 and 302 Clinical Trial Investigators

N Engl J Med. 2014 Jan 23;370(4):322-33

Abstract: Introdução: O bapineuzumab, um anticorpo monoclonal anti-beta-amiloide humanizada, está em desenvolvimento clínico para o tratamento da doença de Alzheimer (DA). Métodos: Nós conduzimos dois estudos fase 3 duplo-cegos, randomizados e placebo-controlados envolvendo pacientes com DA leve a moderado – um envolvendo 1121 portadores do alelo ε4 da apolipoproteína E, e o outro envolvendo 1331 não-portadores. Bapineuzimab ou placebo, com doses variáveis de acordo com o estudo, foi administrado em infusão intravenosa a cada 13 semanas por 73 semanas. As medidas de desfecho primário foram os escores na subescala cognitiva de 11 itens da Alzheimer’s Disease Assessment Scale (ADAS-cog11, com escores variando entre 0 a 70, e os escores mais altos indicando maior comprometimento) e a Avaliação de Incapacidade em Demência (DAD, com escores variando de 0 a 100, e os escores mais altos indicam menor comprometimento). Um total de 1090 portadores e 1114 não-portadores foram incluídos na análise de eficácia. As medidas de desfecho secundário incluíram achados na imagem com PET com uso do composto Pittsburgh B (PIB-PET) e as concentrações de tau fosforilada liquórica. Resultados: Não houve diferenças significativas entre os grupos nos desfechos primários. Na semana 78, as diferenças entre grupos na mudança do baseline no ADAS-cog11 e escore DAD (grupo bapineuzumab menos grupo placebo) foram de -0,2 (p = 0,8) e -1,2 (p = 0,34)m respectivamente, no estudo de portadores; as diferenças correspondentes no estudo de não-portadores foram de -0,3 (p = 0,64) e 2,8 (p = 0,07) com dose de 0,5 mg/kg de bapineuzumab e 0,4 (p = 0.62) e 0,9 (p = 0,55) com dose de 1 mg/kg. Os principais achados de segurança foram anormalidades na imagem de beta-amiloide com edema entre os pacientes usando bapineuzumab, o que aumentou a dose do bapineuzumab e o número de portadores do alelo da APOE, e que levou à descontinuação da dose de 2 mg/kg. Diferenças entre grupos foram observadas no PIB-PET e nas concentrações de tau fosforilada no LCR em portadores da APOE, mas não em não-portadores. Conclusões: Bapineuzumab não melhorou os desfechos clínicos em pacientes com DA, apesar das diferenças de tratamento nos biomarcadores observadas nos portadores de APOE ε4.

Link: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/24450891

Estudos fase 3 do solanezumab por doença de Alzheimer leve a moderada

(“Phase 3 trials of solanezumab for mild-to-moderate Alzheimer’s disease”)

Doody RSThomas RGFarlow MIwatsubo TVellas BJoffe SKieburtz KRaman RSun XAisen PSSiemers ELiu-Seifert HMohs RAlzheimer’s Disease Cooperative Study Steering CommitteeSolanezumab Study Group

N Engl J Med. 2014 Jan 23;370(4):311-21

Abstract: Introdução: A DA é caracterizada por placas amiloides, emaranhados neurofibrilares, gliose e perda neuronal. O solanezumab, um anticorpo monoclonal humanizado, liga-se preferencialmente a formas solúveis da amiloide, e em estudos pré-clínicos, promoveu sua retirada do encéfalo. Métodos: Em dois estudos duplos-cegos fase 3 (EXPEDITION 1 e EXPEDITION 2), nós randomizamos 1012 e 1040 pacientes selecionados, respectivamente, com DA leve a moderada para receber placebo ou solanezumab (administrado intravenoso na dose de 400 mg) a cada 4 semanas por 18 meses. Os desfechos primários foram a mudança do baseline para a semana 80 na subescala cognitiva de 11 itens da Alzheimer’s Disease Assessment Scale (ADAS-cog11, com escores variando entre 0 a 70, e os escores mais altos indicando maior comprometimento) e a escala de Atividades de Vida Diária – Alzheimer’s Disease Cooperative Study (ADCS-ADL; de 0 a 78, com menores escores indicand pior desempenho). Após análise dos dados do EXPEDITION 1, o desfecho primário para o EXPEDITION 2 foi revisado para mudanças nos escores da subescala cognitiva de 14 itens da Alzheimer’s Disease Assessment Scale (ADAS-cog14, com escores variando entre 0 a 90, e os escores mais altos indicando maior comprometimento), nos pacientes com DA leve. Resultados: Nenhum dos estudos mostrou melhora significativa nos desfechos primários. As diferenças entre os grupos (grupo solanezumab menos grupo placebo) na mudança do baseline foi de -0,8 pontos para o escore ADAS-cog11 (p = 0,24) e -0,4 pontos na escada ADCS-ADL (p = 0,64) no EXPEDITION 1 e -1,3 pontos (p = 0,06) e -1,6 pontos (p = 0,08), respectivamente, no EXPEDITION 2. As diferenças entre grupos nas mudanças no ADAS-cog14 foram -1,7 pontos nos pacientes com DA leve (p = 0,06) e -1,5 pontos nos pacientes com DA moderada (p = 0,26). Nos dados de segurança combinada, a incidência de anormalidades na imagem associada à amiloide com edema ou hemorragia foi de 0,9% com solanezumab e 0,4% com placebo para edema (p = 0,27) e 4,9% e 5,6%, respectivamente, para hemorragia (p = 0,49). Conclusões: Solanezumab, um anticorpo monoclonal humanizado que se liga à amiloide, falhou em melhorar a cognição e habilidade funcional.

Link: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/24450890

Comentário: Estes dois artigos publicados na New England Journal of Medicine mostram terríveis reveses em estudos clínicos fase 3 com anticorpos monoclonais que eram vistos com bom otimismo como tratamentos para a DA: o bapineuzumab e o solanezumab. Ambos os estudos foram bem conduzidos e desenhados, com casuísticas robustas, escolha de desfechos primários clássicos (como o ADAS-cog) e secundários com biomarcadores modernos (imagem por PET de carga amiloide e tau fosforilada no LCR) e adequada estatística. Infelizmente, é mais um conjunto de possíveis drogas terapêuticas para DA que não mostra os benefícios vistos em modelos animais em pacientes doentes.

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Sedação e delirium na Unidade de Terapia Intensiva

(“Sedation and delirium in the Intensive Care Unit”)

Reade MCFinfer S

N Engl J Med. 2014 Jan 30;370(5):444-54

Abstract: Não há.

Comentário: Está é uma revisão sobre aspectos importantes sobre sedação e delirium no contexto de pacientes em UTI, com poucas novidades práticas, porém com muitas referências a respeito do uso de neurolépticos na profilaxia e tratamento do delirium, mostrando boas evidências sobre esta prática. Além disso, o artigo também comenta sobre o uso de sedativos como benzodiazepínicos, propofol, dexmedetomidina e remifentanil.

Link: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/24476433

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