Atualizações em Neuroimunologia – Fev/14

Publicado: 09/03/2014 em Neuroimunologia
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Distinção entre desordens do espectro da NMO seropositiva para MOG e seropositiva para AQP4

(“Distinction between MOG antibody-positive and AQP4 antibody-positive NMO spectrum disorders”)

Sato DKCallegaro DLana-Peixoto MAWaters PJJorge FMTakahashi TNakashima IApostolos-Pereira SLTalim NSimm RFLino AMMisu TLeite MIAoki MFujihara K

Neurology. 2014 Feb 11;82(6):474-81

Abstract: Objetivos: Avaliar as características clínicas entre pacientes com desordens do espectro da NMO (NMOSD) que são soropositivos para anticorpos contra a glicoproteína da mielina de oligodendrócitos (MOG), contra a aquaporina-4 (AQP4) ou soronegatividade para ambos os anticorpos. Métodos: Soro de pacientes diagnosticados com NMOSD em diferentes centros (2 centros no Brasil e 1 centro no Japão) foram testados para os anticorpos MOG e AQP4 usando ensaios clínicos baseados em células com células vivas transfectadas. Resultados: De 215 pacientes com NMOSD, 7,4 % (16/215) foram soropositivos para o anticorpo contra MOG e 64,6% (139/215) foram positivos  para o anticorpo contra AQP4. Pacientes com anticorpos contra MOG são geralmente homens, tem um fenótipo mais restritivo (nervo óptico ao invés da medula espinhal), neurite óptica bilateral, ataque único, lesões na medula espinhal distribuído na porção inferior da medula espinhal e usualmente mostram uma recuperação funcional melhor apos um ataque. Conclusões: Pacientes com NMOSD e anticorpos contra MOG têm características clinicas distintas, menos ataques, e melhor recuperação do que pacientes com anticorpos AQP4 ou pacientes soronegativos para ambos os anticorpos.

Link: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/24415568

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Um estudo comparativo de desordens do espectro da Neuromielite Óptica com anticorpos contra Aquaporina-4 e glicoproteína da mielina de oligodendrócitos

(“Neuromyelitis Optica Spectrum Disorders With Aquaporin-4 and Myelin-Oligodendrocyte Glycoprotein Antibodies: A Comparative Study”)

Kitley JWaters PWoodhall MLeite MIMurchison AGeorge JKüker WChandratre SVincent APalace J

JAMA Neurol. 2014 Jan 13

Abstract: Importância: A maioria dos pacientes com neuromielite óptica (NMO) e muitos com desordens do espectro da NMO tem anticorpos contra aquaporina-4, mas recentemente, anticorpos contra a glicoproteína da mielina de oligodendrócitos (MOG) têm sido encontrados em alguns pacientes. Nesse artigo, mostramos que os pacientes com NMO/NMOSD com anticorpos anti-MOG (MOG-Ab) são diferentes quando comparados com anticorpos anti-aquaporina-4 (AQP4-Ab). Objetivo: Caracterizar o fenótipo de pacientes com NMO/NMOSD com MOG-Abs e compará-los com pacientes positivos para AQP4-Ab. Desenho, Local e Participantes: Esse estudo observacional foi conduzido em um único centro inglês especializado em NMO.  Critério de inclusão: Pacientes com um primeiro evento desmielinizante ocorrido entre primeiro de janeiro de 2010 e primeiro de abril de 2013 acompanhados no serviço de NMO de Oxford que testaram positivo para os anticorpos MOG ou AQP4. Métodos: Ensaios baseados em células usando uma forma truncada no terminal C do anticorpo MOG e o anticorpo M23-AQP4 inteiro foram usados para testar as amostras sanguíneas dos pacientes. Principais desfechos e variáveis: Variáveis demográficas, clínicas, medidas de incapacidade e ressonância magnética. Resultados: 24 pacientes AQP4-Ab positivos e 9 pacientes MOG-Ab positivos foram identificados. A maioria dos pacientes era branca. 90% dos pacientes positivos para AQP4-Ab, mas somente 44% dos pacientes positivos para MOG-Ab eram mulheres (p=0.02), com tendência para os pacientes AQP4-Ab serem mais velhos (44.9 vs 32.3 anos, p =0.05). Pacientes MOG-Ab positivos geralmente apresentaram neurite óptica simultaneamente com mielite (44 % vs 0%). A severidade do primeiro episódio não se mostrou diferente nos dois grupos, mas os pacientes com MOG-Ab tiveram desfecho melhor, com melhor recuperação na escala de EDSS e um menor risco para incapacidade motora ou visual. Pacientes positivos para o MOG-Ab apresentaram acometimento de cone medular (75% vs 17%, p=0.02) e envolvimento dos núcleos profundos da substância cinzenta na ressonância magnética.  As características de líquor foram similares nos 2 grupos. Uma proporção maior de pacientes positivos para AQP4-Ab (40% vs 0%) tiveram recorrência. Conclusões e relevância: Apesar do fato que pacientes com MOG-Ab podem preencher o critério diagnóstico para NMO, há diferenças quando comparados com aqueles com AQP4-Ab. Essas incluem uma maior proporção de homens, pacientes mais jovens, e maior risco para envolvimento do cone medular e de estruturas da substância cinzenta profundas em imagem de ressonância magnética. Além disso, pacientes com MOG-Abs tem desfecho mais favorável. Pacientes negativos para AQP4 NMO/NMOSD devem ser testados para MOG-Abs.

Link: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/24425068

Comentário: Não, você não leu o mesmo trabalho 2 vezes, mas quando dois grupos de pesquisadores diferentes publicam trabalhos semelhantes, com certeza é hora do JEAN comentar! Ambos os artigos estudam a prevalência e características clínicas do anticorpo anti-MOG em populações diferentes. O trabalho de Sato et al. estudou a prevalência deste anticorpo em pacientes com NMO, LETM e neurite óptica e comparou essa prevalência e outras dos pacientes anti-MOG positivos com pacientes seropositivos para AQP4-IgG e pacientes negativos para ambos os anticorpos em vários centros médicos. O trabalho de Kitley et al. determinou a prevalência de anti-MOG em pacientes com primeiro evento desmielinizante vistos em determinado período em um centro inglês e comparou as características clínicas dos pacientes positivos para anti-MOG com os pacientes seropositivos para AQP4-IgG. Como as populações são diferentes, a frequência desse anticorpo variou bastante 7% em Sato et al. e 20% em Kitley et al., mas em ambos AQP4-IgG foi mais frequente. Em ambos os artigos, não houve pacientes positivos para ambos os anticorpos (anti-MOG e AQP4-IgG), assim como chegaram a características semelhantes em relação a população anti-MOG positiva quando comparada com os pacientes AQP4-IgG: maioria homens, acometimento de porções inferiores da medula espinhal e neurite óptica bilateral é mais comum, recuperação melhor, curso monofásico. Essas características já tinham sido identificadas em trabalhos anteriores como características de pacientes que são soronegativos para NMO-IgG.

O trabalho de Kitley et al. conclui que pacientes negativos para AQP4-NMO/NMOSD devem ser testados para MOG-Ab.  Pessoalmente, acho que tal conclusão deve ser discutida, pois ainda não há a definição do que seria uma síndrome definida pelo anticorpo anti-MOG. Na literatura, os anticorpos anti-MOG já foram associados a várias desordens desmielinizantes como ADEM e Esclerose Múltipla em adultos e em crianças. Interessantemente, a tabela 2 do trabalho de Kitley mostra que ressonância magnética de encéfalo ADEM-like foi muito prevalente no grupo anti-MOG positivo e, apesar de não ter havido pacientes com ressonância magnética MS-like nesse grupo, temos que nos lembrar que o critério de inclusão desse artigo foi primeiro evento desmielizante.

Ao ler os dados expostos na tabela 2 do artigo de Sato, o seguimento dos pacientes soropositivos para MOG é menor do que os outros grupos (p<0.0002), o que poderia nos levar a hipótese que a razão dos pacientes soropositivos para anti-MOG terem apresentado um curso monofásico e menor EDSS seria o menor tempo de follow-up. Mas o artigo de Kitley traz uma nova explicação para esse fato: a maioria dos pacientes anti-MOG-positivos converteram para anti-MOG-negativos mesmo após a terapia imunossupressora ter sido retirada (não está explicito no texto quanto tempo levou para os pacientes anti-MOG-positivos converterem para anti-MOG-negativos). Assim, questiono se o anticorpo anti-MOG é um anticorpo patogênico ou somente um parafenômeno ocorrendo em alguns pacientes em um evento desmielinizante, mas algo que pode ser concluído desses artigos é a necessidade do teste para o anticorpo contra a AQP4, pois define uma população, a necessidade de imunoterapia e um prognóstico pior.

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