Fosfolipídios plasmáticos identificam, com antecedência, declínio cognitivo em adultos idosos

(“Plasma phospholipids identify antecedent memory impairment in older adults”)

Mapstone MCheema AKFiandaca MSZhong XMhyre TRMacarthur LHHall WJFisher SGPeterson DRHaley JMNazar MDRich SA,Berlau DJPeltz CBTan MTKawas CHFederoff HJ

Nat Med. 2014 Mar 9 [Epub ahead of print]

Abstract: A doença de Alzheimer (DA) provoca uma demência progressiva que atualmente afeta cerca de 35 milhões de pessoas pelo mundo e é esperado que afete 115 milhões até 2050. Não há cura ou tratamento modificador de doença, e isto pode ser devido nossa incapacidade de detectar a doença antes de ter progredido ao ponto de produzir perda de memória evidente e declínio cognitivo. Biomarcadores de doenças pré-clínicas serão críticos para o desenvolvimento de terapias modificadoras de doença ou mesmo preventivas. Infelizmente, os atuais biomarcadores para doença precoce, incluindo níveis de tau e beta-amiloide no LCR, imagem com ressonância magnética funcional e estrutural e o recente uso de imagem de carga de amiloide cerebral ou inflamação, são limitados porque eles são muito invasivos, caros e demorados. Os biomarcadores plasmáticos podem ser uma opção mais atrativa, mas nenhum deles atualmente pode detectar DA com desejável sensibilidade e especificidade. Nós descrevemos aqui nossa abordagem lipidômica para detecção pré-clínica da DA em um grupo de adultos idosos cognitivamente normais. Nós descobrimos e validamos um conjunto de dez lipídios no sangue periférico que predisseram fenoconversão para comprometimento cognitivo leve amnéstico ou DA em um intervalo de 2 a 3 anos, com 90% de acurácia. Este painel de biomarcadores, que reflete a integridade da membrana celular, pode ser sensível à neurodegeneração precoce da DA pré-clínica.

Comentário: Há algumas semanas atrás, minha mãe disse que tinha visto na TV um teste que dizia se a pessoa iria ter DA três anos antes da doença. Logo depois, vi mais algumas notícias sobre esta descoberta nova. De início, achei que fosse exagero da mídia, com possível deturpação dos resultados da pesquisa, mas após ler o artigo, vi que os autores realmente disseram isso de maneira bem clara.

Os autores utilizaram uma abordagem cada vez mais usada na pesquisa de biomarcadores, as “Ômicas”. Basicamente, você compara o universo de um tipo de macromolécula (genes, proteínas, lipídios, metabólitos) em uma determinada amostra biológica (plasma, LCR etc) e analisa quais as diferenças entre duas populações de indivíduos, uma de controle e outra de doentes. O grande problema dessa abordagem é que se torna muito difícil você determinar que o motivo da concentração de determinada molécula é a doença em investigação. Os autores analisaram o sangue de três grupos de idosos: um grupo com 53 pessoas, com diagnósticos de CCL domínio único amnéstico (CCLa) e DA leve (sim, eles consideraram que é igual ter CCLa e DA leve, e não informaram quantos deste grupo eram CCL e DA); um grupo com pessoas que adquiriram DA durante o estudo (n = 18), e um grupo de controles (n = 53). Após uma complexa análise lipidômica, foi visto que alguns fosfolipídios, lisofosfatidilcolinas e acilcarnitinas, em um total de 10 lipídios, estavam em níveis plasmáticos menores do que em indivíduos controles, tanto naqueles que tinham CCLa/DA leve quanto nos que se converteram em DA cerca de 2-3 anos antes de expressar a doença. Por estes resultados, os autores dizem que descobriram e validaram “mudanças metabólicas plasmáticas que distinguem indivíduos cognitivamente normais daquele que progredirão para CCLa ou DA dentro de 2 a 3 anos, daqueles que estão destinados a se manter cognitivamente normais no futuro próximo”.

Na discussão, os autores tentam explicar a plausibilidade biológica do achado dizendo que a DA é causada por “distúrbios da integridade e funcionalidade das membranas celulares”. Esta explicação, que beira a pseudociência, ignora totalmente os milhares de trabalhos que associa a DA à beta-amiloide e à proteína tau. Como mensagem final implícita, os autores parecem dizer: “Tudo o que foi pesquisado até hoje em DA foi em vão. Nós ignoramos o conhecimento prévio e conseguimos um resultado com biomarcadores plasmáticos melhor do que tudo já publicado até o momento”. Na discussão, não há nenhuma referência às várias limitações do trabalho (baixa casuística, agrupamento de indivíduos com DA e CCLa na mesma categoria, falta de informações sobre outras doenças sistêmicas destes indivíduos): só há méritos.

O principal problema conceitual deste trabalho, em minha opinião, é o mesmo de todas as análises “ômicas”: como eu posso determinar que a redução nos níveis séricos destes lipídios ocorreu pelo surgimento da doença de Alzheimer? Não poderia ser pela presença de outras doenças, como aterosclerose, hipertensão arterial, diabetes? Por que associar justamente este achado a uma doença do sistema nervoso central? Do ponto de vista de um trabalho proof-of-concept, creio que ele tenha validade e mexe com conceitos bem estabelecidos nos que pesquisam doenças neurodegenerativas e com os brios de vários estudiosos pelo mundo. Mas isso é muito pouco. Esperamos que outros grupos repliquem estes resultados e melhorem a explicação neurobiológica para estes resultados, que são muito frágeis.

Link: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/24608097

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Estimulação transcraniana por corrente direta em pacientes com distúrbios da consciência

(“tDCS in patients with disorders of consciousness: Sham-controlled randomized double-blind study”)

Thibaut ABruno MALedoux DDemertzi ALaureys S

Neurology. 2014 Apr 1;82(13):1112-8

Abstract: Objetivo: Nós avaliamos os efeitos da estimulação por corrente direta transcraniana (tDCS) no córtex prefrontal dorsolateral esquerdo (DLPF) na pontuação da Escala de Recuperação de Coma Revisada (CRS-R) em pacientes com encéfalos gravemente lesados com distúrbios de consciência. Métodos: Em um desenho tipo crossover controlado com sham duplo-cego, tDCS anodal e sham foram realizadas de modo randômico sobre o córtex DLPF esquerdo por 20 minutos em pacientes em estado vegetativo (EV)/síndrome do despertar arresponsivo (SDA) ou em estado minimamente consciente (EMC) avaliados pelo menos 1 semana após o insulto agudo traumático ou não-traumático. As avaliações clínicas foram realizadas usando a CRS-S diretamente antes e após as estimulações tDCS anodal e sham. Os dados de desfecho foram registrados 12 meses após inclusão no estudo, através da escala de Desfecho de Glasgow estendida. Resultados: Os pacientes com EMC (n = 30; intervalo entre insulto 43 meses; 19 traumáticos, 11 não-traumáticos) mostraram um efeito de tratamento significativo (p = 0,003) medido pela pontuação final da CRS-R. Em pacientes com VS/SDA (n = 25; intervalo entre insulto 24 meses, 6 traumáticos, 19 não-traumáticos), não houve efeito do tratamento (p = 0,952). Treze (43%) pacientes com EMC e 2 (8%) com EV/SDA mostraram sinais de consciência relacionados à tDCS pós-anodal posteriormente, os quais não haviam sido observados nem na avaliação pré-tDCS ou na avaliação pré- ou pós-sham (ou seja, os que responderam ao tDCS). O desfecho [em 12 meses] não foi diferente entre respondedores à tDCS e não-respondedores. Conclusão: A tDCS sobre o córtex DLPF esquerdo pode transitoriamente melhorar sinais de consciência no EMC consequente de grave lesão encefálica, tal como mensurado na pontuação total do CRS-R. Classificação da evidência: Este estudo fornece evidência classe II de que tDCS de curta duração do córtex DLPF esquerdo melhora transitoriamente a consciência, tal como medido pela escala CRS-R, em pacientes com EMC.

Comentário: Os distúrbios de consciência compreendem as graves sequelas ao nível de consciência que perdura por meses e anos, como nos estados vegetativos (termo cada vez menos usado, sendo trocado por “síndrome de despertar arresponsivo”) e no estado minimamente consciente, e são pouco conhecidos pelos neurologistas em geral. Não há tratamentos eficazes para promover uma melhora da consciência destas pessoas, mas há evidências de que a amantadina e estimulação cerebral profunda talâmica podem se tornar tratamentos futuros. Este estudo testou mais uma intervenção não-medicamentosa: a resposta imediata à estimulação de uma região neocortical através de corrente direta, baseado em alguns estudos prévios, sobre o córtex DLPF esquerdo em pessoas com EV/SDA e EMC, em sessões de 20 minutos. Mesmo uma apenas uma sessão de tratamento, os resultados mostraram que as pessoas diagnosticadas como ECM tiveram benefícios transitórios sobre a consciência (não especificados no trabalho, mas que incluiu desde melhora da vigília até resposta a comandos), o que não foi visto nos pacientes com EV/SDA, naturalmente com casos neurologicamente mais graves. Faço uma ressalva: sabe-se que os pacientes com distúrbios de consciência pós-traumáticos têm desfechos melhores que os não-traumáticos (por anóxia ou outros eventos), e o grupo com EMC tinha mais casos pós-traumáticos que o grupo EV/SDA. Como a área é muito escassa de tratamentos, e em geral indivíduos nestas condições geram grande ansiedade para seus familiares, espera-se que este método se torne uma alternativa para estas situações.

Link: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/24574549

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Incapacidade de ter empatia: Lesões encefálicas que alteram o compartilhamento e compreensão dos sentimentos alheios

(“Inability to empathize: brain lesions that disrupt sharing and understanding another’s emotions”)

Hillis AE

Brain. 2014 Apr;137(Pt 4):981-97

Abstract: A empatia emocional – a habilidade de reconhecer, compartilhar e fazer inferências sobre o estado emocional de outra pessoa – é crítica para todas as interações sociais. Os mecanismos neurais envolvidos com a empatia emocional têm sido amplamente estudados com imagem funcional de indivíduos normais. Entretanto, os estudos de imagem funcional revelam correlações entre áreas de ativação e a performance de uma tarefa, de modo que podem apenas avaliar áreas que estão envolvidas com a tarefas, e não apenas as áreas encefálicas que são críticas para a tarefa. Os estudos com lesões complementam a imagem funcional, na identificação de áreas essenciais para uma tarefa. Declínios na empatia emocional têm sido estudados em grande parte em doenças neurológicas com lesões muito difusas, com traumatismo cranioencefálico, autismo e demências. [O modelo] clássico de lesão focal é o AVC. Existem estudos espalhados de pacientes com empatia prejudicada após AVC e outras lesões focais, mas estes estudos apresentavam pequenos números de pacientes. Aqui, eu reviso como lesões focais afetam a empatia emocional. Eu mostrarei como estudos de lesão contribuem para o entendimento de mecanismos cognitivos e neurais envolvidos na empatia emocional, e como eles contribuem para o manejo de pacientes com prejuízo na empatia emocional.

Comentário: Temas como estes são pouco explorados pela Neurologia ortodoxa, sendo bem mais desenvolvida por nossos companheiros das Psicologias. A habilidade de reconhecer em outro indivíduo tanto seu estado emocional (e se “contaminar” com isso) quanto suas intenções racionais é conhecido como empatia emocional. Alguns de nós das Neurociências também conhecemos como a “Teoria da Mente”. O autor deste trabalho de revisão mapeia como esta fundamental habilidade cognitiva social pode ser comprometida em lesões focais provocadas por AVCs e outras agressões, e de acordo com o que se sabe hoje em Neurociência Cognitiva, a área afetada é menos relevante que o circuito neural lesado. Leitura agradável de 17 páginas.

Link: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/24293265

 

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