Atualizações em Distúrbios do Movimento – Abr/14

Publicado: 13/05/2014 em Distúrbios de Movimento
Tags:, , , , ,

Alteração na excitabilidade da medula espinhal permite movimentos voluntários após paralisia completa crônica em humanos

(“Altering spinal cord excitability enables voluntary movements after chronic complete paralysis in humans”)

Angeli CAEdgerton VRGerasimenko YPHarkema SJ

Brain. 2014 May;137(Pt 5):1394-409

Abstract: Previamente, nós relatamos que um indivíduo com lesão medular motora completa, mas sensorial incompleta, readquiriu os movimentos voluntários após 7 meses de estimulação epidural e treino em pé. Nós presumimos que as vias sensoriais residuais foram criticas para esta recuperação. Entretanto, agora nós relatamos mais três indivíduos com movimentos voluntários após estimulação epidural imediatamente após implante, mesmo em dois pacientes com lesão completa motora e sensitiva. Nós demonstramos que a neuromodulação da circuitaria medular com estimulação epidural permite pessoas completamente paralisadas a processar informações conceituais, auditivas e visuais para readquirirem de modo relativo o controle voluntário fino de músculos paralisados. Nós mostramos que a neuromodulação do estado motor subliminar da excitabilidade das redes espinhais lombossacras foi a chave para a recuperação dos movimentos intencionais em quatro dos quatro indivíduos diagnosticados com paralisia completa das pernas. Nós descrevemos uma estratégia de intervenção fundamentalmente nova que pode afetar dramaticamente a recuperação dos movimentos voluntários em pessoas com paralisia completa, mesmo anos após a lesão. (Nota: Neste texto, entenda-se “paralisia” como “paraplegia”).

Comentário: O tratamento de reabilitação de pessoas com paraplegias provocadas por lesões medulares é extremamente desafiador, e o prognóstico quanto à recuperação de movimentos voluntários é geralmente sombrio, principalmente nos casos mais graves, com lesão motora completa. Mesmo no melhor dos cenários de reabilitação, estes indivíduos ficam restritos a cadeiras de rodas. Mesmo com pesquisas voltadas para estratégias do tipo interação corpo-máquina surgindo, sua aplicabilidade clínica ainda parece distante. Este trabalho mostrou resultados surpreendentes, inclusive para os autores do estudo: todos os quatro pacientes que foram submetidos a um esquema especial de fisioterapia intensa, associado a um processo de estimulação elétrica na região epidural da medula lombossacra, conseguiram readquirir movimentos voluntários de vários músculos dos membros inferiores. Os autores conseguiram documentar muito bem, através de vários parâmetros neurofisiológicos (eletromiografia, estimulação magnética transcraniana, potenciais evocados somatossensitivos, mensurações de força e velocidade de movimento) que esta intervenção permitiu que estes quatros indivíduos, previamente paraplégicos sem quaisquer movimentos (pela descrição, com força muscular MCR 0) conseguissem realizar movimentos de dorsiflexão das pernas, com ativação de vários músculos (tibial anterior, extensor comum dos dedos e extensor longo do hálux) de acordo com suas vontades.

A base fisiopatológica deste efeito da estimulação epidural ainda não está bem definida, porém se sugere que parte da perda de força muscular seja por alteração na excitabilidade da circuitaria medular na área da lesão, e a estimulação elétrica na região facilitaria os movimentos perdidos. Particularmente, vejo com crescente interesse estas intervenções baseadas em estimulação elétrica no sistema nervoso, e acho muito mais provável que isto se torne um tratamento futuro factível para os milhões de lesados medulares do mundo do que o Robocop do Prof. Nicolelis.

Link: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/24713270

——————————————————————————————————————————————————————

Subtipos de doença de Parkinson

(“Parkinson disease subtypes”)

Thenganatt MAJankovic J

JAMA Neurol. 2014 Apr 1;71(4):499-504

Abstract: Importância: Cada vez é mais evidente que a doença de Parkinson (DP) não é uma entidade simples, mas provavelmente um transtorno neurodegenerativo heterogêneo. Objetivo: Avaliar as evidências disponíveis, baseadas nos achados de estudos clínicos, de imagem, genéticos e patológicos, que suportam a diferenciação da DP em subtipos. Revisão das evidências: Nós realizamos uma revisão sistemática de artigos citados no PubMed entre 1980 e 2013, usando os seguintes termos de busca: doença de Parkinson, parkinsonismo, tremor, instabilidade postural e dificuldade de marcha, e subtipos de doença de Parkinson. A lista final de referências foi gerada com originalidade e relevância, para o amplo escopo desta revisão. Achados: Vários subtipos, como DP com tremor dominante e DP com dificuldade de marcha e instabilidade postural (PIDG), foram agrupados juntos. Outros subtipos também têm sido identificados, mas a validação de biomarcadores específicos para subtipos ainda não existe. Conclusões e relevância: Vários subtipos de DP têm sido identificados, mas os mecanismos patogênicos associados à heterogeneidade clinicopatológica observada na DP ainda não são bem compreendidos. Mais pesquisas sobre os diagnósticos dos subtipos específicos e de seus biomarcadores prognósticos podem jogar luzes nos mecanismos de neurodegeneração e melhorar os desenhos de estudos clínicos epidemiológicos e terapêuticos.

Comentário: Cada vez que vejo um novo paciente com DP, aumenta minha impressão de que esta é apenas o nome da síndrome que agrupa doenças diferentes. Cada vez mais a diferenciação de fenótipos na DP tem sido explorada, e este artigo mostra a presença de 4 subtipos de DP: baseado na idade de surgimento (DP de início precoce e DP de início tardio) e nos sintomas clínicos (tremor dominante e PIDG), sendo a última classificação mais usada. Mas qual seria a importância de conhecer diferentes subtipos da DP? Quanto mais soubermos das especificidades clínicas destas subformas, poderemos descobrir também diferenças fisiopatológicas, de diagnóstico e mesmo de tratamento. Imperdível para os estudiosos de Parkinson.

Link: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/24514863

——————————————————————————————————————————————————————

Receptores de glutamato metabotrópicos como uma nova estratégia contra a discinesia induzida por levodopa na doença de Parkinson?

(“Targeting metabotropic glutamate receptors as a new strategy against levodopa-induced dyskinesia in Parkinson’s disease?”)

Picconi BCalabresi P

Mov Disord. 2014 May;29(6):715-9

Abstract: As discinesias induzidas pela levodopa (DIL) representam uma das principais disfunções motoras da terapia da DP. Sendo assim, o esforço nas pesquisas ainda é direcionado à descoberta de agentes que possam melhorar o parkinsonismo e, concomitantemente, reduzir ou evitar a discinesia. Os modelos em roedores e primatas não-humanos fornecem instrumentos úteis para se estudar as bases moleculares e neuronais das DIL. Entre as várias estratégias investigadas recentemente, o uso de drogas que se associam aos receptores de glutamato metabotrópicos tem recebido grande atenção. Em particular, o uso de antagonistas do subtipo 5 de receptores glutamatérgicos metabotrópicos revelou resultados pré-clínicos e clínicos promissores.

Comentário: Escrito por duas autoridades nos estudos de discinesias na DP, esta revisão mostra as bases da ação desta nova classe de medicações antidiscinéticas, os antagonistas dos receptores metabotrópicos de glutamato (não confundir com receptores ionotrópicos, como NMDA, AMPA e cainato), e em particular os do subtipo 5 (mGlu5). Os autores ressaltam o papel de uma nova droga, o AFQ056, eficazes sobre as discinesias em ensaios clínicos e sem piora do parkinsonismo. Faço minha pequena crítica sobre a revisão por não ter comentado sobre o papel do óxido nítrico na gênese das DIL. Tirando isso, é uma boa revisão sobre o tema.

Link: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/24591264

 

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s