Atualizações em Distúrbios de Movimento – Mai/14

Publicado: 08/06/2014 em Distúrbios de Movimento
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Risco de lesões acidentais entre pacientes com doença de Parkinson

(“Risk of accidental injuries amongst Parkinson disease patients”)

Wang HCLin CCLau CIChang ASung FCKao CH

Eur J Neurol. 2014 Jun;21(6):907-13

Abstract: Introdução e propósito: Investigar o espectro e riscos das lesões acidentais (LA) entre pacientes com doença de Parkinson (DP). Métodos: Os autores recrutaram pacientes com DP com idade acima de 50 anos que haviam sido diagnosticados entre 2000 e 2009, e indivíduos de um grupo de comparação com pacientes sem DP. As taxas de incidência dos tipos de LA entre pacientes com e sem DP foram calculadas; os hazard ratios foram calculados e ajustados para as comorbidades, usando-se intervalos de confiança de 95% (IC68) de desenvolverem tais desfechos [LA] no grupo DP. Resultados: No total, 4046 pacientes com DP e 16184 pacientes sem DP foram seguidos ao longo do tempo. Os pacientes com DP demonstraram as seguintes taxas de incidência e hazard ratios em comparação com a coorte controle para LA: todas as lesões; 19,78 por pessoas-ano (100 PYs), hazard ratio ajustado (HR) 1,3 (IC95 1,24-1,36); trauma craniano, 2,95 por 100 PYs, HR 1,88 (IC95 1,64-2,15); fraturas ósseas e luxações, 4,61 por 100 PYs, HR 1,39 (IC95 1,25-1,54); queimaduras, 0,66 por 100 PYs, HR 1,01 (IC95 0,78-1,32); lesão medular, de plexo ou nervos, 0,15 por 100HYs, HR 1,25 (IC95 0,72-2,17); lesões superficiais e contusões, 11,41 por 100 HYs, HR 1,2 (IC95 1,12-1,27). O risco de lesão para o grupo com 69-79 anos com DP, comparado aos controles da mesma idade (HR 1,38) foi significativamente mais alto comparado risco entre os grupos DP e controle com 50-69 anos (HR 1,16). Conclusões: Os pacientes com DP demonstraram um elevado e significativo risco de desenvolver todos os tipos de LA, exceto queimaduras e lesões medulares/plexo/nervo, comparados com controles da mesma idade. Os riscos se elevam com o aumento da idade.

Comentário: Dentre os vários problemas que a DP pode causar aos pacientes, a combinação de sintomas motores e não-motores também afeta a capacidade de ação-reação e equilíbrio dos acometidos, gerando um maior risco de acidentes das mais diversas ordens, desde quedas em casa até acidentes automobilísticos. Há vários trabalhos demonstrando a maior ocorrência de acidentes em pacientes com DP, mas nenhum deles com um desenho prospectivo e aplicado à população. Este belo trabalho avaliou a incidência de lesões decorrentes de acidentes (traumas cranianos, fraturas, luxações, queimaduras, escoriações, contusões e lesões traumáticas de medula-plexo-nervos periféricos) em 2 coortes: uma com DP e outra controle, controlados para idade e sexo. O trabalho mostrou que o risco de TCE em pessoas com DP é quase o dobro do visto em indivíduos sem DP, e lesões como fraturas, luxações, contusões e escoriações também é mais comum no paciente com DP. Este risco se eleva ao longo da progressão de doença, e o grupo na faixa etária entre 69 a 79 anos é o mais suscetível. Estes dados nos mostram que devemos ter em mente, desde o diagnóstico, que o paciente com DP tem maior risco de ter um traumatismo acidental, que pode provocar sequelas importantes (como fraturas de fêmur) e incapacitar mais ainda aquela pessoa. Isso deve ser bem discutido com o paciente e seus familiares, e é nossa função tentar orientá-los com medidas para redução de risco de queda e outros acidentes.

Link: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/24629012

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Eficácia da terapia ocupacional para pacientes com doença de Parkinson: um ensaio controlado e randomizado

(“Efficacy of occupational therapy for patients with Parkinson’s disease: a randomised controlled trial”)

Sturkenboom IHGraff MJHendriks JCVeenhuizen YMunneke MBloem BRder Sanden MWOTiP study group

Lancet Neurol. 2014 Jun;13(6):557-66

Abstract: Introdução: Há evidências insuficientes para apoiar o uso de intervenções de terapia ocupacional (TO) para pacientes com DP. Nosso objetivo foi avaliar a eficácia de TO na melhora das atividades diárias de pacientes com DP. Métodos: Nós fizemos um ensaio clínico controlado, randomizado, mascarado para o avaliador e multicêntrico, em dez hospitais associados a nove redes regionais de profissionais de saúde especializados (ParkinsonNet) holandesas, com avaliação a cada 3 e 6 meses. Os pacientes com DP com dificuldades auto-avaliadas nas atividades diárias foram incluídos, assim como seus cuidadores primários. Os pacientes foram recrutados randomicamente (2:1) para intervenção ou grupo controle por um algoritmo gerado por computador. A intervenção consistiu em 10 semanas de TO no domicílio, de acordo com os guidelines de prática nacional; os indivíduos controle receberam os cuidados gerais, sem TO. O desfecho primário foi a performance auto-percebida nas atividades diárias após 3 meses, avaliada pela Canadian Occupational Performance Measure – COPM (escala de 1 a 10). Os dados foram analisados usando modelos lineares mistos para medidas repetidas (princípio do intention-to-treat). Os avaliadores monitoraram a segurança perguntando aos pacientes sobre qualquer evento incomum durante os três meses seguintes. Achados: Entre abril 2011 e novembro 2012, 191 pacientes foram randomicamente recrutados para o grupo intervenção (n=124) ou o grupo controle (n=67). 117 (94%) dos 124 pacientes no grupo intervenção e 63 (94%) dos 67 no grupo controle tinham um cuidador atuante. No início, o escore médio do COPM foi de 4,3 (IQR 3,5-5) no grupo intervenção e 4,4 (3,8-5) no grupo controle. Após 3 meses, estes escores foram de 5,8 (5-6,4) e 4,6 (4,6-6,6), respectivamente. A diferença ajustada das médias no escore entre grupos em 3 meses esteve a favor do grupo intervenção (1,2; IC95 0,8-1,6; p<0,0001). Não houve eventos adversos associados ao estudo. Interpretação: A TO em domicílio e individualizada proporcionou uma melhora na performance auto-percebida nas atividades da vida diária em pacientes com DP. Trabalhos adicionais devem identificar quais fatores associados aos pacientes, ao contexto ambiental, ou ao terapeuta, podem predizer quais pacientes mais se beneficiariam com a TO.

Comentário: As terapias físicas na DP são ainda pouco compreendidas, porém há algumas boas evidências de que podem ser adjuvantes ao tratamento medicamentoso. Este trabalho é o primeiro estudo clínico randomizado e controlado que avalia o impacto da TO sobre as atividades da vida diária do paciente com DP, através de sua auto-percepção. Os resultados mostraram que a TO melhorou a execução das atividades diárias, na opinião dos próprios sujeitos acometidos. Mesmo sendo ainda um estudo que precisa de algumas confirmações, provavelmente nós encaminharemos mais nossos pacientes com DP para TO, a partir do momento em que surgir incapacidade motora.

Link: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/24726066

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Relutância em se iniciar medicação para doença de Parkinson: um mal-entendido mútuo entre pacientes e médicos

(“Reluctance to start medication for Parkinson’s disease: A mutual misunderstanding by patients and physicians”)

Mestre TATeodoro TReginold WGraf JKasten MSale JZurowski MMiyasaki JFerreira JJMarras C

Parkinsonism Relat Disord. 2014 Jun;20(6):608-12

Abstract: A relutância para se iniciar medicações nunca foi investigada na DP. Nós estudamos a relutância em se começar medicações para os sintomas motores da DP, especificamente sua prevalência, motivos subjacentes, especificidade das drogas, e demora para início do uso da medicação de DP. Um estudo internacional observacional transversal foi realizado. Os pacientes com um diagnóstico clínico de DP orientados a iniciar tratamento com medicações antiparkinsonianas nos cinco anos anteriores foram convidado a completar um questionário em três centros localizados na América do Norte e Europa. Uma pesquisa eletrônica online foi enviada para médicos através da lista de email da Movement Disorders Society. [Houve] 469 participantes (201 pacientes com DP, 268 médicos). 40,2% (n=82) dos pacientes relataram relutância em iniciar a medicação, mas 88,6% (n=234/264) dos médicos estimaram que < 20% de seus pacientes com DP se mostravam relutantes em iniciar a medicação. Os motivos mais comuns relatados pelos pacientes foram o medo de efeitos adversos (n=35, 55,6%), seguido de não-aceitação do diagnóstico (n=23, 36,5%); medo de um benefício temporário e limitado foi o principal motivo escolhido pelos médicos (n=92/267, 34,5%). Os pacientes mostraram relutância em iniciar agonistas dopaminérgicos mais frequentemente comparado à levodopa (OR 2,22, IC95 1,3-9,03; p=0,013), enquanto que os médicos perceberam a levodopa como maior causa de relutância ao uso (OR 4,7, IC95 3,41-6,59; p<0,0001). Os pacientes com DP e médicos têm perspectivas diferentes sobre a questão da relutância para se começar medicação. Há uma necessidade de aproximar médicos e pacientes com DP para uma visão compartilhada do problema da relutância em se iniciar medicação.

Comentário: Quando fazemos o diagnóstico de DP e prescrevemos as devidas medicações, poucos de nós imaginam a torrente de pensamentos que surge na cabeça do paciente. Dentre as várias aflições, o uso de uma medicação crônica é sempre assustador, e alguns destes pacientes optam por adiar o início da medicação, provocando piora motora e mais incapacidade. Este interessante estudo avaliou justamente a relutância do paciente com DP após ser orientado a iniciar uso de medicações antiparkinsonianas, através da visão do paciente e da visão do médico prescritor. Os resultados impressionam: aparentemente, os pacientes ficam bem mais assustados com as medicações do que os médicos imaginam; além disso, os médicos acreditam que o principal motivo para receio das medicações é o fato dos efeitos sintomáticos serem temporários, e para os pacientes, o principal motivo para temerem a medicação são os efeitos adversos e a não-crença de que ele tenha a doença. Os médicos acreditam que os pacientes temem mais a levodopa, enquanto os pacientes temem principalmente os agonistas dopaminérgicos, como o pramipexol. Esses resultados mostram que pacientes e médicos estão falando em línguas diferentes, e a culpa é toda nossa, daqueles que deveriam informar os pacientes devidamente e combater seus medos e ansiedades. Uma implicação direta disso é que a relutância ao uso das medicações provoca mais tempo de incapacidade e reduz a produtividade deste adulto.

Link: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/24661467

 

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