Atualizações em Neurologia Cognitiva – Jun/14

Publicado: 09/07/2014 em Neurologia Cognitiva
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Efeitos adversos do uso de maconha

(“Adverse health effects of marijuana use”)

Volkow NDBaler RDCompton WMWeiss SR

N Engl J Med. 2014 Jun 5;370(23):2219-27

Abstract: Considerando a rápida mudança de cenário envolvendo a legalização da maconha para uso médico e recreativo, os pacientes podem questionar mais os médicos sobre os seus potenciais efeitos colaterais e benéficos sobre  a saúde. O senso comum parece crer que a maconha seja um prazer sem perigos, e baseado nisso seu acesso não deveria ser regulado ou considerado ilegal.  Atualmente, a maconha é a droga “ilícita” mais usada nos Estados Unidos, e cerca de 12% das pessoas com 12 anos ou mais relataram seu uso no ano anterior, havendo particular alta taxa de uso entre pessoas jovens. A mais comum via de administração é a inalatória. As folhas cinza-esverdeadas e as flores da Cannabis sativa são fumadas (junto com raízes e sementes) em cigarros, charutos, cachimbos, nargilés ou “blunts” (maconha enrolada em folhas de tabaco retiradas de charuto). O haxixe é um produto derivado criado a partir da resina das flores da maconha e é geralmente fumado (isoladamente ou em mistura com tabaco”, mas podem ser ingeridos oralmente. A maconha pode também ser usada para chás, e seu extrato oleoso pode ser misturado em produtos alimentícios. O uso regular da maconha durante a adolescência é de interesse particular, já que o uso por este grupo etário está associado com uma maior possibilidade de consequências deletérias. Mesmo que estudos diversos tenham mostrado efeitos prejudiciais, outros não mostraram, e a questão sobre a maconha ser maléfica ainda é assunto de debates acalorados. Aqui, nós revisamos o estado atual da ciência envolvida com os efeitos adversos  na saúde do uso recreativo da maconha, com foco naquelas áreas onde a evidência é mais forte.

Comentário: Mesmo não sendo um tema estritamente neurológico, acho fundamental que os neurologistas estejam cientes das evidências atuais sobre possíveis efeitos adversos a longo prazo do uso recreativo da maconha. Como o próprio artigo comenta, há uma tendência global de mais liberalização de seu uso e incorporação aos mercados de modo legal. Não há sinais que o Brasil vá modificar sua posição de classificar a maconha como droga ilícita nos próximos anos, mas mesmo assim a maconha é a droga ilícita mais consumida nos Estados Unidos, e isso deve também se refletir aqui. De modo muito imparcial, na minha opinião, os autores se dedicam a mostrar o que há de real evidência sobre efeitos negativos do uso crônico de maconha. Um dos pontos mais perturbadores é a possibilidade do tetrahidrocanabinol (THC), o princípio ativo mais importante da maconha, promover modificações do encéfalo em desenvolvimento, o que inclui efeitos em indivíduos até os 21 anos. Estas modificações incluem aumentar o risco de surgimento de doenças psiquiátricas, redução no quociente de inteligência e aumento no risco de drogadição associada. O artigo classifica alguns possíveis efeitos adversos da maconha com o grau de evidência existente, principalmente nos casos de uso crônico e pesado e com início na adolescência:

a) Drogadição com maconha e outras substâncias – Nível de evidência: ALTO;

b) Desenvolvimento encefálico anormal – Nível de evidência:  MÉDIO;

c) Progressão para uso de outras drogas – Nível de evidência: MÉDIO;

d) Esquizofrenia – Nível de evidência: MÉDIO;

e) Depressão e ansiedade – Nível de evidência: MÉDIO;

f) Reduzida chance de sucesso ao longo da vida – Nível de evidência: ALTO;

g) Acidentes automobilísticos – Nível de evidência: ALTO;

h) Sintomas de bronquite crônica – Nível de evidência: ALTO;

i) Câncer de pulmão – Nível de evidência: BAIXO;

Link: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/24897085

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Desconfiança cínica na velhice, risco de demência incidente e mortalidade em uma coorte populacional

(“Late-life cynical distrust, risk of incident dementia, and mortality in a population-based cohort”)

Neuvonen ERusanen MSolomon ANgandu TLaatikainen TSoininen HKivipelto MTolppanen AM

Neurology. 2014 Jun 17;82(24):2205-12

Abstract: Objetivo: Nós investigamos a associação entre desconfiança cínica na velhice e demência incidente e mortalidade (média de seguimento de 8.4 a 10.4 anos, respectivamente) no “Cardiovascular Risk Factors, Aging and Dementia Study”. Métodos: A desconfiança cínica foi medida pela escala Cook-Medley e categorizada em tercis. O estado cognitivo foi avaliado com um protocolo de três passos, incluindo detecção, fase clínica e fase de diagnóstico diferencial. A demência foi diagnosticada de acordo com os critérios do DSM-IV. Informações completas sobre exposição, desfecho e fatores confundidores estavam disponíveis em 622 pessoas (46 casos de demência) para análises de demência e de 1146 pessoas (361 mortes) para análises de mortalidade. Idade, sexo, pressão sistólica, colesterol total, glicose de jejum, IMC, contexto socioeconômico, tabagismo, uso de álcool, auto-percepção de saúde e genótipo da APOE foram considerados como confundidores. Resultados: A desconfiança cínica não foi associada com demência na análise inicial, mas aqueles com os mais altos níveis de desconfiança tiveram os mais altos riscos de demência após ajuste para confundidores (risco relativo 3.13; IC95%  1.15-8.55). A mais alta desconfiança cínica esteve associada com uma a maior mortalidade na análise primária (hazard ratio 1.4; IC95% 1.05-1.87), mas a associação foi explicada pelos confundidores (hazard ratio ajustado 1.19; IC95% 0.86-1.61). Conclusões: Altos níveis de desconfiança cínica na velhice esteve associada com mortalidade mais alta, mas esta associação foi explicada pela posição socioeconômica, estilo de vida e estado da saúde. A associação entre desconfiança cínica e demência incidente se tornou evidente quando os confundidores foram considerados. Este novo achado sugere que ambos os fatores de risco psicossocial e ligados ao estilo de vida podem ser alvos modificáveis para intervenções. Nós reconhecemos a necessidade de estudos maiores para replicação dos resultados.

Comentário: Dizem que a desconfiança é um traço comum ao homem pós-moderno. Com a alma calejada por guerras, decepções com religiões (e determinadas seleções de futebol…) e fracasso econômico, as pessoas tendem a ter uma resistência a acreditar nas outras apenas por boa fé. A princípio, é como se todos fôssemos gente hobbesiana, que age apenas por interesses egoístas. Por algum motivo que ficou pouco claro para mim, os pesquisadores vem analisando as repercussões da “desconfiança cínica” (no sentido de cinismo filosófico grego) sobre determinados desfechos em saúde, como mortalidade e doenças cerebrovasculares. Esta grande coorte populacional mostrou que as pessoas com maior grau de cinismo desenvolveram mais demência, isso mesmo após ajuste das variáveis confundidoras. Os autores não explicam muito bem como o fato de alguém ser desconfiado pode torná-lo propenso a criar placas amiloides ou emaranhados no encéfalo, mas não deixa de ser uma associação curiosa. A minha opinião é que os fatores confundidores devem ser a chave da explicação desta associação, e que algo não foi bem realizado. De um modo ou de outro, talvez não custe nada tentar ter mais esperanças no mundo.

Link: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/24871875

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Correlatos anatômicos de comportamentos de busca de recompensa na demência frontotemporal variante comportamental

(“Anatomical correlates of reward-seeking behaviours in behavioural variant frontotemporal dementia”)

Perry DCSturm VESeeley WWMiller BL Kramer JHRosen HJ

Brain. 2014 Jun;137(Pt 6):1621-6

Abstract: A demência frontotemporal variante comportamental é caracterizada por respostas anormais a estímulos de recompensa primária, como comida, sexo e tóxicos, sugerindo um funcionamento anormal da circuitaria encefálica que medeia o processo de recompensa. O objetivo desta análise foi determinar se anormalidades em comportamentos de busca de recompensa na demência frontotemporal variante comportamental estão correlacionados com atrofia em regiões conhecidas por mediarem o processamento de recompensa. A revisão da história de 103 pacientes com demência frontotemporal variante comportamental identificou hiperfagia ou aumento na preferência por doces em 80 pacientes (78%), uso novo ou aumentado de álcool ou drogas em 27 (26%), e hiperssexualidade em 17 (17%). Para cada paciente, um escore de busca de recompensa primária de 0 a 3 foi criado com um ponto dado para cada comportamento-alvo (aumento de procura de comida, drogas ou sexo). A morfometria baseada em voxel realizada em 91 pacientes com imagem disponível revelou que a atrofia de putâmen ventral e globo pálido direito se correlacionou com maiores escores de busca de recompensa. Cada um dos comportamentos de busca de recompensa envolveram parcialmente circuitos de recompensa em hemisfério direito, incluindo putâmen, globo pálido, ínsula e tálamo. Estes achados indicam que, em alguns pacientes com demência frontotemporal variante comportamental, o baixo volume de estruturas subcorticais associadas a recompensa está associado com aumento na procura por recompensas primárias, as quais podem ser um produto do aumento da retroalimentação talamocortical.

Comentário: Dentre os sintomas de DFT, os comportamentos relacionados à busca de recompensas primárias, como hiperfagia, hiperssexualidade e abuso de drogas, são comuns, porém pouco se sabe dos mecanismos de como isso ocorra. Este trabalho usa como ferramenta morfometria baseada em voxel, e os pacientes com estes comportamentos apresentaram redução de volume do putâmen anterior e globo pálido direito. O putâmen anterior é conhecido pelas suas associações com regiões corticais associadas ao comportamento, e é provável que a redução destas regiões na DFT causem estas alterações comportamentais. Porém, é sempre importante ressaltar que a redução de volume visualizada em ressonância volumétrica não implica dizer alteração na densidade neuronal desta região, e qualquer assertiva neste sentido deve ser confirmada por estudos neuropatológicos.

Link: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/24740987

 

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