Atualizações em Distúrbios de Movimento – Out/14

Publicado: 28/11/2014 em Distúrbios de Movimento
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O futuro da pesquisa em doença de Parkinson 

(“The future of research in Parkinson disease”)

Jankovic J, Sherer T

JAMA Neurol. 2014 Nov 1;71(11):1351-2

Abstract: Existem muitas perguntas ainda sem respostas sobre doença de Parkinson (DP), mas como resultados de avanços em genética, proteômica, metabolômica, epigenética, imagem e outras novas técnicas, importantes progressos estão sendo feitos. Neste [texto de] ponto de vista, nós enfatizaremos aspectos das pesquisas futuras focadas no esclarecimento dos seguintes pontos críticos.

Comentário: Neste pequeno texto escrito por uma das maiores autoridades em DP no mundo (Prof. Joseph Jankovic), os autores fazem um resumo do que sabemos de novo sobre fisiopatologia, diagnóstico e tratamento em DP e quais os mais prováveis caminhos das pesquisas nos próximos anos. Baseados na série de fracassos em medicações potencialmente “neuroprotetoras” ou modificadores de doença, acredita-se que os novos tratamentos para DP serão ainda baseados no sistema dopaminérgico, com melhora da eficácia dos métodos atuais, como novas e mais eficazes vias de administração de levodopa e sistemas adaptativos de DBS. Aparentemente, os autores não estão muito otimistas quanto ao surgimento de novas descobertas baseadas em sistemas não-dopaminérgicos. Vale a pena conferir!

Link: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/25178587

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Imagem na doença de Parkinson prodrômica – O Estudo “Parkinson Associated Risk Syndrome” (PARS)

(“Imaging prodromal Parkinson disease: The Parkinson Associated Risk Syndrome Study”)

Jennings D, Siderowf A, Stern M, Seibyl J, Eberly S, Oakes D, Marek K; PARS Investigators

Neurology. 2014 Nov 4;83(19):1739-46

Abstract: Objetivo: O propósito deste estudo é avaliar o risco relativo de uma neuroimagem anormal para o transportador de dopamina (DAT) em indivíduos com e sem hiposmia, e a exequibilidade de uma estratégia de recrutamento [de voluntários] para avaliação de biomarcador, ampla, baseada em comunidade e em duas etapas, para detecção de DP prodrômica. Métodos: Neste estudo observacional, os indivíduos sem diagnóstico de DP, recrutados em 16 clínicas de distúrbios de movimento, foram submetidos às avaliações da primeira etapa (testes olfatórios, questionários). As avaliações da parte 2 (exame neurológico, imagem por DAT e avaliação de outros biomarcadores) foram realizadas por 303 indivíduos. O principal desfecho do estudo é comparar a razão de ligação de [123I]β-CIT estriatal esperada para idade entre indivíduos com hiposmia e normosmia. Resultados: As avaliações da parte 1 foram enviadas por correspondência a 9398 indivíduos elegíveis e retornaram 4999 respondidas; 669 tinham hiposmia. 303 indivíduos (203 com hiposmia e 100 normosmia) completaram as avaliações iniciais. O déficit de DAT esteve presente em 11% dos indivíduos com hiposmia comparados com 1% dos indivíduos com normosmia. A regressão logística múltipla demonstra que hiposmia (OR 12.4; IC95% 1.6-96.1), sexo masculino (OR 5.5; IC95% 1.7-17.2) e constipação (OR 4.3; IC95% 1.6-11.6) como fatores preditivos de déficit de DAT. Combinando fatores múltiplos (hiposmia, sexo masculino e constipação), houve aumento na percentagem de indivíduos com déficit de DAT para > 40%. Conclusão: Indivíduos com déficit de DAT que não preencham critérios para diagnóstico de DP podem ser identificados por testes olfatórios. A avaliação sequencial de biomarcadores pode identificar aquelas pessoas em risco de DP. Selecionar indivíduos com hiposmia enriquece a população para déficit de DAT, e combinar hiposmia com outros potenciais fatores de risco (sexo masculino, constipação) aumenta a porcentagem de indivíduos com um déficit de DAT compatível com DP prodrômica.

Comentário: Este é um trabalho muito bom, com conclusões interessantes. Sabemos que há vários biomarcadores com potencial papel na detecção de DP em uma fase pré-clínica (ou prodrômica, na linguagem dos autores do artigo), porém eles isoladamente não são bons. Este estudo testou a hipótese de se usar biomarcadores diferentes (clínicos e de imagem), de modo sequencial, para se rastrear quais pacientes maiores chances de desenvolver DP no futuro numa casuística de indivíduos parentes de primeiro grau de portadores de DP. Eles fizeram o modelo de seleção das pessoas mais suscetíveis passando inicialmente por um poderoso biomarcador clínico e de baixo custo, o teste de olfato UPSIT para detectar hiposmia, e um questionário sobre outros conhecidos fatores de risco (constipação, depressão etc). Em uma segunda etapa, os indivíduos que continuaram no estudo foram submetidos a um estudo de imagem que avalia a captação de DAT no estriado (marcador de degeneração da via nigroestriatal). Os autores mostraram que, se selecionarmos na população pessoas com hiposmia, elas terão maior risco de ter déficit de captação estatal de DAT do que pessoas com normosmia.

Obviamente, isso não significa que todas essas pessoas com déficit de DAT sem sintomas neurológicos irão categoricamente ter DP, mas os estudos mostram claramente que elas têm maior risco. É fundamental que esses pacientes do estudo sejam seguidos longitudinalmente, e se detecte no futuro quantos destes “predestinados” realmente terão DP. Até lá, vale a informação de que o uso do teste de olfato na população para se selecionar potenciais pessoas com DP em fase pré-clínica realmente é uma boa estratégia.

Link: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/25298306

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Salivação excessiva em doença de Parkinson: uma revisão

(“Drooling in Parkinson’s disease: A review”)

Srivanitchapoom P, Pandey S, Hallett M

Parkinsonism Relat Disord. 2014 Aug 27 [Epub ahead of print]

Abstract: A DP é uma doença neurodegenerativa que causa tanto sintomas motores como não-motores. A salivação excessiva, um maior acúmulo e maior deslocamento da saliva para fora da cavidade oral, é um dos sintomas não-motores em DP que mais produz consequências físicas e psicossociais negativas para os pacientes e seus cuidadores. No momento, a fisiopatologia da salivação excessiva na DP não está totalmente esclarecida; entretanto, a redução da remoção salivar intraoral é provavelmente a principal causa. Não há critérios diagnósticos definidos nem instrumentos de avaliação de gravidade na avaliação da salivação excessiva. Baseando-se na provável fisiopatologia, os agentes dopaminérgicos têm sido usados para melhorar a remoção de saliva; entretanto, estes agentes não são muito eficazes no controle da salivação excessiva. Vários tratamento farmacológicos e não-farmacológicos têm sido estudados. A injeção local com toxina botulínica tipo A e B nas principais glândulas salivares é a terapia mais efetiva para se controlar a salivação excessiva. Novas pesquisas para se explorar a exata fisiopatologia, e se desenvolver critérios diagnósticos e instrumentos de avaliação padronizados são necessários para se formular opções terapêuticas e melhorar o tratamento aos pacientes.

Comentário: Antes de falar do artigo, apenas um esclarecimento linguístico: o termo usado pelos autores (“drooling”) é traduzido livremente em português como “baba”, “babação”, e os autores reforçam que “drooling” não é igual a sialorreia, que eles conceituam com um aumento excessiva na produção de saliva. Quando os autores usam o termo “drooling”, eles se referem principalmente à saída anormal de saliva da boca por dificuldade em manter a saliva dentro da cavidade oral e por dificuldade na remoção da saliva por meio da deglutição. Para não usar o termo “babar”, eu traduzi “drooling” como salivação excessiva.

Este é um bom artigo de revisão sobre este sintoma não-motor comum na DP avançada e em outras doenças neurológicas, que gera muito estigma social aos pacientes e está associado a uma queda na saúde bucal das pessoas. O artigo mostra que não há boas opções de medicações por via oral ou tópica oral e nem de medidas não-farmacológicas para o tratamento da salivação excessiva. Atualmente, o melhor tratamento é a aplicação de toxina botulínica nas glândulas parótidas e submandibulares, tanto a do tipo A quanto tipo B, e nas formas mais comuns existentes no mercado brasileiro (Botox®, Dysport® e Xeomin®). Artigo didático, com várias tabelas e figura mostrando a técnica de aplicação de toxina botulínica nas glândulas salivares. Leitura fundamental e GRATUITA!

Link: http://www.prd-journal.com/article/S1353-8020(14)00311-3/pdf

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