Atualizações em Distúrbios de Movimento – Nov/14

Publicado: 25/12/2014 em Distúrbios de Movimento
Tags:, , , , ,

Distúrbios de movimento: descobertas em fisiopatologia e tratamento 

(“Movement disorders: discoveries in pathophysiology and therapy”)

Berg D, Deuschl G

Lancet Neurol. 2015 Jan;14(1):9-11

Abstract: Não há.

Comentário: Fim de ano, e a revista Lancet Neurology dá seu presente como de costume. Este ano, o resumo dos avanços mais importantes na área de Distúrbios de Movimento foi escrito pelo célebre Prof. Günther Deuschl e por Daniela Berg, uma pesquisadora cada vez mais influente na comunidade acadêmica. Vamos citar os melhores avanços:

Avanços na fisiopatologia da doença de Parkinson (DP): Mesmo com boas evidências surgindo desde o ano passado, foi esse ano que o conceito de disseminação das sinucleinopatias por um mecanismo “príon-like” ganhou robustez. E não apenas na DP; os mesmos mecanismos de “contaminação proteica” foram vistos também em modelos experimentais de doença de Huntington. Prof. Braak deve estar sorrindo a toa.

Tratamento imunológico para DP: Após vários artigos com modelos animais mostrando um clearance de corpos de Lewy em animais submetidos à imunização com anticorpos anti-alfa-sinucleína, o primeiro ensaio clínico em humanos foi conduzido, porém seus resultados ainda não foram publicados. Aparentemente ninguém morreu e já garantiram o estudo fase 2.

Tratamento clínico precoce com levodopa: Mais uma pá de cal para enterrar os “levodopa-fóbicos”: o estudo PD MED mostrou que, além de não acelerar a progressão da DP, o uso inicial de levodopa em detrimento de medicações não-dopaminérgicas melhorou parâmetros da qualidade de vida dos pacientes.

Tratamento de distonias refratárias com deep brain stimulation (DBS): Um estudo em pacientes com distonia cervical grave e refratária à toxina botulínica mostrou que o DBS posto no globo pálido interno (GPi) pode melhorar em até 25% estes quadro distônicos de difícil tratamento. Provavelmente o GPi será mais uma vez revisitado pelos neurocirurgiões funcionais para tratamento de outras distonias focais refratárias.

Link: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/25496883

——————————————————————————————————————————————————————

Miorritmia: Fenomenologia, etiologia e tratamento

(“Myorhythmia: Phenomenology, etiology, and treatment”)

Baizabal-Carvallo JF, Cardoso F, Jankovic J

Mov Disord. 2014 Dec 9. doi: 10.1002/mds.26093. [Epub ahead of print]

Abstract: Miorritmia é definida como um movimento repetitivo, rítmico e lento (1-4 Hz) que afeta principalmente músculos craniais e de membros. Quando ocorre nos membros, pode ser [um movimento] oscilatório e “em repuxo”, enquanto que a miorritmia oculomastigatória, tipicamente associada à doença de Whipple, é um movimento ocular e facial lento, repetitivo e geralmente assimétrico. Portanto, a miorritmia se sobrepõe fenomenologicamente com tremores e mioclonias segmentares. Mesmo que frequentemente esteja presente em repouso, ela deve ser distinta de tremor parkinsoniano e tremor distônico. O reconhecimento deste distúrbio de movimento é importante por estar geralmente associado com lesões que envolvem o tronco encefálico, tálamo e outras estruturas diencefálicas, havendo causas potencialmente tratáveis. Além da doença de Whipple, a miorritmia tem sido descrita em pacientes com doença cerebrovascular, encefalite por Listeria, encefalite anti-receptor NMDA, encefalopatia responsiva à esteroides associada à tireoidite autoimune, esclerose múltipla e outros transtornos. Além de nossa experiência, nós revisamos sistematicamente a literatura médica, focando na fenomenologia, fisiopatologia e etiologia deste distúrbio de movimento pouco conhecido. Nesta revisão, nós almejamos focar nos aspectos clínicos que diferenciam a miorritmia de outros distúrbios de movimento. O tratamento deve ser direcionado contra a etiologia associada.

Comentário: Como a maioria das pessoas, a miorritmia para mim também é sinônimo de “miorritmia oculomastigatória” e de “doença de Whipple”. Sem dúvidas, é um distúrbio de movimento pouco compreendido e subdiagnosticado, mas isso se deve à série de informações nebulosas que ronda a fisiopatologia e o diagnóstico deste movimento involuntário. Os autores deste artigo (dentre eles, o grande professor brasileiro Francisco Cardoso, um das minhas principais influências na área) se preocuparam em separar os fatos das evidências de baixo nível e nos brindaram com essa revisão sobre miorritmias. Em todos estes anos estudando distúrbios de movimento, acho que é a primeira vez que vejo um texto tão bom sobre o assunto. Mesmo nos livros-texto mais comuns da área, o tema fica misturado com outros distúrbios de movimento. Além disso, há dois vídeos mostrando exemplos de miorritmia facial com fenômenos oculomastigatórios (Whipple) e miorritmia em membros. Nem preciso dizer que o artigo é imperdível para os interessados.

Link: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/25487777

——————————————————————————————————————————————————————

Deficiência de noradrenalina na doença de Parkinson: a situação para um incremento noradrenérgico

(“Norepinephrine deficiency in Parkinson’s disease: The case for noradrenergic enhancement”)

Espay AJ, LeWitt PA, Kaufmann H

Mov Disord. 2014 Dec;29(14):1710-9

Abstract: A resposta dramática da maioria dos sintomas motores e não-motores às terapias dopaminérgicas tem contribuído para a identidade de longa data da DP como uma síndrome de deficiência de dopamina (DA) nigroestriatal. Entretanto, a neurotransmissão dopaminérgica pode não ser a primeira nem a principal perda de neurotransmissor na sequência neurodegenerativa da DP. Evidências crescentes mostram uma deficiência de noradrenalina (NA) resultante da degeneração seletiva de neurônios do locus coeruleus e dos gânglios simpáticos. Entretanto, a terapia de reposição dopaminérgica parece negligenciar alguns problemas motores, comportamentais, cognitivos e autonômicos, que são associados direta e indiretamente com a deficiência de NA no encéfalo e outros lugares. As estratégias terapêuticas para incremento na neurotransmissão noradrenérgica têm sido submetidas apenas a testes farmacológicos limitados. No momento, estas abordagens incluem inibição seletiva de recaptação de NA, bloqueio de receptor α2-adrenérgico pré-sináptico, e uma prodroga da NA, o aminoácido artificial L-treo-3,4-dihidroxifenilserina. Além de reduzir as consequências da sinalização noradrenérgica deficiente, as estratégias de incremento têm o potencial de aumentar os efeitos da terapia dopaminérgica na DP. Além disso, o reconhecimento precoce das várias manifestações clínicas associadas à deficiência de NA, que podem preceder o surgimento de sintomas motores, pode fornecer uma janela de oportunidade para intervenções neuroprotetoras.

Comentário: A época em que DP era sinônimo de depleção dopaminérgica já passou. Vários neurotransmissores têm sido pesquisados como possíveis alternativas para explicar, e isso inclui a NA, uma das bioaminas que fazem parte da cadeia de geração da DA. Uma série de evidências experimentais e neuropatológicas mostram que a neurodegeneração da DP afeta o principal núcleo noradrenérgico, o locus coeruleus, causando vários potenciais sintomas. Este artigo de revisão aborda esta série de evidências, além de explorar as possibilidades terapêuticas farmacológicas associadas à NA. Dentre elas, uma das mais interesantes drogas é a droxidopa, uma substância transformada nos neurônios em NA, que mostrou boa eficácia na hipotensão ortostática.

Link: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/25297066

comentários
  1. Uma pena que o de Miorritmia não seja de acesso livre.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s