Atualizações em Neurologia Cognitiva – Nov/14

Publicado: 30/12/2014 em Neurologia Cognitiva
Tags:, , , , , ,

Doença de Alzheimer e outras demências: avanços em 2014

(“Alzheimer’s disease and other dementias: advances in 2014”)

Bateman R

Lancet Neurol. 2015 Jan;14(1):4-6

Abstract: Não há.

Comentário: Mais um texto de fim de ano da Lancet Neurology, agora na área de Neurologia Cognitiva. Nesta área, não tivemos grandes abalos, e algumas promessas se mostraram falsos messias. Citemos os destaques:

Tratamento imunológico para doença de Alzheimer (DA): Dois grandes ensaios clínicos fase 3 foram malsucedidos em mostrar eficácia no tratamento da DA, baseados em anticorpmos monoclonais anti-beta amiloide: o bapinezumab e o solanezumab. Os tratamentos conseguiram mostrar algumas melhoras em marcadores de carga amiloide, porém não mostraram benefícios clínicos. Outro anticorpo, o crenezumab, mostrou alguma melhora clínica quando feito em pacientes na fase inicial da doença. Talvez estejamos errando o tempo da intervenção: há boas perspectivas de uma interferência na história natural da DA se fizermos em uma fase pré-clínica. Mas para isso, precisamos detectar QUEM terá a doença antes dos sintomas…

Estudos com DA familiar: E como melhor detectar DA do que seguir os indivíduos assintomáticos de famílias com padrão de herança dominante? Para isso, três novas iniciativas mundiais surgiram (incluindo um estudo colombiano) para acompanhar estas pessoas. A ideia é estudar os biomarcadores da doença em uma população em risco de desenvolver a condição, e possivelmente também testar estas medicações que estão surgindo. Talvez alguma destas novas terapias impeça que uma pessoa fadada a ter DA no futuro desenvolva a doença.

Outros tratamentos: Além das imunoterapias em DA, outro ramo terapêutico é o uso de inibidores da beta-secretase, terapias direcionadas à redução da proteína tau e ligadas à apolipoproteína E. Destas três classes de intervenções, apenas os inibidores da beta-secretase estão sendo testados em estudos clínicos fase 2 e 3.

Imagem da carga de proteína tau: Certamente poder acessar informações sobre a carga de proteína beta-amiloide no encéfalo sem biópsias ou punções foi um avanço extraordinário. Grosso modo, podemos “ver” as placas neuríticas com um simples exame de imagem (tomografia de emissão de pósitrons – PET). Contudo, a fisiopatologia da cascata amiloide é apenas um lado da história da DA, e isso pode ser percebido muito bem nos repetidos fracassos de terapias que reduzem carga amiloide. Agora, a proteína tau também poderá ser detectada em exames de PET, e sua utilidade extrapola o modelo da DA para todas as taupatias, como demências frontotemporais e a paralisia supranuclear progressiva.

Link: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/25496880

——————————————————————————————————————————————————————

Efeitos sinápticos dos canabinoides: complexidade, efeitos comportamentais e potenciais implicações clínicas

(“Synaptic effects of cannabinoids: Complexity, behavioral effects, and potential clinical implications”)

Benarroch EE

Neurology. 2014 Nov 18;83(21):1958-67

Abstract: A descoberta do delta-9-tetrahidrocanabinol (THC) como o principal in gradiente psicoativo na cannabis (maconha), a clonagem dos receptores canabinoides CB1R e CB2R, e a identificação dos endocanabinoides como seus ligantes endógenos têm estimulado extensas pesquisas sobre o papel do sistema canabinoide na regulação sináptica no sistema nervoso central. Os dois principais endocanabinoides no sistema nervoso são o 2-aracdonoil glicerol (2-AG) e o N-aracdonoil etanolamida (também conhecido como anandamida). Eles são mediadores lipídicos liberados por neurônios sob demanda, em resposta à atividade sináptica excitatória. Os endocanabinoides funcionam primariamente como mensageiros que agem retrogradamente inibindo a liberação de neurotransmissores via receptores CB1 pré-sinápticos, os quais estão distribuídos principalmente em terminais gabaérgicos e, em menor número, em terminais glutamatérgicos e outros. A sinalização endocanabinoide retrógrada participa em vários mecanismos de plasticidade (depressão) de curto e longo prazo em sinapses inibitórias e excitatórias. Os endocanabinoides podem também atuar via receptores CB1 pós-sinápticos e, no caso da anandamida, em potenciais receptores transitórios, canais vaniloide tipo 1 (TRPV1). Os endocanabinoides também medeiam interações entre neurônios e diferentes tipos de células gliais, regulando não apenas a plasticidade sináptica, mas também respostas inflamatórias no sistema nervoso central. Por todos estes mecanismos, os endocanabinoides afetam as atividades de redes neurais envolvidas em cognição, emoção, adição e comportamento de alimentação, controle motor e processamento de dor, e participam de mecanismos de neuroproteção. Sendo assim, pode considerar o sistema canabinoide como um alvo terapêutico potencial, com consequente progressivo interesse no uso da maconha no tratamento de condições neurológicas específicas. Todos estes tópicos foram objeto de várias revisões extensas.

Comentário: É sempre um prazer ler as revisões do Prof. Eduardo Benarroch na revista Neurology, um neurologista atípico por sua imensa competência clínica e pela profundidade nos conhecimentos de Fisiologia. Desta vez, ele se voltou para um sistema de neurotransmissão cada vez mais estudado e bastante badalado, dada a sua relação com a erva Cannabis sativa, a maconha. O autor faz uma extensa revisão dos papeis fisiológicos dos canabinoides endógenos (que todos temos, sem usar maconha!), o 2-AG e a anandamida, e seus receptores principais (CB1 e CB2), além de analisar seus efeitos em vários circuitos do sistema nervoso central, assim como as possíveis implicações clínicas da modulação do sistema endocanabinoide, como nas epilepsias, mecanismos de adição, memória e distúrbios de movimento. O artigo é ideal para todos os que não têm uma boa noção de como funciona o sistema endocanabinoide e querem se iniciar no assunto. As referências bibliográficas do artigo estão repletas de outras revisões mais específicas.

Como muitos sabem, houve uma grande discussão recente na mídia sobre a aprovação do uso do canabidiol (um derivado da maconha que não tem propriedades psicoativas e aditivas – ou seja, não “dá barato” e não vicia) em casos isolados de síndromes epilépticas refratárias, e agora nós neurologistas temos a permissão do CFM para prescrevê-lo em situações específicas. Logo, é fundamental que todo neurologista tenha ao menos uma vaga noção de como o canabidiol e outros derivados da maconha podem agir no tratamento de doenças neurológicas.

Link: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/25339212

——————————————————————————————————————————————————————

Imagem da proteína tau: progressos recentes e direções futuras

(“Tau imaging: early progress and future directions”)

Villemagne VL, Fodero-Tavoletti MT, Masters CL, Rowe CC

Lancet Neurol. 2015 Jan;14(1):114-124

Abstract: O uso de imagem seletiva in vivo da proteína tau permitirá um melhor entendimento da agregação da proteína tau no encéfalo, facilitando as pesquisas sobre etiologia, diagnóstico e tratamento das principais taupatias como DA, paralisia supranuclear progressiva, síndrome corticobasal, encefalopatia traumática crônica, e algumas variantes de degeneração lobar frontotemporal. Os estudos neuropatológicos de DA mostram uma forte associação entre depósitos de tau, redução da função cognitiva e mudanças neurodegenerativas. A imagem seletiva da tau permitirá que exploração in vivo destas associações e quantificará as mudanças globais e regionais nos depósitos de tau ao longo do tempo, fornecendo ideias sobre o papel que a tau exerce no envelhecimento e ajudando a se estabelecer uma relação entre cognição, genótipo, neurodegeneração e outros biomarcadores. Uma vez validada, a imagem de proteína tau pode ser útil como biomarcador diagnóstico, prognóstico e de progressão, e um marcador substitutivo para a avaliação da eficácia e no recrutamento de pacientes para ensaios clínicos de terapêuticas anti-tau.

Comentário: Conforme comentado no primeiro resumo, o surgimento de novos biomarcadores de imagem que sejam seletivos para as duas principais moléculas envolvidas na DA, a beta-amiloide e proteína tau, é vital nesta área. Estes novos biomarcadores podem ser mais úteis que os testes cognitivos atuais na detecção de pessoas em risco de ter DA no futuro, e talvez possíveis candidatos a novas terapias modificadoras de doença. Detectar os locais no encéfalo onde há concentrações anormais de proteína tau in vivo é o principal tema deste artigo de revisão, que nos fornece uma ampla abordagem desde a fisiopatologia da tau até os detalhes de como selecionar um ligante ideal para PET. Até o momento, existem menos de cinco tipos de radioligantes seletivos para proteína tau, com destaque para o 18F-THK5105 e o 18F-THK5117, ambos produzidos no Japão, e o 18F-T807 e o 18F-T808, produzidos nos EUA. Eles apresentam um poder de ligação à tau maior que o composto Pittsburgh à beta-amiloide, assim como uma maior especificidade. Os autores também comentam sobre as dificuldades de se padronizar um biomarcador deste tipo e os futuros desafios técnicos.

Link: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/25496902

——————————————————————————————————————————————————————

Complexidade ocupacional e habilidades cognitivas ao longo da vida

(“Occupational complexity and lifetime cognitive abilities”)

Smart EL, Gow AJ, Deary IJ

Neurology. 2014 Dec 9;83(24):2285-91

Abstract: Objetivo: Examinar as associações entre complexidade da principal ocupação durante a vida e performance cognitiva na velhice. Métodos: Pontuações de complexidade ocupacional para dados, pessoas e coisas foram coletadas do Dictionary of Occupational Titles para 1066 indivíduos (homens = 534, mulheres = 532) na Coorte de Nascimento de Lothian 1936. Os dados de QI foram avaliados quando os indivíduos tinham uma idade média de 11 anos. As habilidades cognitivas nos domínios de habilidades gerais, velocidade de processamento e memória foram avaliadas quando os indivíduos tinham uma idade média de 70 anos. Resultados: As análises dos modelos lineares gerais indicaram que complexidade da profissão com pessoas e dados esteve associada a uma melhor performance cognitiva aos 70 anos, mesmo após se considerar o QI aos 11 anos, tempo de escolaridade e privação social. Conclusões: Os presentes achados suportam as hipóteses de preservação diferencial, na qual ambientes mais estimulantes preservam a habilidade cognitiva na velhice, mesmo que seus efeitos no decorrer da terceira idade ainda sejam discutidos. Estudos que tenham quantificado as habilidades cognitivas na velhice são raros, e o estudo atual oferece um interessante panorama para as futuras investigações que possam contribuir para o entendimento do envelhecimento bem-sucedido.

Comentário: Este não é exatamente um artigo de Neurologia, mas nos dá informações muito interessantes. Há uma teoria de que pessoas com ocupações mais desafiadoras e complexas durante a vida terão habilidades cognitivas melhores ao envelhecerem, e sendo assim, teriam uma “reserva cognitiva” maior, que os protegeria das demências na velhice. Os autores do trabalho fizeram assim: um grupo de crianças escocesas nascidas em 1936 (com 11 anos) fez um teste de QI em 1947. Estas crianças se tornaram adultos e tiveram suas vidas. Aos 70 anos, os sobreviventes foram novamente recrutados e submetidos a vários testes psicométricos para habilidades cognitivas. O principal desfecho deste trabalho foi como estas habilidades cognitivas se relacionariam com a complexidade das profissões que estas pessoas desenvolveram durante a vida, de acordo com a interação com “informações”, “pessoas” e “coisas” (entenda-se coisas como trabalhos manuais). Após excluir as possíveis interações com a inteligência basal dos indivíduos, seu estado socioeconômico e grau de escolaridade, o estudo mostrou que pessoas com profissões mais complexas para “informações” e “pessoas” tiveram maior velocidade de processamento e conhecimento geral. Trocando em miúdos, as pessoas que trabalharam com tarefas mais intelectuais e sociais tiveram um desempenho cognitivo melhor do que os indivíduos que exerceram tarefas físicas ao longo da vida. Para as mulheres da coorte, a profissão associada a melhor desempenho foi a de professora, e para homens, as profissões associadas a gerenciamento e comando foram as mais relacionadas a um bom desempenho na velhice.

Sendo assim, é possível que aqueles dentre nós que escolheram profissões mais desafiadoras e de execução complexa, que envolvam lidar com pessoas e manipular informações tenham um menor risco de desenvolver demências no futuro. Isso independente de sermos mais ricos ou pobres, de termos mais ou menos escolaridade, ou de sermos mais ou menos inteligentes desde a infância. Lógico, todos essas fatores também influenciam (ou covariam) com o desempenho cognitivo na velhice, mas o que optamos (ou não) por exercer pelo resto de nossas vidas também é um fator determinante da saúde mental tardia. É preciso dizer que, pelo próprio desenho retrospectivo do estudo e pela insondável quantidade de variáveis que modulam a cognição humana, que esses resultados são discutíveis. O estudo pode ser lido NA ÍNTEGRA e GRATUITAMENTE no link abaixo.

Link: http://www.neurology.org/content/83/24/2285.full.pdf+html

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s