Atualizações em Distúrbios do Movimento – Jan/15

Publicado: 24/02/2015 em Distúrbios de Movimento
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Atualização em doença de Huntington: avanços nos cuidados e opções terapêuticas emergentes

(“Update on Huntington’s disease: Advances in care and emerging therapeutic options”)

Zielonka D, Mielcarek M, Landwehrmeyer GB

Parkinsonism Relat Disord. 2014 Dec 19. [Epub ahead of print]

Abstract: Introdução: A doença de Huntington (DH) é a doença neurodegenerativa hereditária mais comum. Apesar da identificação do gene e da mutação causadora desta doença monogenética há mais de 20 anos, ainda não foram estabelecidos tratamentos modificadores de doença. Revisão: Enquanto intensas pesquisas pré-clínicas e grandes estudos de coorte em DH tornaram possíveis a identificação de alvos para intervenções terapêuticas e desenvolvimento de novas modalidades terapêuticas (novos compostos e terapias avançadas que usam moléculas de DNA e RNA como agentes terapêuticos), este ainda é um processo em andamento. Os autores revisaram as recentes descobertas na pesquisa em DH e focaram nas terapias modificadoras de doença, desde estratégias para se reduzir a huntingtina à melhora na retirada de huntingtina através de modificações pós-traducionais da HTT. Conclusão: A natureza e o número de novos ensaios/estudos clínicos em DH é um motivo de esperança para os pacientes com DH e seus familiares.

Comentário: Interessante revisão sobre novos tratamentos de DH, principalmente por focar grande parte no texto em possíveis terapias genéticas com RNA de interferência e agentes modificadores da acetilação das histonas. O artigo também tem bons algoritmos práticos para manejo da coreia, transtorno depressivo e comportamento obsessivo-compulsivo. Leitura rápida e muito válida.

Link: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/25572500

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Exercício para prevenção de quedas na doença de Parkinson

(“Exercise for falls prevention in Parkinson disease: A randomized controlled trial”)

Canning CG, Sherrington C, Lord SR, Close JC, Heritier S, Heller GZ, Howard K, Allen NE, Latt MD, Murray SM, O’Rourke SD, Paul SS, Song J,Fung VS

Neurology. 2015 Jan 20;84(3):304-12

Abstract: Objetivo: Determinar se as quedas podem ser prevenidas com exercícios minimamente supervisionados focando em fatores de risco modificáveis para quedas, como desequilíbrio, fraqueza em membros inferiores e congelamento de marcha, em pessoas com doença de Parkinson (DP). Métodos: 231 pessoas com DP foram randomizadas em um grupo exercício e outro grupo controle com cuidados habituais. Os exercícios foram praticados por 40 a 60 minutos, três vezes por semana durante 6 meses. Os desfechos primários foram taxa de quedas e proporção de pessoas que caíram durante o período da intervenção. Os desfechos secundários foram físicos (equilíbrio, mobilidade, congelamento de marcha, atividade física habitual), psicológicos (medo de cair, afeto), e medidas de qualidade de vida. Resultados: Não houve diferença significativa entre os grupos na taxa de quedas (IRR = 0.73, IC95% 0.45-1.17; p = 0.18) ou na proporção de pessoas que caíram (p = 0.45). A análise pré-planejada de subgrupos revelou uma interação significativa com a gravidade dos sintomas (p < 0.001). No subgrupo com doença mais leve, houve menos quedas no grupo exercício (IRR = 1.61, IC95% 0.86-3.03; p = 0.13). Após o período de intervenção, o grupo exercício pontuou significativamente melhor (p < 0.05) que controles na Bateria Curta de Performance Física, teste de sente e ficar em pé, medo de queda, afeto e qualidade de vida, após ajuste para a performance inicial. Conclusões: Um programa de exercícios focado em equilíbrio, força das pernas e em congelamento de marcha não reduziu as quedas, mas melhorou a saúde física e psicológica. As quedas foram reduzidas em pessoas com doença mais leve, mas não naqueles com doença mais avançada. Classificação da evidência: Este estudo fornece uma evidência classe III de que, em pacientes com DP, um programa de exercícios minimamente supervisionado não reduz as quedas. Este estudo não mostrou com precisão se há redução moderada ou aumento discreto no risco de quedas com o exercício.

Comentário: Este é um estudo bem interessante. Conforme outros artigos já comentados no JEAN, a prática de exercícios físicos e treinos específicos (tai-chi, tango) melhora alguns aspectos relacionados com a estabilidade postural na DP, assim como reduz o risco de quedas. Como sabemos, geralmente é problemático para um paciente idoso se deslocar para fazer um treino fora de casa, principalmente se ele tiver DP, ou ter um educador físico domiciliar. Os autores deste estudo projetaram um programa de exercícios voltado para a prática em casa, sem supervisão direta de profissionais de educação física, porém apenas com sessões mensais de orientação especializada, durante 6 meses. Este programa de exercícios físicos visou trabalhar principalmente as habilidades de equilíbrio, marcha e força de membros inferiores (o protocolo de exercícios pode ser visto no link http://www.webb.org.au/attachments/File/WEBB_draft_19.pdf).

Os resultados finais mostraram que esta modalidade de programa de exercícios físicos sem um educador físico diretamente presente não reduziu o número de quedas no grupo onde foi aplicado o protocolo, porém houve melhora em vários outros aspectos físicos e psicológicos, como no medo de cair. Além disso, o programa de exercício foi significativamente eficaz em reduzir quedas apenas nos pacientes com DP inicial, mostrando que esta iniciativa deve ser mais explorada, principalmente nos pacientes com poucos sintomas motores.

Link: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/25552576

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Alfa-sinucleína na mucosa colônica carece de especificidade como biomarcador para doença de Parkinson

(“Colonic mucosal α-synuclein lacks specificity as a biomarker for Parkinson disease”)

Visanji NP, Marras C, Kern DS, Al Dakheel A, Gao A, Liu LW, Lang AE, Hazrati LN

Neurology. 2015 Jan 14 [Epub ahead of print]

Abstract: Objetivo: Determinar a utilidade da detecção de alfa-sinucleína (aSyn) em tecido de biópsia de mucosa colônica como um biomarcador diagnóstico para DP. Métodos: Nós usamos o “blot” de tecido em parafina, que degrada a aSyn fisiológica não-agregada usando proteinase K e melhora a recuperação antigênica que permite a detecção mais sensível e seletiva dos agregados proteicos remanescentes, para detectar aSyn em biópsias de mucosa colônica de 15 pacientes com DP inicial (< 3 anos de doença), 7 pacientes com DP avançada (> 5 anos), e 11 indivíduos sem DP. aSyn e aSyn fosforilada na serina 129 (Ser129p-aSyn) foram avaliadas pelo blot com tecido em parafina e por imunohistoquímica convencional. Resultados: Os agregados de aSyn e de Ser129p-aSyn resistentes ao “blot” em parafina estavam presentes em 12 dos 15 indivíduos com PD inicial, 7 dos 7 indivíduos com DP avançada, e 11 dos 11 indivíduos controle. O número de biópsias positivas para o “blot” em parafina, em relação à imunohistoquímica convencional, foi significativamente menor nos grupos com DP quando comparados aos controles, tanto para aSyn quanto para Ser129p-aSyn, enquanto que a imunohistoquímica de rotina (convencional) foi positiva mais frequentemente nos grupos DP, mas também foi positiva em 9 dos 11 indivíduos controle. Conclusão: A forte evidência da presença de aSyn hiperfosforilada agregada em indivíduos com e sem DP, através de um método sensível e específico como o “blot” em parafina, sugere que a deposição colônica de aSyn não é um teste biomarcador útil para DP. A utilidade de se detectar aSyn no cólon como um biomarcador, em combinação com outras avaliações, ainda precisa ser esclarecida.

Comentário: Voltemos a um dos meus assuntos preferidos: biomarcadores na DP. Nos últimos 5 anos, temos visto vários estudos apontando para uma estranha presença excessiva de aSyn no trato gastrointestinal de pessoas que têm DP, incluindo o cólon. Vários trabalhos mostraram a presença de neuritos de aSyn na região da submucosa colônica em pacientes com DP, poupando pessoas sem a doença. Tudo levava a crer que a biópsia de cólon talvez se tornasse uma ferramenta na tão sofrida corrida pelo diagnóstico precoce da DP. O trabalho acima vai de encontro a esta lógica de raciocínio: os autores mostraram que, na região mucosa do cólon, tanto indivíduos sem DP quanto os pacientes com a doença possuem considerável presença da proteína agregada, e deste modo, é impraticável se usar a presença de aSyn no cólon como biomarcador de DP.

Os pesquisadores que fizeram este trabalho são extremamente competentes e conhecidos, e, além disso, outros grupos já vinham mostrando a presença de aSyn no cólon de pessoas sem DP. Porém, acho que essa falta de especificidade deve ser mais bem investigada, pois sabemos que no mundo da imunohistoquímica pequenas variações de protocolo e de anticorpos provocam confusões terríveis. Também devemos ressaltar que os estudos clássicos dessa hipótese avaliaram submucosa de cólon, e não a mucosa.

Há alguns anos atrás, eu tentei iniciar um estudo sobre esse mesmo tema, e esbarrei em uma série de problemas metodológicos. Um deles era o fato de os colonoscopistas não quererem aprofundar a biópsia para captar a submucosa, pelo risco aumentado de sangramento no procedimento. Na verdade, eu confesso que minhas esperanças estavam na mucosa colônica também ser útil na detecção de aSyn na DP, para que não precisássemos de uma biópsia mais invasiva e que qualquer colonoscopia pudesse ser fonte de material. Este estudo foi banho de água fria. Espero que eles estejam errados, hehe.

Link: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/25589666

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