Atualizações em Neurologia Cognitiva – Jan/15

Publicado: 26/02/2015 em Neurologia Cognitiva
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Avaliação clínica e de imagem da disfunção cognitiva na esclerose múltipla

(“Clinical and imaging assessment of cognitive dysfunction in multiple sclerosis”)

Rocca MA, Amato MP, De Stefano N, Enzinger C, Geurts JJ, Penner IK, Rovira A, Sumowski JF, Valsasina P, Filippi M; for the MAGNIMS Study Group

Lancet Neurol. 2015 Feb 3. [Epub ahead of print]

Abstract: Em pacientes com esclerose múltipla (EM), os danos na substância cinzenta são difusos e podem estar associados a muitos sintomas clínicos, especialmente déficit cognitivo. Esta relação entre lesões na substância cinzenta e declínio cognitivo tem sido embasada por achados de estudos clínicos e com ressonância magnética. Entretanto, muitos aspectos do declínio cognitivo nos pacientes com EM ainda precisam ser caracterizados. Testes neuropsicológicos padronizados simples de se administrar e sensíveis para se detectar as anormalidades são necessários para melhorar o entendimento dos fatores que afetam a performance cognitiva na EM. Métodos de imagem da substância cinzenta são necessários, mas não suficientes para caracterizar plenamente o declínio cognitivo na EM. As medidas de imagem de substância branca lesionada e aparentemente normal são suporte à hipótese da existência de uma síndrome de desconexão que provoca o surgimento de sintomas clínicos. Achados sobre reorganização cortical sugerem a contribuição da plasticidade cerebral e reserva técnica na redução dos déficits cognitivos. O desenvolvimento de biomarcadores clínicos e de imagem que possam monitorar o avança da doença e a resposta aos tratamentos é crucial para se permitir a identificação precoce de pacientes com EM que estejam em risco de comprometimento cognitivo.

Comentário: Mesmo sendo uma condição relativamente comum na EM avançada, não é tão fácil achar artigos de revisão sobre os déficits cognitivos nesta doença, geralmente mais presentes na função executiva. Os autores reforçam o conceito cada vez mais forte de que a EM não é apenas uma doença de substância branca, mas afeta também a substância cinzenta cortical e subcortical, o que levaria a um declínio cognitivo; e também as clássicas lesões de substância branca, através de desconexão de determinados circuitos, também provoca o déficit cognitivo. A revisão foca principalmente em novas evidências oriundas de estudos envolvendo modalidades de RM.

Link: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/25662900

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Função cognitiva em mulheres com HIV: Achados do estudo WIHS

(“Cognitive function in women with HIV: Findings from the Women’s Interagency HIV Study”)

Maki PM, Rubin LH, Valcour V, Martin E, Crystal H, Young M, Weber KM, Manly J, Richardson J, Alden C, Anastos K

Neurology. 2015 Jan 20;84(3):231-40

Abstract: Objetivo: No maior estudo de coorte de desfechos neuropsicológicos em mulheres infectadas pelo HIV até o momento, nós examinamos a associação entre o estado da infecção do HIV e cognição, em relação a outros determinantes de função cognitiva (objetivo 1), e o padrão e magnitude do declínio nos desfechos cognitivos (objetivo 2). Métodos: De 2009 a 2011, 1521 participantes (com 1019 participantes HIV-positivos) do estudo “Women’s Interagency HIV Study” (WIHS) completaram uma bateria de testes neuropsicológicos. Nós usamos regressão multivariada nos escores brutos dos testes para o objetivo 1, e uma análise normativa baseada em regressão (t-score) para o segundo objetivo. O desenho do estudo foi transversal. Resultados: A magnitude dos efeitos para o estado da infecção pelo HIV sobre a cognição foi muito pequeno, correspondendo a apenas 0.05 até 0.09 DP de unidades [do escore do teste usado]. O efeito do HIV foi menor do que o efeito de fatores como escolaridade, idade, cor, renda e nível de leitura. Em análises ajustadas, as mulheres infectadas pelo HIV tiveram performances piores que mulheres não-infectadas no aprendizado verbal, evocação tardia e reconhecimento, e velocidade psicomotora e atenção. O maior déficit foi observado na memória tardia. A associação de baixos níveis de leitura com cognição foi maior nas infectadas pelo HIV, comparadas com as não-infectadas. Os biomarcadores do HIV (contagem CD4, presença de doenças definidoras de SIDA, carga viral) estiveram associados com a disfunção cognitiva. Conclusões: O efeito do HIV sobre cognição em mulheres é muito pequeno, exceto entre mulheres com baixo nível de leitura ou com comorbidades associadas ao HIV. Comparações diretas das taxas de disfunção em grupos bem pareados de homens e mulheres infectados pelo HIV são necessárias para avaliar possíveis diferenças de sexo na cognição.

Comentário: O título deste trabalho pode soar estranho, à primeira vista: por que mulheres com HIV-positivo teriam diferenças cognitivas, em relação aos homens infectados? O racional desta pergunta reside nas evidências de que mulheres apresentam maiores índices de baixa escolaridade e de nível de leitura, o que poderia influenciar suas taxas de declínios cognitivos. Avaliando grandes grupos de mulheres infectadas pelo HIV e não-infectadas, foram vistos déficits muito discretos em função executiva e na memória verbal nos indivíduos HIV-positivos, muito discretos mesmo. Do ponto de vista prático, este trabalho serve para mostrar que mulheres (e homens também) infectadas pelo HIV, e sem SIDA, não apresentam importante comprometimento cognitivo (mesmo as que usam terapia antirretroviral). Isto não tem relação com o complexo demência-SIDA.

Link: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/25540304

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Alterações divergentes na proteína tau no LCR em duas taupatias comuns: doença de Alzheimer e paralisia supranuclear progressiva

(“Divergent CSF τ alterations in two common tauopathies: Alzheimer’s disease and progressive supranuclear palsy”)

Wagshal D, Sankaranarayanan S, Guss V, Hall T, Berisha F, Lobach I, Karydas A, Voltarelli L, Scherling C, Heuer H, Tartaglia MC, Miller Z,Coppola G, Ahlijanian M, Soares H, Kramer JH, Rabinovici GD, Rosen HJ, Miller BL, Meredith J, Boxer AL

J Neurol Neurosurg Psychiatry. 2015 Mar;86(3):244-50

Abstract: Introdução: Proteína tau elevada no LCR é considerada um biomarcador de lesão neuronal nos critérios recentemente criados para doença de Alzheimer (DA) e comprometimento cognitivo leve (CCL). Entretanto, estudos prévios falharam em detectar alterações de espécies tau-derivadas em outras taupatias primárias. Nós avaliamos as anormalidades da proteína tau no LCR na DA, uma taupatia com proeminente patologia beta-amiloide, e na paralisia supranuclear progressiva (PSP), uma taupatia primária caracterizada pela deposição de proteína tau com repetições 4R, com mínima patologia beta-amiloide. Métodos: 26 controles normais (NC), 37 pacientes com DA e 24 pacientes com PSP participaram do estudo. Os grupos DA e PSP foram pareados pela gravidade, usando-se as pontuações do Clinical Dementia Rating (CDR) – Sum of boxes. O imunoensaio INNO BIA AlzBio3 foi usado para medir beta-amiloide, tau total e fosfo-tau181 no LCR. Adicionalmente, novos ensaios ELISA que tinham como alvo diferentes epítopos N-terminal e central da proteína tau foram desenvolvidos para se examinar os componentes da proteína tau no LCR e investigar as interações entre grupos diagnósticos, dados demográficos e variáveis genéticas. Resultados: PSP apresentou menores concentrações no LCR de proteína tau N-terminal e C-terminal que NC e DA, medidos com os novos protocolos ELISA e com o imunoensaio padrão AlzBio3. O grupo DA teve níveis mais altos de tau total e fosfo-tau que NC e PSP. Houve uma interação entre o gênero e a maioria das espécies derivadas da tau na DA e no PSP, com menores concentrações para homens em comparação com pacientes mulheres. Conclusões: As concentrações de fragmentos da proteína tau no LCR são diferentes na PSP comparadas com DA, a despeito da presença de neuropatologia tau e lesão neuronal em ambas as doenças. As concentrações de tau no LCR provavelmente refletem múltiplos fatores além do grau de lesão neuronal.

Comentário: Continuando a discussão sobre proteinopatias, este artigo nos lembra de um fato desconcertante: tanto DA quanto PSP são doenças com grande presença de proteína tau patologicamente agregada, mas apenas a DA tem altas concentrações de tau no LCR. Esse fenômeno na DA nos fez acreditar que a patologia tau no LCR é um marcador direto de morte neuronal. Porém, se isso for verdade, por que os níveis de tau no LCR de quem tem PSP são quase menores que o de pessoas normais? Para tentar esclarecer este paradoxo, os autores usaram imunoensaios diferentes, desenhados para detecção de fragmentos específicos da tau, e confirmaram o fato de PSP ter concentrações de tau menores que a DA e a de pessoas sem doenças neurodegenerativas. Estes achados reforçam uma nova tendência que vem despontando: talvez a proteína tau não represente apenas o nível de morte neuronal, mas também outros fatores ainda não definidos. Artigo para os interessados em biomarcadores, e pode ser lido GRATUITAMENTE no link abaixo.

Link: http://jnnp.bmj.com/content/86/3/244.full.pdf+html

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