Atualizações em Cefaleias – Fev/15

Publicado: 02/04/2015 em Cefaleias
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Migrânea e epilepsia: revisão da literatura

(“Migraine and epilepsy: review of the literature“)

Nye BL, Thadani VM

Headache. 2015 Mar;55(3):359-80

Abstract: Migrânea e epilepsia são doenças comuns, paroxísticas e crônicas. De vários aspectos, elas são doenças claramente distintas, porém existem algumas sobreposições fisiopatológicas, e sobreposições na sintomatologia clínica, particularmente no que diz respeito a sintomas visuais e sensoriais, dor e alteração da consciência. Estudos epidemiológicos têm revelado que as duas doenças são comórbidas em várias pessoas. Ambas são reconhecidas atualmente como se originando de distúrbios elétricos no encéfalo, mesmo que manifestações mais amplas estejam associadas a mecanismos patogênicos múltiplos. Um excesso na atividade neuronal na migrânea provoca a depressão alastrante cortical e aura, com o posterior recrutamento do núcleo do nervo trigêmeo levando à sensibilização central e dor. Na epilepsia, a hiperatividade neuronal leva ao recrutamento de extensas populações neuronais que disparam de maneira sincrônica, gerando uma crise epiléptica. A aura migranosa e as cefaleias podem atuar como um gatilho para crises epilépticas. Não é raro a epilepsia estar acompanhada de cefaleias pré-ictais, ictais ou pós-ictais, as quais com características migranosas. As associações genéticas são nítidas entre as duas doenças, e são particularmente evidentes nas síndromes de migrânea familiar hemiplégica, onde diferentes mutações podem produzir migrânea, epilepsia ou ambas. Além disso, várias medicações são eficazes tanto para migrânea quanto para epilepsia, novamente apontando para uma sobreposição entre as duas doenças.

Comentário: Considerando o fato de as duas estarem entre as doenças neurológicas mais comuns no mundo, os autores do artigo revisam as associações entre as duas doenças, tanto do ponto de vista clínico, quanto fisiopatológico e terapêutico. O texto é bem extenso, às vezes cansativo, mas cumpre bem a missão de revisar a grande quantidade de informações sobre as duas condições e suas associações.

Link: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/25754865

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Fatores associados com o surgimento e persistência de cefaleia pós-punção lombar

(“Factors associated with the onset and persistence of post-lumbar puncture headache”)

Monserrate AE, Ryman DC, Ma S, Xiong C, Noble JM, Ringman JM, Morris JC, Danek A, Müller-Sarnowski F, Clifford DB, McDade EM, Brooks WS, Darby DG, Masters CL, Weston PS, Farlow MR, Graff-Radford NR, Salloway SP, Fagan AM, Oliver A, Bateman RJ; Dominantly Inherited Alzheimer Network

JAMA Neurol. 2015 Mar 1;72(3):325-32

Abstract: Importância: Este estudo avalia os fatores associados com o mais comum efeito adverso ligado à punção lombar. Objetivo: Identificar fatores associados com o risco, surgimento e persistência da cefaleia pós-punção lombar (CPPL). Desenho, estratégia e participantes: Nós realizamos uma análise univariada e multivariada de 338 punções lombares no estudo observacional “Dominantly Inherited Alzheimer Network”, usando modelos lineares mistos, ajustados para parâmetros individuais e familiares. Principais desfechos e medidas: Nós avaliamos diretamente as associações entre os três desfechos posteriores à punção lombar (cefaleia pós-procedimento imediata, CPPL em 24 horas após procedimento, e CPPL que necessitou de blood patch terapêutico), e a idade e sexo dos participantes, posição de punção, método de coleta, tamanho da agulha, local de inserção da agulha e volume coletado de líquido cefalorraquidiano (LCR). Resultados: A incidência de eventos adversos incluiu 73 cefaleias pós-procedimento imediatas (21.6%), 59 CPPL em 24 horas após procedimento (17.5%) e 15 CPPL que receberam blood patch terapêutico (4.4%). Volumes maiores de LCR coletado estiveram associados a um risco aumentado de cefaleia pós-procedimento imediata, apresentando um padrão de aumento de risco não-linear para volumes acima de 30 mL (OR 3.73 para > 30 mL, e OR 0.98 pata < 17 mL). Em contraste, a coleta de maiores volumes mostrou um efeito protetor ao reduzir as taxas de CPPL em 24 horas após punção e as taxas de CPPL que receberam blood patch terapêutico (OR 0.35 a cada 10 mL coletado). Mesmo que as diferenças no tamanho das agulhas não tenham alcançado uma significância estatística, nenhum participante no grupo das agulhas 24G receberam blood patch terapêutico, comparado com 8 em 253 pacientes puncionados com as agulhas 22G (mais calibrosas). Conclusões e relevância: Os fatores que reduzem agudamente a pressão do LCR (como posição sentada ou retirada de volumes de LCR muito altos) podem estar associados com uma CPPL transitória, sem aumentar as taxas de CPPL persistente ou com necessidade de blood patch. A coleta até 30 mL de LCR aparenta ser bem tolerada e segura.

Comentário: A associação entre punção lombar e cefaleia é conhecida e temida por todos neurologistas. Para analisar fatores técnicos da punção lombar com risco de estarem associados à cefaleia pós-punção, estes autores analisaram um grande grupo de pessoas que foram submetidas à punção lombar para coleta de LCR com finalidade de um estudo sobre doença de Alzheimer. O estudo teve resultados não muito convincentes: em seu resultado mais robusto, mostrou que houve CPPL principalmente nas pessoas com coleta de LCR maior que 30 mL, e houve uma tendência em que punções feitas com a pessoa sentada e com agulhas mais calibrosas provocasse mais cefaleia após o procedimento. Um resultado muito interessante foi que, nestes pacientes, a retirada de até 30 mL de LCR não se correlacionou com CPPL. Acredito que estes resultados foram mais “benignos” do que o esperado pelo fato de quase todos os pacientes terem sido puncionados com agulhas atraumáticas, e por apresentarem um perfil clínico sem doenças graves com risco de irritação meníngea. Isto, de certo modo, não permite que estas conclusões sejam verdadeiras também para nossos pacientes, que são puncionados em geral com agulhas de ponta cortante e em contextos clínicos diversos (meningites, hemorragias subaracnoides etc.).

Link: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/25622095

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Surgimento de cefaleia persistente após AVC: Um seguimento de três anos

(“Development of persistent headache following stroke: A 3-year follow-up”)

Hansen AP, Marcussen NS, Klit H, Kasch H, Jensen TS, Finnerup NB

Cephalalgia. 2015 Apr;35(5):399-409

Abstract: Introdução: Cefaleia após AVC tem sido descrita em vários estudos prévios, com uma incidência de 23-54%, mas uma clara descrição da cefaleia que surge após o AVC ainda é deficiente. O objetivo do estudo foi determinar a incidência e característica de cefaleia nova persistente após AVC, e descrever o uso de medicações, incluindo dipiridamol. Métodos: Como seguimento de um estudo prospectivo, um questionário padronizado sobre as características da cefaleia nova e do uso de medicações foi enviado aos pacientes sobreviventes três anos após seus AVC’s. Resultados: O questionário foi enviado a 256 pacientes e retornaram 222, dos quais 12% (26/222) dos pacientes relataram cefaleia nova persistente. O dipiridamol não teve influência significativa na incidência. A cefaleia atribuída ao AVC, de acordo com os critérios pré-estabelecidos, foi relatada e, 7.2% (16/222) dos pacientes, sendo com características de cefaleia tipo tensional em 50%, com características de migrânea em 31.3% e com abuso de analgésicos em 6.25% dos pacientes. Mais da metade dos pacientes experimentaram dor moderada a grave tiveram uma pontuação de 55 ou mais na escala “Headache Impact Test-6”. Conclusão: Cefaleia nova após AVC afeta um a cada 10 pacientes e parece não estar relacionada com o uso de dipiridamol. Cefaleia persistente atribuída ao AVC é similar à cefaleia tipo tensional em metade dos pacientes.

Comentário: Este trabalho explora um tema comum e de grande importância clínica: o surgimento de cefaleia após AVC. Os autores seguiram pacientes que tiveram AVC isquêmico (AVCi) ou AVC hemorrágico (AVCh) e, após 3 anos, aplicaram um questionário caracterizando o surgimento de cefaleia após o ictus e suas características. Alguns dados interessantes: cerca de uma a cada 10 pessoas que têm um AVC desenvolvem cefaleia após o ictus; a cefaleia ocorre independentemente de ser AVCi ou AVCh, mas aqueles que apresentam uma lesão em hemisfério direito têm maior risco de desenvolver dor de cabeça. O dipiridamol, uma medicação antiplaquetária usada na profilaxia de AVCi e que pode causar cefaleia, não influenciou os resultados da coorte. A cefaleia após AVC tem características tensionais na metade dos pacientes, e em 30% deles, pode assumir aspectos migranosos. Pessoas com cefaleia prévias ao AVC são mais predispostas a desenvolver dor de cabeça persistente após o ictus.

Link: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/25164919

 

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