Arquivo da categoria ‘Distúrbios do Sono’

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Resumo da Diretriz Prática: Tratamento da síndrome das pernas inquietas em adultos

(“Practice Guideline Summary: Treatment of restless legs syndrome in adults”)

Winkelman JW, Armstrong MJ, Allen RP, Chaudhuri KR, Ondo W, Trenkwalder C, Zee PC, Gronseth GS, Gloss D, Zesiewicz T

Neurology. 2016 Dec 13;87(24):2585-2593

Comentário: A Síndrome das Pernas Inquietas (SPI) é um distúrbio motor amplamente prevalente na população mundial, porém bastante negligenciado, especialmente se levarmos em conta seus potenciais efeitos negativos sobre a qualidade do sono e que ele pode ser secundário à ferropenia, condição tão comum entre nós. Este resumo prático da guideline da Academia Americana de Neurologia gradua as alternativas terapêuticas farmacológicas e não farmacológicas conforme seu nível de evidência contra diversos aspectos da síndrome, dos sintomas-chave aos transtornos psiquiátricas associados. De nota, incluíram-se abordagens alternativas como compressão pneumática e estimulação magnética repetitiva transcraniana.

Do ponto de vista prático, uma mudança: esta diretriz sugere reposição de ferro oral para casos de ferritina < 75 mg%, e não < 50 mg%, como era orientado previamente. Além disso, parece que a gabapentina (na verdade, uma forma chamada gabapentina enacarbil) cada vez tem mais evidência de ação na SPI. Outra dica: a diretriz nos orienta a escolher o melhor tratamento baseado na presença de comorbidades psiquiáticas ou em distúrbios de sono comórbidos no paciente.

Link: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/27856776

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Prevalência de síndrome das pernas inquietas na cidade rural de Cássia dos Coqueiros no Brasil

(“Prevalence of restless legs syndrome in the rural town of Cássia dos Coqueiros in Brazil“)

Eckeli AL, Gitaí LL, Dach F, Ceretta H, Sander HH, Passos AD, do Prado GF, Fernandes RM

Sleep Med. 2011 Sep;12(8):762-7. Epub 2011 Aug 6
 
Abstract: Objetivo: Estimar a prevalência e avaliar as características e severidade das Síndromes das Pernas Inquietas em um comunidade urbana brasileira. Métodos: Estudo transversal conduzido durante 18 meses. Um neurologista realizou 1155 entrevistas utilizando os critérios diagnósticos do grupo de estudos internacional da Síndrome das Pernas Inquietas (GEISPI). Resultados: A prevalência ao longo da vida foi de 6,4%. Prevalência durante o último ano, durante o último mês e a última semana foi de  5,71%, 5,36% e 4,15%, respectivamente. Uma grande proporção de mulheres preencheram os critérios diagnósticos de SPI comparado aos homens (OR: 2,63, IC 95%; 1,54-4,51). Além disso, participantes com renda familiar baixa ( < $ 1575 USD) tiveram uma menor prevalência da doença comparada com famílias com alta renda familiar ( > $ 1575 USD) (OR: 2,91, IC 95%; 1,41-5,98). Conclusões: Este é o primeiro estudo epidemiológico de SPI conduzido na população brasileira. A prevalência total da doença e a maior proporção de SPI em mulheres neste estudo se assemelham aos achados de outros estudos conduzidos em países ocidentais. A associação de SPI com uma maior renda familiar não havia sido publicada e deve ser confirmada em estudos subseqüentes.
Comentário: Trata-se do primeiro estudo epidemiológico brasileiro sobre a prevalência da Síndrome das Pernas Inquietas (SPI). O estudo traz uma prevalência de SPI de 6,4% ao longo da vida, evidenciando a importância e o impacto desta doença.  Foi observado uma maior prevalência em mulheres e em indivíduos com maior renda econômica. Foi observado um acomentimento nas duas pernas em 98,5 % dos sujeitos, sendo observado, neste grupo, simetria dos sintomas em 79,1% dos participantes.  A maior parte dos sujeitos apresentou sintomas de intensidade moderada (40,6%). Um total de 22 (32,4%) destes indivíduos procuraram assistência médica, no entanto nenhum deles recebeu diagnóstico correto. Valores de ferritina sérica menor que 50 µg/ ml foram evidenciados em 37,5% dos sujeitos com SPI (n=51).  O estudo apresenta os seguintes pontos fortes: 1. Foi conduzido (entrevista e exame clínico) por médico neurologista com formação em medicina do sono, permitindo a exclusão de sujeitos falso-positivos; 2. Alta taxa de participação da população (94,06%); 3. Abordagem do paciente no seu domicílio, evitando viés de seleção dos pacientes incluídos; 4. Avaliação de gravidade através de questionário validado para o português (Brasil). Limitações do estudo: 1. Não foi realizada a dosagem de ferritina no grupo controle; 2. A população estudada não é representativa da população brasileira. Por fim, este é um estudo da mais absoluta relevância mostrando o impacto e a relevância da SPI em uma população brasileira.
 
 
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Morte Súbita Inesperada na Epilepsia e Sono

(“Sudden unexpected death in epilepsy (SUDEP) and sleep“)

Nobili L, Proserpio P, Rubboli G, Montano N, Didato G, Tassinari CA

Sleep Med Rev. 2011 Aug;15(4):237-46. Epub 2010 Oct 15
 
Abstract: O risco de morte súbita inesperada é notadamente alto em pacientes com epilepsia em relação a população geral. A morte súbita inesperada em epilepsia (SUDEP) é provavelmente causada pela coexistência no período pós-ictal de fatores predisponentes e precipitantes. Entre estes, a ocorrência de crise convulsiva antes do evento fatal é o único fator constantemente presente. Diferentes mecanismos, a saber arritmias cardíacas, disfunções respiratórias, desregulação da circulação sistêmica ou cerebral foram sugeridos como potencial mecanismos fisiopatológicos. Além disso, dados clínicos sugerem que SUDEP ocorre preferencialmente durante o sono. No intuito de avaliar uma possível relação entre sono e SUDEP, foram avaliados estudos nos quais havia informações suficientes sobre as circunstâncias da morte do paciente. As análises confirmaram que as relações entre sono e SUDEP não ocorreram exclusivamente ao acaso, uma vez que a ocorrência de SUDEP durante o sono é maior que 40% na maior parte dos estudos. Foi discutido possíveis mecanismos a longo prazo e precipitantes envolvendo a interação entre sono e epilepsia parecendo favorecer a ocorrência de SUDEP. De acordo com esta perspectiva, possíveis medidas preventivas foram hipotetizadas.

Comentário: Trata-se de artigo de revisão sobre a morte súbita inesperada relacionada a epilepsia (SUDEP) e suas possíveis relações com o sono e seus transtornos. O artigo traz prevalências de SUDEP durante o sono maiores de 40%, levando a considerar que não se trata de mera coincidência. Dessa forma, possíveis mecanismos relacionados a fisiologia no sono nos pacientes com epilepsia, assim a influência de doenças do sono, como a apnéia do sono, podem contribuir com a maior ocorrência de SUDEP durante o sono. Entre os fatores de risco para a ocorrência de SUDEP destaca-se: o controle insatisfatório das crises, a alta freqüência dos eventos ictais, as epilepsias de início na juventude e com longo duração. Entre os fatores precipitantes, a ocorrência de crise convulsiva precedendo a SUDEP parece ser uma característica marcante. Os mecanismos propostos para SUDEP são afetados de diferentes formas durante o sono. A epilepsia ocasiona diversas alterações durante o sono, a saber: alterações autonômicas e o aumento no número de microdespertares e de mudanças de fases do sono, mesmo na ausência de crises convulsivas. Estes últimos são ocasionados em parte por atividade epileptiforme interictal e por atividades periódicas. Entre as alterações autonômicas destaca-se a redução, em relação a sujeitos normais, da variabilidade fisiológica da freqüência cardíaca, principalmente em sono NREM, predispondo a ocorrência de arritmias. Vale ressaltar ainda a prevalência aumentada de distúrbios do sono nos pacientes com epilepsia, como a Síndrome da Apnéia Obstrutiva do Sono, demonstrada em diferentes estudos. Estapor sua vez favorece a ocorrência de SUDEP pelas disfunções autonômicas pelos eventos respiratórios durante o sono assim como pelo maior número de despertares neste indivíduos. Outros transtornos do sono levam a privação do sono, piorando a freqüência de crises convulsivas. Os autores sugerem, por fim, que a SUDEP possam ser previnida por medidas simples como hábitos de vida regulares, higiene do sono adequada, uso de travesseiros “anti-sufocantes”, supervisão durante o período noturno, além da detecção e tratamento dos transtornos do sono.

Link: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/20951616

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Hiperssonia Recorrente: Uma revisão de 339 casos
 
(“Recurrent hypersomnia: A review of 339 cases“)
  

Sleep Med Rev. 2011 Aug;15(4):247-57. Epub 2010 Oct 20

Abstract: Baseado numa revisão de 339 casos identificados, foram identificados e comparados 4 formas clínicas de hiperssonias recorrentes: (1) Síndrome de Kleine-Levin (KLS) (239 casos); (2) Síndrome de Kleine-Levin sem sintomas compulsivos alimentares (KLS WOCE) (54 casos); (3) Hiperssonia relacionada a menstruação (MRH) (18 casos); e Hiperssonia recorrente com comorbidades (RHC) (28 casos). A segunda parte da revisão considerou os principais temas correntes nas hiperssonias recorrentes: os fatores predisponentes, incluindo um aparte com casos familiares; a patofisiologia baseado em aspectos clínicos, informações de neuroimagem, exames neuropatológicos e medidas de hipocretina-1 no líquido cerebroespinhal; Temas de recorrência e uma possível disfunção de sistemas do ritmo circadiano; a relação de hiperssonia com transtornos de humor; e um comentário sobre Síndrome de Kleine-Levin atípico. Os principais objetivos deste estudo são: fazer uma distinção nosológica clara das diferentes formas de HR, destacar o achado que a prevalência de KLS familiar é semelhante aos casos familiares de narcolepsia, sugerir possíveis mecanismos com envolvimento de grande quantidade de estruturas corticais e subcorticais na hiperssonia recorrente e avaliar possíveis evidências que aproximam as HR dos transtornos do humor.
Comentário: Trata-se de estudo de revisão sobre as diferentes formas de hiperssonia recorrente. Diferente de outros artigos publicados anteriormente, este não se restringiu apenas a Síndrome de Kleine-Levin assim como também comparou os diferentes subtipos de HR. O artigo trouxe ainda subtipos diferentes de HR dos já abordados na Classificação Internacional dos Distúrbios do Sono, 2ª. Edição, a saber: KLS WOCE, RHC e Síndrome de Kleine-Levin atípica. Entre as características avaliadas da KLS, destaca-se uma prevalência de apenas 30% para aparecimento simultâneo de HR, compulsão alimentar e desinibição sexual durante os episódios. Os casos em que ocorrem a apresentação dos três sintomas relatados associado a comportamentos estranhos (comportamento social inapropriado, esteriotipias motoras e comportamentos infantilizados) ocorre em apenas 14,2% do total. Na hiperssonia relacionada a menstruação foi relatado o puerpério ocasionando episódios de HR além dos períodos menstruais. Foi proposta baseado na análise de casos sintomáticos, além de estudos com SPECT durante o evento e entre os eventos, de fisiopatologia que envolva além do hipotálamo a perda da conectividade de regiões corticais e  subcorticais com o sistema límbico. Foi descrito casos de Hiperssonia recorrente associado a comorbidades em lesões frontais, talâmicas e pedunculares. Merece destaque ainda a caracterização da Síndrome de Kleine-Levin atípica na qual ao invés da hiperssonia recorrente e da compulsão alimantar, podem ocorrer, insônia e/ou anorexia, respectivamente, durante os episódios de ataque. A limitação deste estudo consiste no fato de tratar-se de estudo retrospectivo com fontes heterogêneas de descrição clínica, radiológica e laboratorial dos pacientes, além de uma quantidade importante de dados não disponíveis nas publicações.
 
 

Valores normativos de parâmetros polissonográficos na infância e adolescência: os parâmetros quantitativos do sono

Normative values of polysomnographic parameters in childhood and adolescence: quantitative sleep parameters

Scholle S, Beyer U, Bernhard M, Eichholz S, Erler T, Graness P, Goldmann-Schnalke B, Heisch K, Kirchhoff F, Klementz K, Koch G, Kramer A, Schmidtlein C, Schneider B, Walther B, Wiater A, Scholle HC

Sleep Med. 2011 Jun;12(6):542-9. Epub 2011 May 20

 

Abstract: OBJETIVO:  Fornecer valores normativos para a macroarquitetura do sono de crianças saudáveis ​​com idades entre 1-18 anos usando os critérios da AASM, avaliando os efeitos do gênero, idade e estágio puberal. MÉTODOS:  Polissonografia de noite inteira realizada em 209 crianças alemãs saudáveis no horário de sono habitual em 16 laboratórios ​​de sono. RESULTADOS:  Valores normais da macroestrutura do sono são idade-dependentes (p <0,05). Aumentam com a idade: índice de despertares, a latência para o sono REM(RL), eficiência do sono (SE) (tempo total de sono (TST) / periodo de sono (SPT)) e SE (TST / tempo na cama), estágio N2, duração média do ciclo do sono , número de trocas de estágio de sono. Diminuem com a idade: TST, SPT, tempo acordado após início do sono (WASO), estágio N3, estágio REM, tempo de movimento (MT), número de ciclos de sono. Os parâmetros de sono a seguir mostram uma dependência do desenvolvimento (estágios de Tanner), bem como da idade correspondente (p <0,05): TST, SPT, o índice de despertar, latência para o sono REM, N2, N3, MT, número de ciclos de sono, a média de duração do ciclo do sono. Não foram encontradas dependências de gênero. CONCLUSÃO:  Este estudo, considerando-se as regras AASM, mostra o desenvolvimento do sono em crianças normais com idades entre 1-18. São discutidos critérios de seleção dos sujeitos e outros fatores que influenciam o sono, bem como modificações nas diretrizes da AASM, incluindo marcação dos despertares em N2 e MT, como medida da fragmentação do sono.

Comentário: Desde a publicação do manual da AASM para marcação do sono e eventos associados em 2007, há muita discussão na literatura sobre quais seriam os valores normais para interpretação do exame de polissonografia. Na faixa étaria de crianças e adolescents, a literature ainda é muito escassa e esse estudo  vem colaborar para sistematizar o conhecimento nessa área. Por ser um estudo realizado em um único país, efeitos da etnia devem ser considerados.

Link: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/21601520

 

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Alterações nas respostas à dor em pacientes com síndrome das pernas inquietas tratados e não tratados: associações com distúrbios do sono

Alterations in pain responses in treated and untreated patients with restless legs syndrome: associations with sleep disruption

Edwards RR, Quartana PJ, Allen RP, Greenbaum S, Earley CJ, Smith MT

Sleep Med. 2011 Jun;12(6):603-9

Abstract: OBJETIVO: Há um interesse recente na caracterização de possíveis anormalidades no processamento da dor em pacientes com transtornos do sono como na Síndrome das Pernas Inquietas (SPI). O objetivo deste estudo foi avaliar as respostas psíquicas e físicas a estímulos nocivos tipo calor e pressão em pacientes com SPI tratados e não tratados, e compará-los com controles pareados. MÉTODOS: Este estudo é uma comparação transversal entre  grupos de pacientes com SPI e controles. Um total de 31 pacientes (15 tratados, 16 não tratados) com diagnóstico confirmado de SPI foram comparados com 18 controles sem história de SPI ou transtornos do sono relacionados. RESULTADOS: Pacientes com SPI (tanto os tratados, quanto os não tratados) demonstraram limiares de dor reduzidos e relataram mais dor em relação aos controles. Além disso, os pacientes com SPI demonstraram aumento da somação temporal à dor pelo calor (p <0,05), o que pode refletir facilitação da transmissão aberrante da dor no sistema nervoso central desses pacientes. Os pacientes com SPI (tratados ou não) relataram sono mais fragmentado em relação aos controles e análises de mediação sugeriram que o limiar reduzido à dor em pacientes com SPI podem ser atribuidos à interrupção do sono. No entanto, o efeito da SPI na magnitude da somação temporal de dor pelo calor foi independente da fragmentação do sono. CONCLUSÃO: Estes achados sugerem que o processamento central da modulação da dor pode estar alterado nos pacientes com SPI, possivelmente em parte como conseqüência da interrupção do sono. Esses pacientes, mesmo aqueles cujos sintomas são gerenciados farmacologicamente, podem estar sob risco para o desenvolvimento ou manutenção de dor persistente a longo prazo. Novos estudos em populações maiores poderiam ajudar a melhorar as perspectivas de tratamento da dor em pacientes com síndrome das pernas inquietas.

Comentário: O processamento central da dor é motivo de grande interesse em várias áreas da prática neurológica, a importância dos transtornos do sono nesse âmbito tem crescido, podendo levar a alguma ajuda no manejo desses pacientes. Especificamente no caso da SPI, a fisiopatologia ainda não está completamente elucidada apesar das evidências apontarem para a importância dos sistemas dopaminérgico e opioidérgico. Há dúvida se esta predisposição à dor é consequência da fragmentação do sono causado pelos movimentos periódicos ou se existe um substrato estrutural comum a ambas. Nesse contexto, o presente estudo, conduzido em um dos grupos com maior influência nas publicações em SPI, com estímulos padronizados e controles pareados, oferece fundamentação para estudos posteriors nesta area.

Link: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/21570347

 

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A apnéia do sono é um preditor mais forte para doença coronária do que os fatores de risco tradicionais

Sleep apnea is a stronger predictor for coronary heart disease than traditional risk factors

Martinez D, Klein C, Rahmeier L, da Silva RP, Fiori CZ, Cassol CM, Gonçalves SC, Bos AJ

Sleep Breath. 2011 Jul 28. [Epub ahead of print]

 

Abstract: INTRODUÇÃO: A apnéia do sono (AS) pode estar ligada à doença arterial coronariana (DAC). Ambas as condições apresentam fatores de risco semelhantes, confundindo a análise. A investigação do perfil lipídico é rotina na população adulta, mesmo sem sintomas ou doença cardíaca suspeita. A AS, no entanto, continua subdiagnosticada, mesmo na presença de manifestações clínicas inequívocas. OBJETIVO: O objetivo deste estudo foi verificar a associação entre AS e DAC, com ajuste dos fatores de risco habituais para DAC. MÉTODOS: Pacientes submetidos a coronariografia diagnóstica ou terapêutica e a polissonografia portátil do tipo III foram estudados. A gravidade da AS foi determinada pelo índice de apnéia-hipopnéia (IAH). Fatores clássicos de risco para DAC foram medidos: glicemia de jejum; Colesterol total, HDL, e LDL; triglicérides, ácido úrico, e proteína C reativa de alta sensibilidade. Foram excluídos os pacientes com mais de 65 anos, com índice de massa corporal superior a 40 kg/m2, diabéticos, e com história de tabagismo no ano anterior. RESULTADOS: Dos 55 pacientes incluídos, 28 tiveram IAH> 14, mostrando uma razão de chances de 8,7 para DAC. Pacientes sem DAC (n = 29) e com DAC (n = 26), evidenciaram AHI de, respectivamente, 11 ± 11 e 23 ± 14 por hora (P = 0,001). Em uma regressão logística binária para prever DAC, controlando todos os fatores de risco acima, as únicas variáveis que entraram no modelo “stepwise” foram IAH ( tanto como variável contínua ou categórica) e ácido úrico. CONCLUSÃO: Em uma amostra sem fumantes, obesos mórbidos, ou pacientes diabéticos, IAH é o principal preditor de DAC. AS deveria integrar o conjunto de fatores de risco avaliada rotineiramente em investigação clínica para a estratificação de risco de doença coronária.

Comentário: O presente estudo, um caso-controle, realizado por grupo brasileiro do Rio Grande do Sul, está em conformidade com o crescente número de publicações apontando a Síndrome da Apnéia do Sono (SAOS) como fator de risco para aterosclerose, no caso a DAC. O controle das possíveis variáveis confundidoras é o ponto forte do trabalho. A regressão logística é recurso frequentemente usado mesmo nos grandes coortes como o Sleep Heart Health Study e o Wisconsin Sleep Cohort Study, para avaliação da SAOS de forma isolada,  devido à associação de comorbidades nesses pacientes. Infelizmente ainda há resistência na avaliação rotineira para SAOS nesses pacientes, seja por desconhecimento ou pelo custo de realizar a polissonografia.  Nesse trabalho foi utilizado polígrafo portátil do tipo III, estratégia cada vez mais usada pela facilidade e menor custo. Apesar de promissora, é importante lembrar que esse método ainda não pode ser usado de forma irrestrita, sendo recomendado para pacientes de alto risco para SAOS.

Link: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/21796489